Pgina Inicial  
revistas artigos autores noticias  
Página Inicial
Direcção e Redacção
Conselho de Redacção
Estatuto Editorial
Condições de assinatura para 2014 e 2015
Edições noutros países
Livrarias onde Adquirir
Publicações Communio
Nota Histórica
Ligações
Contactos
Pesquisa
Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XVI • 1999-08-31 • nº 4 • Julho/Agosto
Acolher o Estrangeiro
 
palavra-chave
 
   

artigos
O estrangeiro, um sinal dos tempos. Perspectivas sobre a realidade europeia • pág 293
Teixeira, Alfredo
Podem os estrangeiros roubar? Casos de emergência no Antigo Testamento • pág 308
Schenker, Adrien
Uma oportunidade dada aos crentes • pág 313
Armogathe, Jean-Robert
Os ciganos em Portugal. Direito à diferença • pág 320
Figueiredo, Filipe de
A Igreja perante o desafio da migração • pág 332
Köppel, Urs
A Europa perante os refugiados. Entre os direitos da pessoa e a razão de Estado • pág 342
Huot, Jean-Claude
O dever da hospitalidade • pág 356
Lille, Alain de
Crisóstomo, S. João
“O estrangeiro de si próprio”. Textos inéditos • pág 360
Pessoa, Fernando
O drama dos Balcãs. Raízes históricas • pág 362
Tavares, Adérito
Que fazemos pelas nossas paróquias? • pág 373
Mesnet, Jean
Quem tem medo do estrangeiro? • pág 379
Wiesel, Elie
Angolanos na paróquia de St. António dos Cavaleiros • pág 383
Leandro, António


apresentação

MARIA LUÍSA FALCÃO – JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Era estrangeiro e acolhestes-Me
Mt 25, 35

À medida que o processo da globalização torna, cada vez mais, o mundo numa mega-aldeia comum, reforça-se a inevitabilidade do encontro entre indivíduos, culturas, religiões... O nosso tempo, como recorda Alfredo Teixeira no artigo que abre este volume da COMMUNIO, é já “o tempo do estrangeiro, tal a importância de realidades como as migrações, os exilados e refugiados, as diversas e complexas formas de exclusão, a multiplicação das periferias”. Por isso, pareceu-nos oportuno propôr aos nossos leitores uma reflexão interdisciplinar sobre o tema.
O estrangeiro é o outro, o-de-fora, o que, pela sua diversidade, coloca questões ao modo como configuramos a existência. Mas vencido o receio perante aquele que nos é “estranho”, há que passar do limbo da indiferença ao círculo da empatia. A nossa civilização guarda, nesta matéria, uma ambiguidade dolorosa, porque se divide entre exemplos de uma profícua relação com este “outro” e momentos em que reage com violência à sua proximidade. Como acolher, então, o estrangeiro? A tradição bíblica dedica ao estrangeiro uma atenção privilegiada. Nenhuma prática religiosa pode pretender-se verdadeira se despreza o direito dos mais fracos, entre os quais se refere sempre o estrangeiro. Adrien Schenker retoma algumas passagens do Antigo Testamento para analisar, através de uma pergunta provocadora: “Podem os estrangeiros roubar?”, as circunstâncias em que os limites da lei são transpostos em nome da reposição de uma justiça espezinhada.
A verdade é que se mergulharmos nas raízes judeocristãs, percebemos que a nossa fé é, desde Abraão, a fé “dos grandes migrantes”. É isso que defende J.-R. Armogathe num texto sobre as imigrações. Um imigrante, mais do que um problema sócio-cultural, deve ser um desafio a não passarmos ao lado da nossa condição de companheiros de uma mesma história da humanidade.
Em “Os ciganos em Portugal”, Filipe de Figueiredo refere a origem e a cultura do povo cigano e as vicissitudes do seu peregrinar histórico. São palavras ditadas por um profundo conhecimento do problema, mas também por um coração que acolhe o outro e lhe reconhece o direito à diferença. Urs Köppel, por sua vez, vê na mobilidade dos povos um sinal dos tempos. Tendo aprendido a lê-lo, a Igreja tornou-se “perita em migração”. Este artigo foca a recente situação sócio-pastoral da Suíça (onde é significativa a presença de trabalhadores portugueses). Os refugiados e deslocados são hoje o grosso desta mobilidade com que somos confrontados, devido às guerras e fomes que pululam por todos os continentes. Jean Huot, partindo da legislação europeia sobre os refugiados, mostra-nos como o acolhimento que lhes é prestado está ainda longe de ser satisfatório. A Igreja como “lugar de asilo” e o dever dos cristãos em acolher todos os que dele necessitam, é uma questão que desde sempre está presente na história do cristianismo. S. João Crisóstomo foi uma das vozes que, no seu tempo, mais clamou pela hospitalidade devida a todos os homens; dele, e de Alain de Lille, apresentamos passagens de textos que referem essa preocupação.
Sondando a complexidade do tema do “estrangeiro”, verificamos que uma das experiência humanas é a de sermos estrangeiros em relação a nós próprios. Sobre esta problemática é-nos possível a pré-publicação de dois inéditos de Fernando Pessoa, que na mitologia cultural se tornou exactamente o símbolo desse eu-estrangeiro-ao-próprio-eu.
Adérito Tavares dá-nos uma síntese clara da actualíssima questão balcânica, enquadrando-a numa visão histórica do problema das nacionalidades. É um artigo rico em informação, cuja leitura ajuda a esclarecer muitas das complexidades que rodeiam o drama dos Balcãs.
Dois testemunhos finais: de António Leandro, da comunidade paroquial de Santo António dos Cavaleiros (Lisboa), em que refere o caso de acolhimento humano e religioso a Angolanos e outras minorias africanas; e de Elie Wiesel, Nobel da Paz, judeu, ele próprio antigo refugiado e deportado, um comovente depoimento que fala do amor devido ao estrangeiro.
Fora do tema, mas abrangido por um premente interesse pastoral é o texto de Jean Mesnet, “Que fazemos pelas nossas paróquias ?”

 
  KEOPS multimedia - 2006