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Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano I • 1984-06-30 • nº 3 • Maio/Junho
O Cristão e o poder
 
palavra-chave
 
   

artigos
Deus todo-poderoso • pág 209
Balthasar, Hans Urs von
O realismo filosófico perante o poder • pág 218
Henriques, António Mendo Castro
Colonização e juízo histórico • pág 231
Thomaz, Luís Filipe Rodrigues
Católicos, estado e sociedade no Portugal oitocentista (Congressos Católicos de 1891 a 1895) • pág 245
Clemente, Manuel
Os primeiros anos da República e as suas relações com a Igreja Católica • pág 256
Branco, Maria C.
Ascensão de Cristo. História e significado teológico • pág 263
Kasper, Walter
A Igreja Católica e Timor Leste. Factos e documentos • pág 273
Stilwell, Peter
o cristão de Timor e o poder. Um testemunho • pág 283
Pires, Paulo
Prática política e prática cristã. Depoimentos • pág 289
Pintasilgo, Maria de Lurdes
Macedo, Teresa Costa
Costa, Alfredo Bruto da
Ruas, Henrique Barrilaro


apresentação

PETER STILWELL

É num tempo marcado pela tensão nas relações da Igreja com o mundo político que a COMMUNIO preparou e agora publica o seu terceiro número subordinado ao tema "O cristão e o poder". A relação, nem sempre linear, da Igreja com o poder político é uma das constantes da história do nosso país. Ignorá-lo é desconhecer a origem e o significado de traços profundos da nossa identidade cultural e nacional. E, no entanto, a investigação histórica neste campo é ainda muito deficiente. Gostaríamos, pois, que um dos contributos da COMMUNIO para o mundo da cultura portuguesa fosse estimular e divulgar um melhor conhecimento das motivações e da influência exercida e sofrida pela Igreja nos momentos significativos do nosso passado colectivo. Neste sentido vão os artigos de Luís Filipe Thomaz, de Manuel Clemente e de Maria C. Branco. Essas influências mútuas entre a Igreja e o Poder não são, naturalmente, uma questão só do passado. Acolhidas umas vezes com agrado outras vezes com ressentimento, fazem parte dos caminhos que hoje rasgamos no tempo. Há, sem dúvida, o peso duma instituição que congrega semanalmente cerca de um quarto da população nacional. Mas com este se deve articular o significado cultural das iniciativas de solidariedade que vai gerando a resposta a problemas sociais concretos, assim como do esforço, bem ou mal sucedido, de ir lendo a vida do país e das populações em chave ética e religiosa. Analisar detalhadamente o significado desta presença é difícil e complexo. Mas a título de exemplo de como a Igreja vai estando presente a diversos níveis nas situações mais complexas incluímos neste número um pequeno dossier sobre Timor-Leste. Ao testemunho dum timorense católico, às passagens duma carta do clero da diocese de Dili e às notas dos episcopados indonésio e português há que acrescentar agora o facto da sua publicação conjunta numa revista deste teor. A Igreja, porém, não olha só de fora o mundo da política. Recordava Tomás de Aquino que "a ciência política está incluída na ciência moral, pois se ocupa em ordenar as relações entre os homens, e mais na perspectiva da moralidade do fazer do que na da mecânica da produção" (Coment. I Politica, liç. I). "Poder", a própria palavra o indica, tem a ver com a possibilidade e a eficácia na transformação da vida em sociedade. Mas possibilidade e eficácia medem-se em termos dos objectivos pretendidos. Em termos dos seus objectivos Hitler ou Estaline exerceram o poder com eficácia terrível e uma democracia parlamentar seria pouco eficiente. Mas se os objectivos dum regime são a participação livre e responsável de todos os cidadãos na gestão da sua vida comum, nessa óptica a eficácia das ditaduras é reduzida. Assim, "o juízo político será decidido pelo estilo de vida que uma pessoa espera e se propõe viver em comunidade" (Coment. II Politica, liç I), e o próprio conceito de poder e do seu exercício é condicionado por essa opção de fundo. Numa primeira abordagem desta questão quisemos ouvir alguns católicos com experiência feita em órgãos de poder, quer no Governo quer na Assembleia da República. Assim preenchemos a habitual secção de Depoimentos. Não podemos terminar esta breve introdução sem reconhecer uma falha importante na reflexão teológica no nosso país. Numa singular afirmação, proferida em 1975, Max Horkheimer, neomarxista da Escola de Frankfurt, escrevia: "Uma política, por menos reflectida que seja, se não mantém em si um momento teológico, pode ser muitíssimo habilidosa, mas reduz-se, em última análise, a uma questão de negócios."(1) E não restam dúvidas. Em Portugal, nós, teólogos, deixamos desguarnecidos esse "momento teológico". Ao ponto de se poder perguntar: decorridos quarenta anos de ditadura, treze anos de guerra, uma revolução e oito anos de democracia, se um estranho abordasse a história deste período pelo ângulo da produção teológica, dar-se-ia conta de que algo se passara no país? Não é num número da revista que se irá inverter esta situação. No entanto, o desafio é reconhecido, e algo se adianta. Um artigo de Mendo Castro Henriques aborda aspectos mais filosóficos do poder. E um artigo de von Balthasar abre horizontes sobre o poder de Deus: modelo último de todo o poder humano que se pretende criativo e libertador; um poder que na sua revelação plena em Jesus Cristo se manifestou doação, despojamento, serviço. Por fim, a época litúrgica – Ascensão e Pentecostes – presidiu à selecção de um artigo de Walter Kasper, discípulo do recém falecido Karl Rahner, e teólogo de renome por direito próprio.

(1) M. Horkheimer, "Die Sehnsucht nach dem ganz Anderen. Ein Interview mit Kommentar von Helmut Gumnior", Hamburg 1975, 60.

 
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