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Autor
Ano IV • 1987-04-30 • nº 2 • Março/Abril
Bem-aventurados os perseguidos
 
palavra-chave
 
   

artigos
É “bem-aventurado” o Crucificado? • pág 101
Balthasar, Hans Urs von
“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça” (Mt 5, 10) • pág 104
Kertelge, Karl
Atitude do cristão perante um mundo heterogéneo. A perseguição no Apocalipse • pág 115
Vanni, Ugo
Martírio e santidade • pág 123
Bragança Joaquim Oliveira
Justiça e sabedoria. O filósofo e a cidade na “República” de Platão • pág 135
Serra, José Pedro S.
Coragem cívica e perseguição política. Uma questão de consciência moral • pág 149
Marques, Rui Ferreira
O desejo de ver Jerusalém. História do tema das duas cidades • pág 155
Bedouelle, Guy
A “radiante tristeza” de Siluan do Monte Athos • pág 168
Lassus, Louis-Albert
Igreja e Inquisição. A propósito de um Congresso • pág 181
Branco, Maria C.
Vietnam. O martírio de uma Igreja • pág 184
Gheddo, Piero


apresentação

H. NORONHA GALVÃO

Àqueles que sofrem perseguição, Jesus Cristo prometeu a felicidade. O perseguido por causa da Verdade, da Justiça e do Amor foi Ele próprio. O seu testemunho até ao fim, a sua "martyria" levou-o até à Cruz. Ter-se-á então de afirmar que Ele, na cruz, era feliz, era bem-aventurado? A esta questão dá resposta Hans Urs von Balthasar, demarcando a situação de Jesus, na sua paixão, daquela que conceberam alguns filósofos da Antiguidade (os estóicos, principalmente) para o sábio no cavalete de tortura. Se é na sabedoria que consiste a felicidade, argumentavam, então mesmo no meio dos maiores tormentos o sábio será feliz. O sábio que foi Sócrates, também ele selou com a sua condenação à morte o testemunho pela Justiça no meio de uma cidade injusta, como nos expõe José Pedro Serra. Deste modo, Sócrates ensinou à posteridade a distinguir o direito e a justiça, assim como a necessidade de uma permanente crítica do primeiro à luz da segunda. Casos históricos, como o da Inquisição de Estado de que nos fala Maria C. Branco, alertam para a importância dessa primazia da justiça – cuja imparcialidade, infelizmente, não imperou também nalgumas comunicações do Congresso que quis, há pouco, actualizar esta problemática. Mas casos de perseguição injusta por motivos ideológicos ou políticos continuam a ensombrar o nosso mundo. Daí o apelo da Amnistia Internacional de que se faz eco Rui F. Marques, por motivos que são também e sobretudo cristãos. Na sua morte, Jesus Cristo quis assumir toda a paixão que deriva da injustiça, sem enjeitar qualquer parcela da tragédia humana que ela significa, nem que fosse por uma "a-patia" filosófica. Por isso, a sua "martyria" culmina no grito da maior angústia humana, que experimenta a ausência de Deus: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste!" Este grito, no entanto, é oração. Trata-se do início do Salmo 22(21), que, logo a seguir, dá expressão à mais total confiança e esperança em Deus. Uma tal morte, nas trevas da mais radical angústia, é, afinal, o lugar da intervenção salvadora de Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo. Ela constitui, por isso, o lugar da felicidade dada por Deus. E esta é a bem-aventurança prometida àqueles que forem perseguidos como Ele foi, que forem perseguidos "por sua causa". Num artigo porventura difícil para os nossos leitores que ainda se iniciam nos meandros da cultura cristã, Karl Kertelge investiga qual o sentido exacto da bem-aventurança evangélica dos perseguidos. Não quisemos privar deste artigo os leitores mais exigentes e, de qualquer modo, desejaríamos que a nossa revista fosse contribuindo para a elevação do nível cultural dos cristãos, permitindo-lhes um melhor conhecimento em domínios da cultura cristã de que eventualmente ainda se encontrem alheados. Dois outros artigos, um do exegeta Ugo Vanni, outro do historiador Guy Bedouelle, prolongam esta temática, mostrando a situação dos cristãos no meio dos confrontos ou das encruzilhadas dos diversos poderes. Joaquim Bragança propôs-se apresentar o significado do martírio, na Igreja Antiga, a partir de textos da Tradição cristã. Finalmente, o artigo de Louis-Albert Lassus, expressivamente traduzido por um bom conhecedor da matéria, introduz-nos no domínio de uma espiritualidade, possivelmente estranha para muitos de nós. É a mística de um sofrimento pelo pecado, que recusa qualquer mitigação ou subterfúgio; e encontra aí a alegria do Ressuscitado, ao assumir o seu grito de abandono na cruz à luz da sua glorificação. (1) Como documento, transcrevemos um testemunho que nos chega do Vietnam e cuja actualidade é atestada por recentes notícias vindas a lume. Certamente que existem outras situações actuais de perseguição aos cristãos, que merecem a nossa atenção. Um testemunho pedido da América Latina não nos foi enviado a tempo de ser publicado. A COMMUNIO continuará, porém, atenta a esta temática.

(1) A aproximação que o próprio autor faz desta mística com a espiritualidade de Thérèse de Lisieux (p. 176), poderá contribuir para um maior esclarecimento de algumas questões levantadas por Alain Cavalier, o realizador (agnóstico) do filme "Thérèse".

 
  KEOPS multimedia - 2006