Pgina Inicial  
revistas artigos autores noticias  
Página Inicial
Direcção e Redacção
Conselho de Redacção
Estatuto Editorial
Condições de assinatura para 2014 e 2015
Edições noutros países
Livrarias onde Adquirir
Publicações Communio
Nota Histórica
Ligações
Contactos
Pesquisa
Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XII • 1995-10-31 • nº 5 • Setembro/Outubro
A Fé
 
palavra-chave
 
   

artigos
A fé como resposta, na Bíblia • pág 389
Mendonça, José Tolentino
A Nova Aliança • pág 394
Ratzinger, Joseph
A fé virtude teologal • pág 410
Farias, José Jacinto Ferreira de
A fé como atitude dialógica de vida • pág 424
Ambrosio, Juan Francisco
O caminho de fé de St. Teresa de Lisieux • pág 429
Reis, Manuel
Fé e compromisso no mundo • pág 437
Pinho, José Eduardo Borges de
Em torno do agnosticismo • pág 452
Rosa, José Maria
Desatar o nó do problema • pág 466
Falcão, Maria Luísa
Arte sacra • pág 471
Machado, José Alberto
Ciência e Religião ao msmo nível? Depoimento • pág 478
Archer, Luís Jorge


apresentação

MARIA CORTEZ DE LOBÃO – JOSÉ JACINTO F. DE FARIAS


“Quem me dera ter fé!”, “Se não fosse a grande fé que tem, não sei como poderia aguentar o que tem aguentado!”... Afinal o nosso dia-a-dia está cheio de expressões de fé. Mas a fé que nos ocupa aqui hoje não é o desejo teimoso de que uma coisa se venha a realizar, a “fezada” instintiva sobre os acontecimentos. Não é também a fé de que falam os cientistas quando trabalham “no escuro” com a convicção de poder vir a descobrir o que ainda ninguém conhece. Nem sequer é a fé como característica humana de confiança nas pessoas, naquilo que não se pode provar mas que antecipamos como verdadeiro.
O tema deste número é a fé como virtude cristã, o motor da vida religiosa, a ligação íntima com Deus. A fé é a capacidade pela qual conhecemos Deus. E não é um conhecimento exterior: um ateu pode saber muito sobre a Revelação, sobre a Igreja, sobre a prática religiosa, mas sabe-o de fora: tem conhecimento sobre a fé dos outros. Ao contrário, a fé é o conhecimento pessoal que os crentes têm de Deus.
A fé vive assim numa tensão permanente: dom de Deus, precisa do nosso compromisso para se desenvolver. Porque a amizade não é coisa que se imponha, é uma caminhada a dois, que respeita com mansidão a liberdade do outro. Pela fé fazemos a descoberta de que o enorme abismo entre nós e Deus foi preenchido pelo amor e que doravante Deus faz em nós maravilhas. É a chave de leitura de toda a realidade, de tal forma que nenhum aspecto da nossa vida pode deixar de ser iluminado pela relação com Deus em quem acreditamos. É a fé que nos faz participar em Deus de tal maneira que o impossível se torna realidade. É a força que nos mantém na rota de Deus apesar das dúvidas, dos desencantos e da travessia do deserto. É a ligação com todos os crentes no mesmo Senhor, no mesmo destino.
A COMMUNIO trata o tema da fé enquadrado na série das virtudes teologais. No ano passado reflectimos sobre a caridade, virtude que ficará connosco na eternidade, este ano consideramos a fé que nos permite conhecer Deus, e no ano que vem falaremos de esperança, essa que nos move em direcção a Deus.
Nesta época de grande revivalismo religioso que brota duma fome aguda de Deus, a meditação sobre a fé torna-se ainda mais urgente. A nossa cultura mediática de visão das coisas, de frenesim da comunicação, de imediatismo das sensações tem tendência a esquecer e a desprezar a escuta e o silêncio, âmbito da fé. Assim, no primeiro artigo, José Tolentino Mendonça fala-nos justamente de exemplos bíblicos de pessoas que escutaram a proposta de amizade de Deus e a ela responderam no silêncio dos seus corações e na obediência do empenho total das suas vidas. Joseph Ratzinger mostra-nos como essa amizade é radicalmente expressa no Novo Testamento dando origem a uma Nova Aliança. José Jacinto Farias aprofunda a noção de fé como virtude teologal, não apenas uma atitude que se tem, mas um dom que se acolhe, uma iluminação que se recebe. Juan Francisco Ambrosio fala-nos da experiência de encontro e diálogo na Igreja: conhecer alguém e acreditar nesse alguém são dinamismos que mutuamente se completam.
Por muito pessoal que seja, a experiência de Deus é sempre transmitida e mediada pela comunidade. Não existe uma fé que não seja para os outros em ânsia de missão e apostolado. Este impulso de se dar é apontado por José Eduardo Borges de Pinho como a corresponsabilidade interveniente na construção do mundo. A comunidade de crentes vive no mundo e é nele que dá o seu testemunho e a sua contribuição. Mas não há vida pública da fé que não seja alimentada pela oração de contemplação sob pena de não ter nada a ver com o Deus que se proclama. Manuel Reis traça esta caminhada espiritual na vida de St. Teresinha do Menino Jesus num itinerário de clareza e obscuridade em que ela demonstra crescer numa fé capaz de remover qualquer montanha.
Porque as provas da fé nunca são absolutas, há quem diga que não se pode conhecer ou dizer o que quer que seja sobre Deus. José Rosa dá-nos as razões do agnosticismo do ponto de vista filosófico, mostrando que pode ser uma atitude em que o ser humano se fecha a tudo o que não é ciência, mas também pode levar à afirmação dos limites dados à razão fora dos quais ela não é chamada a intervir. A fé vai para além do cognitivo e intelectual.
A história da vivência da fé não se fica pelo sentir íntimo de cada um; ela tem toda a representação plástica onde o ser humano vai buscar imagens e expressões para transmitir o que vive. A arte sacra torna-se assim uma contemplação da vida de fé como nos diz José Alberto Machado. Da mesma maneira a literatura muitas vezes retrata a grandeza da convicção ou a angústia da ausência de fé. Luísa Falcão mostra-nos a luta em que se debate um personagem do escritor Graham Greene, fazendo violência sobre si próprio até encontrar o verdadeiro Deus que lhe estende a mão. Finalmente Luís Archer faz-nos uma recapitulação das relações entre ciência e fé num comentário a uma proposta de João Paulo II de que haja um novo entendimento entre as duas.

 

 
  KEOPS multimedia - 2006