Pgina Inicial  
revistas artigos autores noticias  
Página Inicial
Direcção e Redacção
Conselho de Redacção
Estatuto Editorial
Condições de assinatura para 2014 e 2015
Edições noutros países
Livrarias onde Adquirir
Publicações Communio
Nota Histórica
Ligações
Contactos
Pesquisa
Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XVII • 2000-04-30 • nº 2 • Março/Abril
Trindade e Eucaristia
 
palavra-chave
 
   

artigos
O ícone da Trindade de Rublev. Do conselho eterno ao banquete eucarístico • pág 101
Babolin, Sante
O mistério da Igreja e da eucaristia à luz do mistério da Santa Trindade • pág 112
Comissão mista Católica Romana-Ortodoxa
Pão partido e vinho derramado, rosto do crucificado ressuscitado. Meditação sobre Emaús • pág 118
Tremblay, Réal
Dimensão trinitária da adoração eucarística • pág 129
Carvalho, Maria Manuela da Conceição Dias de
Eucaristia e missão da Igreja • pág 138
Duque, João Manuel
Trindade e eucaristia em Maurice Blondel • pág 151
Antonelli, Mario
O mistério de unidade e trindade. Comunidade e sociedade à luz da fé trinitária • pág 164
Nichtweiss, Barbara
Homilia do pedido de perdão • pág 181
Paulo II, João
Densidade da presença de Deus. • pág 186
Cima, Augusto
Arrisco uma palavra: esperança. • pág 189
Malícia, Paulo


apresentação

H. NORONHA GALVÃO

Na eucaristia torna-se presente, no meio de nós e em cada um de nós, o mistério Trinitário de Deus. É Deus no mais íntimo do seu mistério que nos é revelado e concedido por Jesus Cristo, seu Filho, no Espírito Santo.
E que melhor representação dessa realidade, a mais profunda e central da fé cristã, senão o ícone da Santíssima Trindade (ou da Santa Trindade, como dizem os cristãos orientais) realizado por Rublev e que, magistralmente, Sante Babolin nos apresenta e decifra: o Conselho eterno Trinitário vem até nós no banquete eucarístico.
Dois outros textos, respectivamente da Comissão mista para a conciliação e unidade entre os católicos romanos e os ortodoxos, e do redentorista Réal Tremblay, prosseguem na mesma via de reflexão, o primeiro ainda numa perspectiva próxima da espiritualidade ortodoxa de Rublev, o segundo valorizando a teologia pascal da cruz e ressurreição enquanto analisa a revelação do Senhor ressuscitado aos discípulos de Emaús. O pão partido e o vinho derramado são, na eucaristia, símbolos do crucificado que ressuscitou, operando uma intimidade única com os que, pela fé, a ele estão unidos. Esta mesma eucaristia, no artigo de Maria Manuela de Carvalho, revela-se como o lugar da adoração Trinitária, fazendo-nos aceder, no tempo, à sua realidade supratemporal. Mas é este, também, o lugar da missão da Igreja, enquanto sua acção celebrativa real-simbólica e como memória da Salvação de Deus que, assim, é actualizada na plenitude do seu porvir. É o que nos explica João Duque, mostrando-nos como a eucaristia nos revela “a mais radical gratuidade do dom de Deus”.
Como mistério do Deus criador, a Trindade divina está já presente em toda a realidade criada. Mas, para o filósofo Maurice Blondel, segundo nos expõe Marco Antonelli, também a eucaristia é inspiradora para a sua visão do que une e sustenta toda a realidade como acção (vinculum substantiale). Se o vínculo substantial “deve ser actividade pura, racionalidade original que produz todas as coisas”, ele deve ser também “passividade absoluta, sensibilidade original que quer que todas as coisas sejam sujeitas à acção”. É o que, na eucaristia, o Verbo incarnado realiza, de maneira abrangente, pela condição humilde que toma a sua divindade; aí aparece como o vínculo dos vínculos, como o vinculum vinculorum. E não é o mistério Trinitário, que ele revela, a realidade máxima e fontal do amor de caridade, o laço substancial de tudo? No próprio Deus, o Espírito Santo é o ósculo do Pai e do Filho, o seu vínculo. O que leva o filósofo à conclusão: “Mais do que conhecimento, mais do que produção, o ser é amor.”
B. Nichtweiss explora, no seu artigo, as diversas possibilidades de o mistério divino de unidade e trindade ser modelo de mundividências e de concepções da Igreja, da sociedade e do mundo. De realçar, hoje em dia, a atenção dada à pericorese, isto é, à interpenetração mútua que caracteriza, na circulação do amor divino, as relações entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. É um princípio da realidade divina que só em Deus existe, pois Deus, em toda a sua Transcendência, escapa a alternativas – por exemplo, à de unidade e pluralidade – que se impõem nas realidades criadas. Paradoxalmente, porém, o conhecimento da singularidade do ser de Deus, segundo a revelação de Jesus Cristo, abriu e abre horizontes insuspeitados para o conhecimento da realidade criada, em primeiro lugar da humana. Diz-se, assim, que o conhecimento de Deus é analógico, no sentido preciso de uma comparação em que a diferença é maior do que a semelhança. O que sempre de novo nos remete para a alteridade absoluta de Deus; mas nos faculta, simultaneamente, uma fonte de conhecimento e inspiração no que respeita às dimensões mais profundas e decisivas do ser criado. A pericorese (segundo uma palavra grega, também traduzida em latim por circumincessio ou circuminsessio), significa esse ponto de encontro entre a unidade e a trindade em Deus. Não admira, por isso, que a pericorese inspire hoje toda uma teologia de comunhão, de uma unidade que valorize as diferenças, e de diferenças que promovam a unidade; para além disso, leva a concepções do mundo e da sociedade que se regem pelos mesmos valores.
Valores que, poderíamos acrescentar, encontram a sua expressão e realização sobretudo na celebração comunitária eucarística. Através de dois impressionantes testemunhos, de Paulo Malícia e Augusto Cima, capelães respectivamente numa prisão e num hospital psiquiátrico, é-nos mostrado como a eucaristia nos permite entrar no próprio mistério da vida, nas circunstâncias mais particulares.

 

 
  KEOPS multimedia - 2006