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Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XII • 1995-08-31 • nº 4 • Julho/Agosto
Cristianismo e autonomia do Político
 
palavra-chave
 
   

artigos
Deus e César • pág 293
Stilwell, Peter
A teologia política perante novas tarefas • pág 307
Wiedenhofer, Siegfried
Eclesiologia e teoria do Estado. Um conflito necessário • pág 318
Chaline, Olivier
Reflexões acerca da nova ordem internacional • pág 329
Moita, Luís
Liberdade religiosa na Igreja? • pág 335
Ërdo, Péter
Influência do jansenismo na eclesiologia regalista do século XVIII • pág 342
Seabra, João Maria
Três Bispos, um percurso comum • pág 354
Marujo, António
A Igreja Católica e o 25 de Abril • pág 364
Monteiro, Teresa Líbano
Religião e política. Depoimentos • pág 378
Ruas, Henrique Barrilaro
Pereira, Nuno Teotónio


apresentação

PETER STILWELL – JORGE CÉSAR DOS NEVES


Cristianismo e autonomia do político, título genérico deste número da COMMUNIO, recorda-nos a urgência em apurar conceitos no que toca às relações entre as comunidades cristãs e o mundo do poder político. Para muitos — e com alguma razão — ergue-se neste final de século o espectro da intromissão abusiva de minorias religiosas militantes nos destinos das comunidades políticas. Fundamentalismos de vária ordem, mesmo cristã, parecem apostados em subverter os mecanismos de controle democrático do poder penosamente conquistados no decurso do últimos séculos.
De entre as várias confissões cristãs, a Igreja Católica destaca-se pelo património único de reflexão que possui neste campo. São séculos de experiência criticamente assimilada, hoje sedimentados na sua doutrina social. Contudo, nem por isso é menos importante que os católicos reavaliem sempre de novo o posicionamento exacto a assumir por fiéis e hierarquia diante do fenómeno político. Se, por um lado, não devem regatear a luz do Evangelho, importa que a boa vontade não se torne refém de qualquer oportunismo ideológico ou partidário. A relação entre comunidade religiosa e comunidade política, como qualquer relação vital, caracteriza-se por tensões e equilíbrios instáveis que importa continuamente reapreciar.
Justamente há trinta anos, em Dezembro de 1965, o Concílio Vaticano II pôs termo às suas quatro sessões de trabalho com a aprovação de dois documentos que definiam o modo como a Igreja se havia de assumir, de futuro, nas suas relações com o mundo. Foram eles a Constituição Gaudium et spes e o Decreto sobre a Liberdade Religiosa, Dignitatis humanae. Aí se afirma claramente o respeito pela autonomia da realidade política, pela dignidade da consciência humana e pela liberdade a que todo o homem e mulher tem direito na procura da Verdade (veja-se, a este respeito, o artigo de P. Erdö). A Constituição Gaudium et spes chega inclusivamente a dizer que em questões de prudência política os leigos, mesmo no interior da comunidade cristã, têm mais competência do que a hierarquia.
Esta autonomia comporta, no entanto, os seus riscos. E a Gaudium et spes reconhece¬o ao declarar que um dos maiores pecados do nosso tempo é a separação que muitos estabelecem entre as exigências da fé e a sua vida diária. Na verdade, esta separação — que, ao nível da consciência individual, equivale à separação entre a Igreja e o Estado — é normalmente justificada com um apelo à palavra de Jesus, segundo a qual a César se deve dar o que é de César, e a Deus o que é de Deus. O argumento, porém, revela-se pouco consistente — como se indica no primeiro artigo deste número, intitulado “Deus e César”. A frase de Cristo é passível de leituras bem menos superficiais que permitem pensar de outra forma a autonomia do político, sem pôr de parte a contribuição activa dos crentes e das comunidades cristãs para o desenvolvimento humano das sociedades em que se inserem.
No segundo artigo, S. Wiedenhofer analisa as tarefas pedidas à teologia política, que já conheceu vários projectos hoje praticamente esgotados. Trata-se de evitar que as circunstâncias históricas actuais dêem origem a novas politizações da religião ou à sacralização da política, mas evitando ao mesmo tempo a esquizofrenia cultural de uma política sem valores e de experiências religiosas sem influência nas transformações sociais. Em seguida, O. Chaline sugere que a tensão entre a Igreja e o mundo político se reflectiu no próprio esforço desenvolvido por ambas as partes para se pensarem a si mesmas. Luís Moita recorda-nos, então, que a relação entre ética e política se coloca hoje de forma particularmente aguda também ao nível internacional. Encontramo-nos, diz, perante a necessidade de uma “macro-ética” planetária. É verdade que vigora ainda a lei do mais forte, mas há sinais de esperança ao constatarmos como o direito internacional, embora frágil, se vem impondo à consciência dos povos e é crescentemente respeitado pelas nações.
A realidade nacional merece-nos uma atenção particular. A análise das relações entre cristianismo e política no contexto português tem sofrido de escassez de estudos objectivos. Apresentamos, por isso, algumas contribuições para uma reflexão a aprofundar. João Seabra analisa a influência duma importante sensibilidade religiosa, o jansenismo, no modo como a Igreja entendia o seu papel na sociedade do sec. XVIII. António Marujo faz a recensão de algumas publicações recentes que dão testemunho da visão e obra de três membros da hierarquia católica cuja influência está longe de se encontrar esgotada: D. Sebastião Soares de Resende, D. António Ferreira Gomes e D. Manuel Vieira Pinto. Teresa Líbano Monteiro estuda as intervenções da hierarquia católica na época revolucionária que se seguiu ao 25 de Abril de 1974. Por fim, H. Barrilaro Ruas e N. Teotónio Pereira, dois leigos formados, na sua juventude, em movimentos católicos, dão¬nos conta da visão que os inspirou à intervenção política, mas também da desilusão de quem se veio a descobrir praticamente desacompanhado pela hierarquia na sua luta. Pensámos, ainda, incluir referências a outras figuras marcantes do nosso contexto eclesial, como os padres Abel Varzim e Joaquim Alves Correia. Faltou¬nos, porém, o espaço. Resta-nos a consolação de saber que, no caso do Pe Abel Varzim, comemorações recentes de que foi alvo têm permitido reflectir e divulgar o seu testemunho.

 
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