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Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XII • 1995-06-30 • nº 3 • Maio/Junho
Judaísmo
 
palavra-chave
 
   

artigos
Igreja e judaísmo • pág 197
Mussner, Franz
Israel messiânico • pág 212
Garrigues, Jean-Miguel
Os escritores eclesiásticos e os judeus • pág 222
Speyer, Wolfgang
Os teólogos da Idade Média ocidental e o judaísmo • pág 231
Dahan, Gilbert
Reflexões sobre a Inquisição • pág 246
Thomaz, Luís Filipe Rodrigues
Os judeus em Portugal e a Igreja • pág 256
Gomes, J. Pinharanda
Influência do judaísmo na cultura contemporânea • pág 268
Nunes, Etelvina Pires Lopes
O judeu na obra literária. Do estereótipo ao indivíduo de rosto humano • pág 280
Machado, Maria Salomé
O outro na face de Israel. Depoimento • pág 287
Oliveira, Manuel Duarte


apresentação

LUÍS FILIPE F. R. THOMAZ – ARMINDO DOS SANTOS VAZ

O judaísmo não é para os cristãos uma qualquer religião não cristã, como po-de ser o budismo ou até o islamismo: se o cristianismo é a religião de Jesus Cristo, não menos verdade é que Jesus foi um judeu, que da circuncisão à ceia pascal observou e cumpriu todas as práticas rituais judaicas.
Este quasi-paradoxo que jaz nas próprias origens da religião cristã — que, assim, ao mesmo tempo, é e não é a continuação do judaísmo — cria necessariamente uma tensão entre dois extremos.
Os Actos dos Apóstolos narram-nos como logo nos primórdios da Igreja surgiram no seio da comunidade de Jerusalém tensões entre convertidos oriundos da diáspora judaica e do judaísmo palestino: “Naqueles tempos, crescendo o número dos discípulos, produziu-se uma murmuração dos gregos contra os hebreus, alegando que as suas viúvas eram preteridas na assistência”… Aqui, porém, trata-se ainda apenas de tensão sociológica entre grupos de formação cultural diferente; não se põe ainda o problema doutrinário. Tensões desse tipo repetiram-se inúmeras vezes ao longo da história — pensemos, por exemplo, na rivalidade entre cristãos velhos e cristãos novos no nosso século XVII —, mas não nos interessam particularmente aqui. São, no fundo, meras questões sociológicas, em que a religião apenas serve de pretexto.
Mais importante é o aspecto doutrinal. Que representa o judaísmo para a Igreja e para o pensamento cristão? Ao longo da sua história, o cristianismo teve de se defender de dois extremos: um era a ruptura total, advogada por alguns helenistas mais extremos, como Marcião, que rejeitavam a canonicidade do Antigo Testamento, vendo nele a revelação de um mero demiurgo, inclemente e vingativo, distinto do Deus bom do Evangelho; outra tentação judaizante, que reputava essenciais a circuncisão e as demais observâncias rituais judaicas e pretendia sujeitar-lhes os conversos vindos da gentilidade. Curiosamente, esta tendência perdurou até aos nossos dias em certos sectores da cristandade etíope, e ressurgiu no Ocidente com o aparecimento de algumas seitas.
As mais das vezes, porém, leu-se o Novo Testamento de uma perspectiva antijudaica, o que contribuiu para manter o ódio aos judeus, que não contentes de terem morto Jesus se obstinavam, após o milagre da sua ressurreição, a não o reconhecer como Messias. Os documentos do Vaticano II e, recentemente, o Catecismo da Igreja Católica adoptaram, em boa hora, uma perspectiva muito mais simpática que se traduziu no plano institucional pelo estabelecimento de relações diplomáticas entre a Santa Sé e o Estado de Israel. A Shoah — o extermínio de milhões de judeus às mãos de Hitler e seus sequazes — viera, com efeito, mostrar a necessidade de uma nova aproximação teológica, sublinhando a relação particular entre a Igreja e Israel, que a sua “história sagrada” comum postula. É o tema que Franz Mußner desenvolve no artigo com que abre este número da COMMUNIO.
Em seguida, Jean-Miguel Garrigues ocupa-se do Israel messiânico. Jesus é o Messias, ou seja, o “ungido” do Senhor sobre quem repousa em plenitude o Espírito de Deus. Se pela sua perfeita obediência aos desígnios de seu Pai adquiriu o poder de comunicar o Espírito Santo aos que lhe aderem, a Igreja que fundou é também ela messiânica, ungida pelo Espírito, e constitui, portanto, a plenitude de Israel.
Wolfgang Speyer historia-nos a atitude dos escritores eclesiásticos dos primeiros séculos para com os judeus. Vemos assim esboçar-se já nos textos mais tardios do NT uma atitude de suspeição para com o antigo povo eleito, a qual serviu para justificar, ao longo dos séculos, um antijudaísmo que, as mais das vezes, tinha raízes muito mais sociais e económicas que teológicas. O artigo de Gilbert Dahan traz-nos para um período mais recente, ao focar a atitude para com o judaísmo dos teólogos da Baixa Idade Média. Foi só mais tarde que o caminho aberto ao antijudaísmo veio a desembocar na Inquisição; a possibilidade de um juízo histórico sobre a Inquisição é do que trata o artigo de Luís Filipe Thomaz. Pinharanda Gomes, no artigo seguinte, foca a atitude para com os judeus, em Portugal, na passagem da Idade Média à Moderna.
Etelvina L. Nunes ocupa-se da influência do judaísmo na cultura contemporânea, focando, em especial, o desenvolvimento que teve no presente século o pensamento filosófico-teológico judaico. Maria Salomé Machado leva-nos a seguir a imagem do judeu que perpassa na literatura moderna. O fascículo encerra com o depoimento de um cristão que viveu em Israel, fazendo a experiência da diferença em sentido oposto ao habitual.

 
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