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Titulo do Artigo
Autor
Ano XVI • 1999-12-31 • nº 6 • Novembro/Dezembro
Reino de Deus e Milenarismos
 
palavra-chave
 
   

artigos
Reino de Deus e progresso • pág 485
Marto, António
Messianismo em Israel. Das origens ao tempo de Jesus • pág 495
Carvalho, José Ornelas
Expectativa próxima do Reino de Deus e vivência da fé • pág 507
Balthasar, Hans Urs von
O Apocalipse é milenarista? Interpretação de Ap 20,1-10 • pág 518
Vanni, Ugo
Viagem iniciática, des-(en)cobrimento(s), u-topia e milenarismo • pág 534
Borges, Paulo
Seitas e tentação milenarista • pág 547
Neves, Joaquim Carreira das
Fé, verdade e cultura. Reflexões a propósito da encíclica Fides et ratio II • pág 557
Ratzinger, Joseph
Porque se não fala hoje, nas homilias, dos fins últimos? • pág 569
Calster, Stefaan van


apresentação

MARIA C. BRANCO

A encerrar a sua publicação nos anos 90, a COMMUNIO dedica este nú-mero ao tema “Reino de Deus e milenarismos”. A entrada no ano 2000 tem servido de pretexto para uma excepcional publicidade a possíveis acontecimentos associados ao final do milénio (o qual, de facto, só acontecerá no próximo ano). Mas o que se pretende com este fascículo é aproveitar a ocasião para reflectir mais profundamente sobre a nossa esperança no Reino de Deus  e, paralelamente, sobre a ideia de milenarismo que se desenvolveu no interior da história bíblica, tendo como inspiração o livro do Apocalipse (especialmente 20,1-10). Sobre esta discutida passagem se debruça o artigo de Ugo Vanni, “O Apocalipse é milenarista?”
O milenarismo, enquanto expectativa de se vir a realizar na terra um reino de Cristo pelo período de mil anos, antecedendo as realidades finais do tempo (os eskhata), adoptou diferentes formas ao longo da história. Tendo na sua base uma componente religiosa, não deixou também de caminhar para formas secularizadas, como foi a utopia do progresso. Qual, então, o significado do progresso humano perante a proclamação messi-ânica de Jesus: “O Reino de Deus está próximo; convertei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1,15)? Desta questão trata o artigo de António Marto.
Frequentemente, os termos milenarismo e messianismo andaram associados, mas só por erro podem ser confundidos. Como diz Jean Séguy, “o milenarismo representa uma das formas que tomou a frustração da esperança messiânica”.1 Importa, pois, reflectir sobre a verdadeira esperança messiânica, no Antigo Testamento, fundada na promessa de Deus ao povo de Israel e, mais especificamente ao rei David. É justamente acerca do messianismo em Israel e da atribuição do título de Messias a Jesus que nos fala o artigo de José Ornelas.
Que significa que Jesus, Ele próprio, esperava a vinda iminente do Reino de Deus? Pela sua obediência, ele encaminhava-se para o fim da sua vida, sabendo que este coincidia com a vinda do Reino do Pai. No fim da missão de Jesus, só Deus vem. Ele é o “chefe e consumador da fé” (Hb 12, 2), levando consigo todos os que Ele integra no seu tempo. Pelo Espírito, introduz toda a realidade na liberdade do Deus Trinitário. “O tempo de Cristo não é nem puro tempo do mundo, nem além-tempo sem tempo, é afinal o único verdadeiro tempo no qual nos é permitido viver protegidos pela ampla liberdade do Senhor.” É o que nos diz Hans Urs von Balthasar.
Nas palavras do historiador das mentalidades Jean Delumeau, “Portugal é um país que, do sec. XV ao sec. XVII, foi percorrido por profundas correntes milenaristas que, a serem ignoradas, tornam incompreensível a sua história”.2 Refere, ainda, como a mais recente investigação mostrou que “era necessário conferir um significado escatológico aos projectos e expedições além-mar de D. Manuel”(ibid.). Na cultura portuguesa, o pensamento milenarista atinge o seu expoente máximo na visão do Quinto Império do padre António Vieira.  Mas, mesmo em Vieira, a realização das profecias escatológicas relacionadas com o papel de Portugal no mundo, está profundamente marcada pelo imaginário dos Descobrimentos e do Novo Mundo, como nos mostra Paulo Borges.
A América do Norte foi encarada pelos colonos como a nova terra prometida, e para aí seria transferida a verdadeira e santa Igreja de Cristo – era um lugar deserto que ainda não havia sido atingido pela corrupção que grassava na Europa. Este tipo de dicurso imbuído de espírito milenarista esteve na base do nacionalismo religioso americano, conduzindo à sua independência e também ao aparecimento de inúmeras seitas, como nos conta Joaquim Carreira das Neves.
Uma verificação que nos é dado fazer nos dias de hoje, é a ausência do tema da escatologia, nas homilias. St. van Calster, pastoralista, dá-nos um testemunho, baseado na sua experiência, das razões que pensa estarem por detrás desse comportamento e propõe a forma de o ultrapassar.
Refira-se ainda a publicação da 2ª parte do artigo do Cardeal Joseph Ratzinger, “Fé, verdade e cultura”, a partir de uma conferência realizada a propósito da encíclica Fides et ratio.


1 Messianismes et millénarismes. Ou de l’attente comme catégorie de l’agir social, in: Fr. Chazel, Action collective et mouvements sociaux, Paris: PUF 1993, 94.
2 O Fim dos Tempos. Conversas com Stephen Jay Gould, Jean Delumau, Jean-Clau-de Carrière e Umberto Eco, Lisboa: Terramar 1999, 95.

 

 
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