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Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XXX • 2013-09-30 • nº 3 •
Amizade
 
palavra-chave
 
   

artigos
A amizade na Bíblia • pág 263
Lourenço, João
Amar o amor. Um motivo agostiniano nas Confissões • pág 277
Galvão, Henrique de Noronha
Oração pelos amigos • pág 286
St. Anselmo de Cantuária
A amizade segundo S. Tomás de Aquino • pág 289
Cunha, Duarte da
Amor e amizade na literatura medieval • pág 301
Zink, Michel
O Tratado da Amizade de Matteo Ricci. Da amizade universal à amizade sob o céu • pág 313
Rong, Hengying
Uma economia amiga das pessoas • pág 325
Silva, Manuela
A amizade no universo digital • pág 333
Ribeiro, Nelson
O difícil tema da amizade • pág 343
Martins, Guilherme d'Oliveira
Amizades e cumplicidades. Representações • pág 349
Nadal, Emília
Nenhum caminho será longo. Para uma teologia da amizade. Recensão • pág 361
Ferreira, Maria Luísa Ribeiro
Amizade e comprometimento • pág 367
Madeira, Rui
A despedida ritual do liurai Mesquita • pág 375
Andrade, Madalena C. F. Mesquita de


apresentação

M. Graça Pereira Coutinho – Rui Madeira


Dada a relevância e actualidade do tema, a communio assumiu o desafio de reflectir sobre a amizade. Abordou, assim, diversos espaços de pensamento, desde as narrativas dos textos bíblicos, que a enquadram numa perspectiva teológica, até à reflexão do seu sentido em módulos vivenciais, acompanhando a sua evolução conceptual e na actualidade, em campos complexos como são a política, a economia, a comunicação e a arte, num mundo tecnológico. Com efeito, em tempos em que é indispensável o correcto enquadramento e a integral compreensão dos vastos problemas que afectam a humanidade, a qualidade das relações não pode deixar de depender do sentido da amizade, que se torna assim determinante.
Comum a diversas literaturas ao longo dos tempos, em diferentes contextos mas com um interessante rasto etimológico, o conceito de amizade manifesta diferentes sentidos. Desde a relação entre o poder e os deuses, entre o poder e os seus mais próximos, até às mais simples e humildes relações humanas. Situações estas que, embora aparentemente dissemelhantes, testemunham a marca comum da afectividade que ressalta das correspondentes vivências relacionais.
No texto bíblico, do Antigo ao Novo Testamento, nascida de uma mesma fonte semântica, a amizade revela-nos a riqueza relacional e a busca da proximidade de Deus. É assim que, numa abordagem global, João Lourenço nos conduz por um caminho de procuras e encontros, salientando como o contributo da teologia profética abre novos horizontes, referenciando a importância de Oseias e seu testemunho de encantamento por Deus.
Com o objectivo de entender o papel da realidade temporal em que se enquadra a amizade e para melhor percepcionar a sua realidade espiritual, Henrique de Noronha Galvão inicia-nos na experiência pessoal de St. Agostinho, experiência que está na génese das Confissões. É um percurso de procura como forma de conhecimento, partindo da ciência prática ao encontro da sabedoria enquanto acesso à verdade. Assente, assim, numa realidade vivencial em cuja análise se sublinha como “ainda não amava mas amava amar”, a dor da perda de um amigo faz parte do percurso de busca e conversão, na admissão dos erros vividos e na descoberta do amor de Deus. Mas o amor de Deus de que se participa não está “desligado de todos os outros domínios da vida”. Em perspectiva inversa, nota St. Agostinho, é necessário “se amas o irmão, que ames o próprio amor; o amor porém é Deus: é portanto necessário que ame a Deus quem ama o seu irmão”. De onde o sentido de que, se Deus é o amor, “aquele que ama o amor ama a Deus”.
Na Oratio pro amicis, St. Anselmo de Cantuária define a amizade como um dom de Deus, que leva, pelo desejo do bem dos amigos, a um apelo à prece devota por eles. Não basta amar os amigos, necessitamos também que Deus, “dispensador de caridade”, os ame para que eles encontrem a forma de O amar.
Por seu turno, Duarte da Cunha aborda S. Tomás de Aquino e realça o seu pensamento inovador que evidencia como próprio da fé cristã a existência de um amor recíproco entre Deus e os homens. Renova a concepção de amizade, tendo como fundamento a caridade e passando pela síntese do pensamento teológico anterior, com acentuação na prévia capacidade de comunicação (communicatio) a qual é geradora de união real, fonte de uma vida comum e de um querer para os amigos a santidade.
Michel Zink começa por nos assinalar que, na reflexão feita na Antiguidade sobre o encontro entre o amor e a amizade, prevalecia o sentido do eros, enquanto que na Idade Média começou a ser marcante e a intensificar-se a visão de um amor englobante de todas as formas de afecto, subordinada nas suas manifestações ao amor divino. A partir daqui conduz-nos através de uma meditação literária e filosófica sobre um acervo de obras de autores medievos. Percurso visitante, com senso psicossociológico, onde a reflexão metafísica do amor e da amizade assinala e retrata as diversas vivências entre a natureza e a espiritualidade. É a busca do caminho para o amor de Deus.
Em época complexa e atribulada em que a globalização é corrente na linguagem comum, em tempos conflituais como os nossos de encontros e desencontros culturais, o artigo de Rong Hengying sobre a integração do missionário jesuíta Matteo Ricci no ambiente social e cultural do Império Chinês no período da Dinastia Ming, em finais do sec. XVI, deixa uma marca importante. Na síntese política e cultural conseguida por Ricci, é alcançada a convivência entre a concepção greco-romana da amizade e a entendida pelos estudiosos chineses confucianos. Na sua meditação e diálogo, o jesuíta italiano abre espaços a uma compreensão do outro numa linguagem neoconfuciana e humanista. No Tratado da Amizade que foi convidado a escrever, Ricci trata, inspirando-se na filosofia confuciana e em consequência dos seus valores dominantes, o tema da amizade introduzindo o “acento da virtude” como sua finalidade, e “por isso objecto do mais elevado respeito” e procura dos homens de bem. A virtude, pois, como ponto fulcral de amizade, meio privilegiado do progresso moral de cada um e do relacionamento com o outro. O desafio a sermos nós capazes de “descobrir com paciência e curiosidade o que é verdadeiro e precioso no outro” é uma marca de Ricci que não se esquece.
No contexto da presente e dramática crise, pelas disfuncionalidades nos sistemas, designadamente no financeiro, Manuela Silva, tendo subjacente o perfil egoísta, manipulador e interessado na maximização do ganho, acentua, como indispensável para enfrentar com sucesso a situação actual, o seu relacionamento com a amizade, o que pode parecer estranho à primeira vista. Refere que as palavras não são o bastante para modificar a realidade, mas faz notar que elas podem, no entanto, transformar as consciências e revelar as características altruísta e empática do ser humano. E, assim, propõe o desafio a que se siga um novo caminho de uma economia do dom e da solidariedade, com base no sentimento de gratuitidade e sentido do outro, também componentes do código genético do ser humano.
Numa época em que o universo digital ocupa um lugar cada vez mais significativo, Nelson Ribeiro reflecte sobre o impacto das redes sociais online e offline, o novo tipo de amizade criado pelas plataformas sociais e as consequências que poderão resultar da confusão estabelecida entre os conceitos de amigo e de conhecido.
Emília Nadal, por seu turno, chama a atenção para a projecção que a amizade assume significativamente no campo artístico, nos diversos domínios literários, visuais e musicais, e salienta a importância da sua expressão relacional no cinema e no teatro, introduzindo-nos num itinerário de exemplos, nascidos da história, que nos conduzem até aos textos litúrgicos.
Partindo do “abuso na linguagem comum, da palavra e do sentimento” Guilherme d’Oliveira Martins introduz-nos na realidade da polis, com o entendimento “que somos a outra metade do nosso próximo e que a amizade significa a compreensão disso mesmo”. E não é fácil quando nesse entendimento é essencial a confiança. Acentuando assim as existentes dificuldades e fragilidades, relembra Cícero e Montaigne, focando-nos com precisão nos princípios essenciais à realização do bem comum. Mas, como ponto de partida para uma atitude consequente, referindo Jacques Maritain, acentua a necessidade de uma assumida consciência de que a “amizade é um dom pessoal centrado na relação entre as pessoas e na reciprocidade”.
A amizade tem inerente um comprometimento e é a partir do necessário autoconhecimento do eu profundo que se alcança a capacidade relacional e a percepção do outro, considera Rui Madeira. É o ponto de partida, no seu depoimento, para uma reflexão sobre o sentido essencial do amor ao próximo e o significado do amigo e da amizade, com base nas características vivenciais, afectivas, espirituais e culturais modeladoras de relacionamentos e tendo em conta o pressuposto da necessária liberdade de escolha de cada um.
Num texto de recensão, M. Luísa Ribeiro Ferreira desenha-nos um itinerário pelo livro de José Tolentino Mendonça Nenhum caminho será longo. Revela-nos uma visão que conduz o leitor por vias que lhe avivam e apresentam uma realidade literária e filosófica que não está ao alcance da leitura ligeira. Consegue uma adesão profunda ao texto, que passa a ser mais saboreado, chamando a atenção para as paisagens diversas, bíblicas e filosóficas, excelentemente enquadradas. E neste andamento sublinha que o amigo se apresenta “como testemunha do tempo”, nos conhece “naquilo que fazemos, interfere nos nossos sonhos e projectos, está consciente dos nossos sucessos e frustrações, acompanha e reconhece o nosso percurso”.
Na secção Perspectivas, Madalena Mesquita de Andrade, neta do último liurai (autoridade suprema) do reino de Caimuc, Timor-Leste, descreve os ritos funerários organizados pelo liurai Mesquita em honra dos seus antepassados, realçando a importância que esta iniciativa teve, a nível pessoal e comunitário, na transição da religião tradicional para o cristianismo da actual Paróquia de Remexio.

 
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