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Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XV • 1998-02-28 • nº 1 • Janeiro/Fevereiro
A saúde e os doentes
 
palavra-chave
 
   

artigos
A saúde na economia das crenças. Uma interpretação sócio-antropológica • pág 005
Teixeira, Alfredo
Numa cidade feliz • pág 015
Antunes, João Lobo
Diante de quem morre. Apontamentos de uma perspectiva ética • pág 025
Almeida, José Manuel Pereira de
Quando Deus também sofre. Reflexões sobre o sofrimento • pág 031
Gonçalves, Joaquim Cerqueira
Jesus e o doente • pág 045
Alves, Manuel Isidro
Doença, celebração e vivência da fé. O sacramento da unção dos doentes • pág 050
Ambrosio, Juan Francisco
Comissões de Ética • pág 062
Serrão, Daniel
Pastoral da saúde • pág 074
Oliveira, Ângelo de
Recensão do livro de José Maria Cabral, O desafio da normalidade • pág 085
Ferreira, Maria Luísa Ribeiro
Centro de Estudos de Filosofia da Medicina do IPOFG, Lisboa • pág 090
Melo, Jorge A.S.
Para que serve a Medicina Desportiva? • pág 092
Graça Renato


apresentação

ALFREDO TEIXEIRA – JUAN FRANCISCO AMBROSIO


A revista COMMUNIO abre o seu décimo quinto ano de actividade com um tema que é tão actual quanto perene: “A saúde e os doentes”. Actual, porque o extraordinário progresso da medicina e das biotecnologias não dissolveu o enorme impacto social que a realidade da doença continua a ter; perene, porque na experiência da doença, enquanto fenómeno propriamente humano, sempre se cruzaram interrogações acerca do sentido da humanidade.
Neste contexto, é importante verificar as transformações que habitam hoje o interior das ciências médicas; no quadro dos múltiplos sentidos que o termo tem tomado, Daniel Serrão apresenta-nos a Bioética enquanto “ética da relação dos profissionais de saúde com as pessoas doentes”, âmbito em que procura enquadrar tanto as várias tipologias das Comissões de Ética como os desafios que lhes são lançados pelos sentidos de aprofundamento do pluralismo nas sociedades democráticas contemporâneas. Esta relevância dada à ética dos cuidados de saúde aponta para as recentes transformações do paradigma médico de que nos fala Jorge A. S. Melo no seu depoimento sobre o Centro de Estudos de Filosofia da Medicina do IPOFG (Lisboa): por um lado, a Medicina volta a reconhecer que por detrás do acto médico está também uma concepção de humanidade, por outro, ela reconhece que possui hoje saberes e poderes que a tornam a um tempo forte e frágil.
Dessa força e dessa fragilidade nos dá testemunho João Lobo Antunes a partir da sua experiência no Instituto Neurológico de Nova Iorque. É a história de uma surpresa recente, aquela que pôs termo ao “tempo livre das moléstias infecciosas”. J. Lobo Antunes recorda que a SIDA, como outrora as pestes medievais, veio rasgar o tecido de uma sociedade confortável consigo mesma. E que dizer quando o doente deixa de ser o “outro”, quando o perito do diagnóstico e curador passa a paciente? A recensão de Maria Luísa Ribeiro Ferreira apresenta-nos a experiência de um médico que enfrenta uma doença incurável, buscando nesse itinerário de fragilidade a “normalidade de Deus”.
De fragilidade fala, também, José M. Pereira de Almeida, mas no contexto do “nosso encontro pessoal com quem está a morrer”. Pensar este encontro é interrogar-se acerca da actual tendência para esconder a morte do olhar dos vivos. Diante deste tabu relegado para os hospitais e para os cemitérios é necessário dizer que “morrer de maneira humana” quer dizer “morrer com os outros”, e que “acompanhar quem morre” é, acima de tudo, “ajudar a viver a morte”.
Numa época em que o conceito de saúde se alargou, Renato Graça desenvolve a ideia de que a Medicina Desportiva não actua apenas no âmbito da alta competição, mas se abre, hoje, à procura de estilos de vida saudáveis.
Sob o ponto de vista teológico, Juan F. Ambrosio sublinha que o sacramento da Unção dos Doentes, como os outros sacramentos, se refere a uma experiência de fé. Nesse sacramento se revela o gesto fraternal que exprime a solicitude da comunidade cristã diante daquele que está a sofrer, e nesse contexto eclesial o cristão pode descobrir o caminho para a recuperação da unidade subjectiva ferida pela experiência da doença. É por isso interessante observar que M. Isidro Alves fale da cura nos Evangelhos como um gesto de Jesus que visa a reintegração na aliança da graça, revogando a antiga economia que opunha o puro e o impuro.
A partir do estudo de Alfredo Teixeira sobre algumas crenças que circulam à margem das grandes tradições cristãs (ou nas suas margens), parece adivinhar-se o renascer dessa antiga economia. Quer em universos organizados de crenças, ou no terreno da religiosidade errática, quer nas figuras do consumo de bem-estar, poder-se-ão encontrar as figuras da “diabolização” da doença e da reconstrução utópica dos mitos da saúde. Tais observações recordam-nos a universalidade das interrogações acerca do sofrimento e as específicas dificuldades que o Ocidente, nas suas tendências dualistas, sempre vai repetindo, na procura de uma compatibilização entre a questão de Deus e o problema do sofrimento humano — este é um campo da reflexão filosófica que merece, aqui, a atenção de Joaquim Cerqueira Gonçalves.
Este itinerário, lembra-o Ângelo de Oliveira, deverá conduzir à consciência de que a Pastoral da Saúde terá de ser, hoje, pensada e praticada pelos cristãos no quadro mais amplo da evangelização das culturas.

 
  KEOPS multimedia - 2006