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Titulo do Artigo
Autor
Ano XV • 1998-12-31 • nº 6 • Novembro/Dezembro
Actualidade do Clássico
 
palavra-chave
 
   

artigos
Cristianismo, religião e cultura • pág 485
Cardedal, Olegario Gonzàlez de
Cultura clássica e cristianismo nascente. Continuidade ou ruptura • pág 496
Rosa, José M. Silva
Herança e actualidade dos Padres da Igreja • pág 511
Lamelas, Isidro Pereira
Linguagem da classicidade, linguagem do cristianismo • pág 524
Cristiani, Marta
Para uma hermenêutica do “clássico” • pág 531
Morão, Artur
A Ratio studiorum dos jesuítas • pág 544
Zambarbieri, Annibale
Uma ideia de liceu • pág 551
Reguzzoni, Giuseppe
Formação integral na escola: para todos? • pág 558
Cardoso, Abílio Tavares
A importância do grego • pág 567
Anónimo


apresentação

MARIA C. BRANCO

A matriz clássica, greco-romana, das origens da cultura europeia, estará em riscos de se perder? O fim do privilégio reconhecido por muito tempo aos estudos clássicos é contemporâneo da progressiva abertura das sociedades, e da actual mundialização de todas as esferas da vida humana. As origens da cultura europeia foram, assim, colocadas ao mesmo plano de outras civilizações, justamente pelo facto da globalização. Com outras civilizações se compara a cultura europeia e, em muitos aspectos, se funde. Aos que se interrogam sobre a evolução da Europa – juntamente com este processo de transformação por contacto e fusão com outras culturas e costumes – põe-se o problema de preservar tradições e patrimónios. É esta tensão entre origens próprias e formas de expressão cada vez mais globais, que dá actualidade à matriz clássica da Europa – daí a escolha deste tema pela COMMUNIO. Terão os antigos, ainda, algo a dizer-nos e a ensinar-nos, sobretudo num tempo em que o efémero, o superficial, a banalidade, o valor comercial se impuseram? Ler, sobretudo, A. Morão, Para uma hermenêutica do ‘clássico’).
A herança clássica foi-nos, no fundamental, transmitida pelo cristianismo. A Igreja nascente encontrou-se “com uma civilização a que não faltava nem vigor, nem maturidade, nem grandeza”.1 É a Roma do sec. I, herdeira e portadora da grande civilização helenística, que frutificara no Oriente e se implantara e desenvolvera no Ocidente. Esse encontro dá-se em dois movimentos: um, de assimilação dos instrumentos conceptuais clássicos que se tornam lugar de diálogo e, outro, de diferenciação da nova cultura, fruto do fermento novo capaz de transformar a realidade (G. de Cardedal, Cristianismo, religião e cultura). Nesse contacto dá-se uma primeira tentativa de cristianização do helenismo, da qual é exemplo o anúncio do Evangelho feito por S. Paulo, no centro mesmo da cultura grega, o Areópago de Atenas. Paulo apela à continuidade, para o que há de comum entre aquilo em que os gregos acreditam e o que ele lhes anuncia como novidade, numa atitude de abertura ao universal tão do agrado dos gregos. Não o escutaram, e Paulo terá a partir daí uma atitude mais crítica perante a sabedoria pagã. (J. Rosa, Cultura clássica e cristianismo nascente)
Será mais tarde, com os Padres da Igreja, imbuídos de uma profunda cultura, muitos deles formados nas escolas de Alexandria e Atenas, que se intensificará a primeira inculturação da fé. Abertos à cultura clássica, souberam utilizá-la para exprimir e difundir a fé; souberam ser mediadores no confronto entre o património cultural que era o do seu tempo e a mensagem singular do cristianismo revelada por Deus. A sua atitude de acolhimento, com discernimento, do que há de positivo nas culturas humanas, lembra-nos a necessidade de hoje anunciarmos a novas culturas a novidade do Evangelho (I. Lamelas, Herança e actualidade dos Padres da Igreja)
À época do aparecimento do cristianismo, a língua grega estava já difundida em todo o baixo Mediterrâneo. A Igreja vai servir-se dela para anunciar Cristo nessa região e, em compensação, vai servir a língua grega, sobretudo criando uma literatura nova – grega cristã –, a qual contribuiu para a renovação da cultura helénica, de que era herdeira (M. Cristiani, Linguagem da classicidade, linguagem do cristianismo).
Actualmente devíamos caminhar para um futuro que exigisse uma nova riqueza, na preparação dos jovens, de conteúdos que gerassem neles uma dinâmica de pensamento crítico, fecundo, aberto. Se assim for, não será possível prescindir da cultura clássica, que deu forma à mentalidade da Europa. Impõe-se que nas escolas se ensine os fundamentos da civilização europeia, aquilo de que nascemos, e por que razão se geraram determinadas categorias de pensamento que, ao longo dos séculos, têm sido as nossas (G. Reguzzoni, Uma ideia de liceu). O facto de hoje o processo de formação básica estar preferencialmente marcado por um modo “político” de ver as questões, e em que prevalece o realismo tecnicista e económico, tem vindo progressivamente a secundarizar a formação básica universal (A. Cardoso, Formação integral na escola: para todos?). Um excelente exemplo do que, ao longo já de vários séculos, tem vindo a ser feito com êxito na área do ensino, é a Ratio studiorum dos jesuítas, que de forma muito feliz soube cruzar o ensino das disciplinas clássicas com as exigências próprias a cada época (A. Zambarbieri, A Ratio studiorum dos jesuítas). Por fim, o depoimento de uma professora liceal de grego, mostra-nos a riqueza do mundo clássico que herdámos.
As identidades, quer pessoais quer colectivas, constroem-se com memórias do passado que nos dão orientação para o futuro. Pensar a identidade da Europa significa conhecer e viver a história dessas “memórias”, neste caso a do mundo clássico.

1   H.U. VON BALTHASAR, De l’intégration, Paris 1970, 172.

 
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