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Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano VIII • 1991-05-15 • nº 3 • Maio/Junho
O ministério de Pedro na Igreja
 
palavra-chave
 
   

artigos
Primado pontifício e Igreja local
Felício, Manuel da Rocha
Pedro e os esteios da Igreja • pág 197
Balthasar, Hans Urs von
Missão petrina da Igreja de Roma. Aspectos bíblicos e patrísticos • pág 201
Horn, Stephan Otto
Infalibilidade pontifícia e indefectibilidade eclesial • pág 210
Farias, José Jacinto Ferreira de
Ministério petrino e sinodalidade • pág 222
Carrasco Rouco, Alfonso
O serviço de Pedro na actual situação ecuménica • pág 255
Pinho, José Eduardo Borges de
Olhar o povo nos olhos. Viagens apostólicas de João Paulo II • pág 269
Rego, António
A Concordata com a Santa Sé • pág 272
Cruz, Manuel Braga da
O Papa como figura de identificação da Igreja. Depoimentos • pág 281
Falcão, Maria Luísa
Cristóvão, Fernando
Horta, Nelson


apresentação

JOSÉ JACINTO DE FARIAS – LUÍS FILIPE THOMAZ


Sendo Portugal um país homogeneamente católico, poderá parecer ocioso questionar o sentido do ministério petrino na Igreja. À pergunta “quem é o Papa?”, sem hesitar responderemos: “é o sucessor de Pedro, é o chefe visível da Igreja.”
E, no entanto, a pergunta deve pôr-se. Quanto mais não seja porque foi o cariz autoritário que em fins da Idade Média assumiu o papado que deu ocasião à Reforma protestante; e porque, volvido quase um milénio sobre a ruptura de 1054, permanece esse – mais que a questão da processão do Espírito Santo tão debatida então – o principal pomo de discórdia a separar católicos e ortodoxos. Daí as profundas implicações no ecumenismo, como muito bem o documenta o artigo de Borges de Pinho.
Para além disso, o tema diz-nos respeito por outras vias. Não é a crença na “Igreja, una, santa, católica e apostólica” um dos artigos do Credo? Uma fé esclarecida tem, por conseguinte, o dever de inquirir se, e em que medida, faz a autoridade papal parte integrante e necessária dessa Igreja em que acreditamos. E, sendo assim, uma nova questão se põe: como se articula o serviço que o Papa presta à Igreja com a autonomia de cada Igreja local, onde necessariamente perpassa o sopro do Espírito Santo em que professamos também acreditar? É este o objecto dos artigos de Manuel Felício, sobre o primado pontifício e a Igreja local, e de A. Carrasco, sobre o ministério de Pedro e o sinodalismo, no quadro da doutrina conciliar sobre a colegialidade episcopal.
Nos primeiros séculos a organização da Igreja estava longe de apresentar o aspecto centralizado que hoje lhe conhecemos. A teologia do papado não se explicitou senão gradualmente. A sua evolução é, pois, fruto da história, e é exactamente aí que reside a complexidade do problema: discernir o que nas funções do Pontífice Romano é de instituição divina, e como tal elemento essencial da Igreja, do que é fruto da revolução dos tempos, que não é necessariamente para melhor nem para pior, mas a resposta da comunidade, a que assiste o Espírito, aos desafios e condições concretas dos sucessivos momentos da História, como muito bem o mostra Stephan Horn.
É por isso importante notar que no Papa coexistem três funções e vestígios de uma quarta. O Papa é, em primeiro lugar, o bispo de Roma, e é daí que lhe advém o seu primado. Com efeito os doutores dos primeiros séculos, como por exemplo S. Máximo Confessor, não separavam a pessoa do bispo de Roma da comunidade a que presidia, uma igreja que sempre se mantivera exemplarmente limpa de heresias e primava pela sua ortodoxia. É no quadro da indefectibilidade da Igreja, de Roma e da Igreja Universal em comunhão com ela, que progressivamente se foi tomando consciência na Igreja da infalibilidade pontifícia, proclamada como dogma de fé em 1870, como o mostra o artigo de José Jacinto de Farias. Em segundo lugar, o Papa é o Patriarca do Ocidente, e daí lhe advém a maioria dos poderes efectivos que exerce na igreja latina. O Papa é, afinal, como o consenso da Igreja acabou por reconhecer, o sucessor de Pedro, que nos Actos dos Apóstolos vemos presidir na caridade à assembleia apostólica – e é a esse título apenas que o seu magistério é por direito divino universal. No Papa subsistem, também, vestígios de uma quarta função que exerceu na Idade Média, a mais problemática de quantas chamou a si: a de presidente da Respublica Christiana, a comunidade dos estados da cristandade, e é daí que provém o uso de trocar embaixadas com as potências temporais, bem como o sistema concordatário que regula a relação dos Estados com a Santa Sé, como é o caso, entre outros, de Portugal, tema que é desenvolvido pelo artigo de M. Braga da Cruz.
Seja como for, a Igreja não é um regimento, e por isso não é a autoridade o único pilar sobre que assenta: sustém-na, ao lado do cargo personificado em Pedro, o amor corporizado em João, a tradição representada por Tiago e a conversão permanente de que Paulo é símbolo, para deixar de lado os esteios secundários. É o que nos explica Hans Urs von Balthasar no belo artigo com que abrimos este número. Estas funções do ministério petrino, como serviço eminente da unidade da Igreja, são percebidas hoje de um modo mais próximo, devido às visitas apostólicas do Santo Padre às diversas igrejas locais espalhadas pelo mundo – como agora a Portugal – cuja incidência pastoral é objecto de análise no artigo de António Rego. Os depoimentos ilustram, de diversas perspectivas, como o Papa representa hoje a figura de identificação da Igreja.

 
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