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Autor
Ano XV • 1998-06-30 • nº 3 • Maio/Junho
Não roubarás
 
palavra-chave
 
   

artigos
Repulsa pelo roubo e amor pelo ladrão • pág 197
Carraud, Vincent
A propriedade segundo Jesus e sua tradição • pág 206
Giesen, Heinz
Sermão do bom ladrão. Excertos • pág 217
Vieira, Padre António
Furto individual e furto social • pág 229
Charrier, Fernando
Ética e fiscalidade • pág 237
Silva, Germano Marques da
A dívida dos países pobres • pág 248
Costa, Alfredo Bruto da
Considerações sobre o perdão da dívida dos países em vias de desenvolvimento • pág 254
Gouveia, Miguel
Espoliar as crianças. O roubo do futuro na literatura contemporânea • pág 262
Fiorini, Pierluigi
A arte como bem comum • pág 267
Crippa, Maria Antonietta
O roubo como momento de graça • pág 273
Stilwell, Peter
Dimensão espiritual do ecumenismo • pág 280
Acton, Charles
Mala roubada, amigos à volta. Depoimento • pág 286
Pereira, Conceição


apresentação

PETER STILWELL – JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA


Em sucessivas sondagens e manifestos eleitorais tem lugar de destaque o problema da segurança. Os eleitores querem mais polícia nas ruas das cidades. E a razão é, em grande parte, o pequeno furto. Multiplicam-se os casos ao ponto de quase todos o terem experimentado em primeira ou segunda mão: a senhora assaltada em plena rua e a mala roubada; a vizinha a quem arrombaram a porta e levaram joias de valor sentimental inestimável; o amigo a quem partiram o vidro do carro e fugiram com a telefonia... A todos fica um sentimento de angústia por lhes terem “entrado em casa” sem autorização, por lhes terem ferido a identidade objectivada em bens de valor por vezes insignificante (ver depoimento de Conceição Pereira).
O roubo atinge o espaço vital, o território, a propriedade; noções primitivas, pré-racionais, largamente difundidas por quase todo o reino animal. Prendem-se com a identidade do indivíduo ou do grupo. Demarcam uma zona de segurança necessária ao sustento, o desenvolvimento e a reprodução. Nas sociedades humanas, podem estender-se a dimensões importantes da existência, como a infância que é por vezes roubada às crianças (Pierluigi Fiorini).
Há bens cuja posse, por pertencer a entidades mais vastas, como empresas ou nações, é mais difícil respeitar: o pequeno furto no supermercado, cujo custo é debitado por este sobre produtores e consumidores; a “esperteza” nos negócios e o indigno salário pago aos trabalhadores (Furto individual e furto social, Fernando Charrier); mas também a fraude na declaração ou pagamento dos impostos (Ética e fiscalidade, Germano Marques da Silva).
Outro género de realidade que hoje preocupa as consciências são as gigantescas dívidas acumuladas pelos países pobres. Enquadram-se numa reflexão sobre o Sétimo Mandamento por via do princípio da doutrina social da Igreja, segundo o qual os bens da terra foram destinados por Deus para toda a humanidade. Na lógica desta linguagem, a propriedade surge a jusante, como meio de exercer o domínio sobre esses bens e colocá-los, de modo mais eficiente, ao serviço de todos. Mas não é fácil saber como inverter o ciclo vicioso da pobreza, por forma a respeitar a dignidade de indivíduos e povos e o direito a serem protagonistas do seu próprio desenvolvimento. Dois artigos analisam esta questão delicada e premente (Alfredo Bruto da Costa, Miguel Gouveia).
O problema moral associado ao roubo coloca-se, no entanto, do lado não de quem o sofre mas de quem o pratica. Um sermão do Padre António Vieira, no seu estilo inconfundível, lembra os elementos essenciais da doutrina católica e mostra, com exemplos de surpreendente actualidade, como aos grandes e poderosos foi entregue uma responsabilidade muito particular pelo bem comum.
Vincent Carraud e Heinz Giesen conduzem o problema da moral à sua raiz. O roubo é um mal perante Deus não só pelas consequências negativas que se repercutem sobre os outros, mas porque sacraliza a posse, faz dela um absoluto, um ídolo que torna o ladrão cego aos outros e a Deus.
O roubo como momento de graça (Peter Stilwell) procura, na mesma linha, deslocar o problema do roubo da lógica binária, permitido/proibido, para a sua dimensão espiritual. Recusada a existência de um mal absoluto, contraposto a Deus, nada há que fique fora do alcance da sua graça. A insegurança de quem sofreu o roubo e a injustiça imanente vivida por quem o praticou podem ser frestas por onde a graça regeneradora se introduz na vida humana.
M. Antonietta Crippa utiliza a noção de roubo de forma analógica para reflectir sobre a arte, e o modo como a ela pode ser “roubada” uma dimensão essencial que é a sua capacidade de manifestar, sacramentalmente, o belo e o sagrado.
Por fim, fora do tema deste número, inserimos um texto de Charles Acton sobre Dimensão espiritual do ecumenismo. Ao aproximarmo-nos do Jubileu do ano 2000, o diálogo entre Igrejas intensifica-se, mas deve ser acompanhado por uma verdadeira conversão de todos no sentido de acolher, intimamente, os outros como irmãos.

 
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