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Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XXX • 2013-12-31 • nº 4 •
Santidade da Igreja
 
palavra-chave
 
   

artigos
"Sede santos, porque Eu, o Senhor, sou santo" (Lv 19,2). Visão bíblica da santidade • pág 391
Vaz, Armindo
A Igreja santificada por Cristo • pág 403
Villemin, Laurent
A Igreja santa, comunhão de santos e pecadores • pág 419
Lamelas, Isidro Pereira
A confissão da casta meretrix • pág 425
Servais, Jacques
As bem-aventuranças. Um caminho de felicidade para o nosso tempo? • pág 441
Manicardi, Luciano
A ópera S. Francisco de Assis de Olivier Messiaen. Breves considerações teológicas • pág 451
Duque, João Manuel
Por linhas tortas. A santidade em O Nó do Problema de Graham Greene • pág 463
Falcão, Maria Luísa
Caminhos de santidade • pág 469
Madeira, Rui
Atenas – Jerusalém – Roma • pág 483
Brague, Rémi
Como Jesus ensina • pág 499
Matos, Vitalina Leal de
O testemunho de fé no Jesus da História • pág 505
Galvão, Henrique de Noronha


apresentação
J. M. PEREIRA DE ALMEIDA – H. NORONHA GALVÃO

Dando continuidade à reflexão sobre as notas da Igreja – que é “una, santa, católica e apostólica” como professamos no Credo –, após os números da revista COMMUNIO dedicados à apostolicidade (2011/4) e à catolicidade (2012/4), debruçamo-nos este ano sobre a santidade. Em que sentido e como é santa a Igreja? Há momentos em que a santidade eclesial se torna visível através do testemunho de cristãos que, por isso, são reconhecidos como “santos”. E, embora alguma comunicação social encontre mais sensacionalismo em divulgar os erros dos membros da Igreja, é também certo que, quando surge uma Irmã Teresa de Calcutá (ou o sempre actual S. Francisco de Assis), fica patente aos olhos de todos a acção do amor desinteressado enquanto marca da presença de Deus no mundo. Citando a própria palavra de Deus: “Sede santos porque Eu sou santo” (Lv 11,45), Armindo Vaz explica que a santidade é atributo de Deus comunicada aos que lhe são fiéis, tornando-se para estes um imperativo ético. Já no Antigo Testamento a santidade de Deus é “a maravilha do seu Ser” em toda a sua transcendência, dando-se a conhecer logo no acto da criação realizado pela sua Palavra, que “distingue d’Ele todos os seres e vê-O como o Ser de todos, dando-lhes assim o sentido último”. Para o profeta Oseias o amor “é elemento essencial de Deus e da sua santidade, manifestada pela misericórdia que perdoa”. Chegados ao Novo Testamento, a revelação da santidade de Deus dá-se em Jesus Cristo pelo Espírito Santo que é o próprio Amor de Deus. E se já pelo baptismo os cristãos participam dessa santidade, ela permanece como uma vocação a realizar durante toda a vida. A Igreja é santificada por Cristo, segundo a doutrina da Carta aos Efésios, 5,21-33, um texto que Laurent Villemin analisa, privilegiando o comentário que dele fez S. Tomás de Aquino e o lugar central que ocupa nas referências do Concílio Vaticano II. O casal humano surge como a melhor imagem para significar a ligação entre Cristo e a Igreja, caracterizando- -se a acção de Cristo por um amor que purifica e santifica. Como sublinha o Concílio, é em Maria que se encontra a perfeição da Igreja “sem mancha nem ruga” (Ef 5,27); e é tendo-a como exemplo a seguir que todos os fiéis se esforçam por crescer na santidade. Dado, porém, que a fé em Deus, longe de abolir a liberdade humana, ainda a potencia, constitui uma realidade na Igreja a coexistência do bem e do mal (ou, segundo a parábola de Mt 13,24-30, do trigo e do joio), segundo um processo em que o pecado se aproveita do que é bom (cf. Rm 7,13), mas acabando por ser superado pela misericórdia divina: “onde aumentou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). Já no livro do profeta Oseias se lê a afirmação de Deus: “Não desafogarei o furor da minha cólera… porque sou Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti…” (11,9) Traduzindo essa ambivalência e tensão entre santidade e pecado, é o entendimento tradicional da expressão Igreja casta e meretriz a que Jacques Servais se refere, embora o sentido originário da expressão, conforme esclarece Isidro Lamelas, diga respeito à abertura do espaço eclesial a todos os povos, sem excepção: “… a expressão quer afirmar, antes de tudo, que a Igreja é sempre santa, ainda que formada de muitos povos que não pertencem ao povo ‘santo/eleito’ e, por isso, se consideram pecadores. O qualificativo de ‘pecadora/meretriz’ tem a ver, portanto, com a vocação da Igreja de acolher ou de ‘se dar a todos os homens’ para a todos levar a salvação de Cristo. Neste sentido, meretrix… quer afinal dizer que a ‘santidade’ é alargada, através da Igreja, a todos os ‘santos’ e ‘pecadores’ que comungam da mesma fé, e peregrinam a caminho da Jerusalém em que a Igreja se apresentará definitivamente ‘sem mancha nem ruga’.” O que não impede, porém, que a Igreja tenha sempre uma dimensão permixta, misturada, como sublinha Orígenes, “não só porque feita de ‘santos e pecadores’, mas porque também os ‘santos’ são pecadores”. Como recorda Jacques Servais: “A liturgia é o melhor testemunho da santidade da Igreja e, ao mesmo tempo, da contínua necessidade de conversão e penitência… [A Igreja] não reza apenas pelos seus filhos, mas por si. A fim de ser o que é pela graça, a ‘cidade da paz’, sempre de novo à procura da paz com Deus; e por isso o seu culto assume a forma de um ‘combate pela expiação, pelo perdão pela reconciliação’ [J. Ratzinger].” E é igualmente neste sentido que, na sequência da doutrina do Concílio, os últimos Papas têm apelado a que a Igreja se reconheça publicamente pecadora e implore o perdão do Senhor. A Igreja que somos – comunidade dos discípulos do Senhor – escuta hoje, como na hora da sua proclamação, as Bem-aventuranças propostas por Jesus e entende-as, conforme apresenta Luciano Manicardi, como “um caminho de felicidade para o nosso tempo”. Felicidade e santidade: Jesus convida- -nos a sermos “pessoas humanas e santas, não santas de uma humanidade desumana, mas humanamente santas”. No âmbito do diálogo fé-cultura, publica-se um texto que nos propõe uma interessante leitura de perspectiva teológica da ópera Olivier Messiaen S. Francisco de Assis (João Duque) e outro que faz eco da santidade em O nó do problema de Graham Greene (M. Luísa Falcão). Em ambos, o primado da Graça, a “inimaginável misericórdia do coração de Deus”. Como depoimento pessoal e partindo da sua experiência em Angola, Rui Madeira apresenta, em Caminhos de santidade, o testemunho daqueles que, em condições extremamente adversas, se dedicavam a minorar o sofrimento de povoações votadas a doenças e grandes carências. Na secção Perspectivas, o filósofo francês Rémi Brague expõe o simbolismo de Jerusalém e de Atenas em relação às grandes correntes inspiradoras da cultura europeia. Apresentadas esporadicamente em mútuo desacordo, elas foram predominantemente entendidas a convergir numa síntese, nomeadamente da fé e da razão. Em qualquer dos casos, está sempre presente também Roma como terceira cidade, determinando um processo de coexistência e tensão. Ela exerce um papel de abertura a qualquer influência estranha e de mediação, não apenas nas funções que teve enquanto realidade histórica, mas inspirando igualmente uma atitude tipicamente “europeia” perante a cultura. À influência desta terceira cidade se deve, com efeito, a disponibilidade para acolher as mais diversas influências, dando origem à multiforme riqueza da cultura ocidental. Além disso, dois pequenos textos pretendem ajudar a entender Como Jesus ensina e O testemunho de fé no Jesus da História. No primeiro, Vitalina Leal de Matos utiliza a linguística para descodificar a estratégia de Jesus ao comunicar o seu ensino. No segundo, H. Noronha Galvão defende que a visão de fé das testemunhas que estão na origem dos relatos do Novo Testamento acerca de Jesus, constitui a mais fidedigna interpretação do que realmente aconteceu de histórico – tendo em conta, também, o que há de arbitrário em várias construções ideológicas que se propõem hoje como alternativas.

 
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