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Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XVI • 1999-10-31 • nº 5 • Setembro/Outubro
Temperança
 
palavra-chave
 
   

artigos
A temperança, virtude estóica ou cristã? • pág 389
Arts, Herwig
Temperança e dom de si • pág 398
Bellon, Angelo
Simplicidade, sobriedade e solidariedade. Três “sss” no caminho das boas práticas • pág 414
Silva, Manuela
Temperança e crise global do ambiente • pág 424
Soromenho-Marques, Viriato
Temperança e política • pág 433
Silva, Augusto Santos
Figuração da temperança na obra de Álvaro Siza Vieira • pág 438
Fonseca, José M. Salgado
Dante e a temperança • pág 449
Reguzzoni, Giuseppe
Fé, verdade e cultura. Reflexões a propósito da encíclica Fides et ratio I • pág 464
Ratzinger, Joseph
Sexualidade e temperança • pág 473
Avillez, Mary Anne D'


apresentação

PETER STILWELL – TERESA MONTEIRO FERNANDES


A revista COMMUNIO tem vindo a dedicar anualmente um número às virtudes cardeais. Completamos a sequência com o presente número, dedicado à virtude da “temperança”.
Predisposição da vontade, eixo estruturante da personalidade, a virtude imprime ao agir o vigor afirmativo que a cultura clássica associava à dimensão masculina, à virilidade. A floresta de impulsos e motivações contraditórias ameaçam continuamente conduzir o indivíduo a uma actuação inconsequente ou a um bloqueio da sua capacidade de resposta no momento crucial da decisão. As virtudes imprimem nessa realidade física, psicológica e espiritual uma hierarquia, uma selecção, uma articulação de motivos e opções, subordinando-os à luz da razão.
Era convicção dos estóicos que, perante as solicitações e ameaças do mundo, o indivíduo podia, pela formação e exercitação das virtudes, erguer-se acima das circunstâncias e atingir um grau superior de indiferença, passando a agir não como escravo de pressões externas e motivações interiores de carácter passageiro mas em sintonia com a razão pessoal e, em última instância, com o logos universal. À partida, tratava-se, portanto, de uma preocupação com o aperfeiçoamento pessoal, sem referência ao mundo nem aos outros.
Ao invés da apregoada moderação do estoicismo, como nos recorda Herwig Arts, para a tradição evangélica o outro é altamente relevante e o amor ocupa o lugar central e, por isso, a espiritualidade cristã “tem algo de excessivo, de total, de infinito”. Com efeito, a temperança como controlo das paixões e limitação dos desejos, só tem sentido, em contexto cristão, enquanto “premissa indispensável para que a pessoa se possa realizar plenamente no dom de si” (Angelo Bellon). No fundo, para o cristão todas as virtudes se subordinam ao amor; e a temperança, como recordou St. Agostinho, não é mais do que “o amor, conservando a integridade… do amado para a amada”.
Um conjunto de artigos procura articular a teoria sobre a temperança com a prática em diversas áreas da cultura contemporânea. Manuela Silva, economista que há muito nos habituou a um confronto exigente da fé com a prática quotidiana, analisa o desafio que representam os três “sss” – simplicidade, sobriedade e solidariedade – para o nosso estilo de vida. Augusto Santos Silva, que assumiu recentemente o cargo de Secretário de Estado da Administração Educativa, abandonando a coluna semanal no jornal Público por onde muitos o acompanharam na apreciação da vida colectiva, reflecte sobre a temperança ou sobriedade na vida política, e realça dois princípios que se lhe afiguram particularmente pertinentes: “tratarmo¬nos uns aos outros como sujeitos” e “tratar os                           bens públicos como bens comuns”. Viriato Soromenho Marques, conhecido pela sua militância e preocupação ecológicas, realça a importância da virtude da moderação e da temperança para uma era em que a abundância da produção e do consumo foram erigidos em princípios constitutivos de uma civilização. A temperança, a seu ver, é hoje decisiva para construção de uma identidade pessoal fundada em relações humanas autênticas; é porta de entrada para modelos de desenvolvimento assentes num progresso material limitado; representa uma atitude de abertura aos direitos dos pobres e das gerações futuras, e de respeito por todos os seres vivos. No campo da arquitectura, José Manuel Salgado Fonseca aprecia “A figuração da temperança na obra de Álvaro Siza Vieira”. G. Reguzzoni, por seu lado, investe na literatura e analisa o tratamento dado à virtude da temperança na obra de Dante. Por fim, Mary Anne d’Avillez dá o seu testemunho sobre “Temperança e sexualidade”, partindo de uma larga experiência em movimentos de casais e em trabalhos de formação e acompanhamento técnico desenvolvidos pelo Movimento de Defesa da Vida.
Incluímos ainda a primeira parte de um artigo do Cardeal Ratzinger sobre a recente encíclica do Papa, Fides et ratio. Com um característico traço polémico, Ratzinger reflecte sobre o confronto entre fé cristã e cultura, e mais especificamente entre fé cristã e cultura religiosa: como pano de fundo adivinham-se as questões actuais da inculturação da fé e da evangelização das culturas; como interpelação, é evocado o exemplo de como já no Antigo Testamento “a fé de Israel significa um contínuo ultrapassar da própria cultura para o domínio aberto e vasto da verdade comum”.

 
  KEOPS multimedia - 2006