Pgina Inicial  
revistas artigos autores noticias  
Página Inicial
Direcção e Redacção
Conselho de Redacção
Estatuto Editorial
Condições de assinatura para 2014 e 2015
Edições noutros países
Livrarias onde Adquirir
Publicações Communio
Nota Histórica
Ligações
Contactos
Pesquisa
Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XXX • 2013-06-30 • nº 2 •
Rito e ritualidade
 
palavra-chave
 
   

artigos
Rito e símbolo. O jogo das transcrições • pág 135
Cardita, Ângelo
Vocabulário e gestos rituais no NT. Pequeno guia para viajar no aberto • pág 147
Mendonça, José Tolentino
As primeiras comunidades cristãs vistas por um pagão. Uma dissidência ou uma coincidência ritual? • pág 155
Falcão, Pedro Braga
A ritualidade litúrgica. Um espaço de liberdade • pág 169
Cassingena-Trévedy, François
Ritos e iniciação cristã. A emergência do sujeito crente • pág 183
Eleutério, João Marques
A capela Árvore da Vida. Arte e arquitetura • pág 201
Carvalho, Joaquim Félix de
Adão é deitado de sua alegria. A propósito de ritos, rituais e teatro • pág 215
Cintra, Luís Miguel
O cante alentejano. A hipótese ritual • pág 227
Weffort, Alexandre Branco
Crianças e ritos • pág 239
Cardoso, Leonor
Sobre a composição de Pater • pág 247
Madureira, João


apresentação

Alfredo Teixeira – Juan Francisco Ambrosio


São várias as disciplinas que se têm ocupado do homo ritualis. Uns procuram aí uma especificidade simbólica ou mesmo padrões sociobiológicos que permitiriam a comparação entre espécies; outros descobriram no homo ritualis um substrato anterior ao homo narrans, discernindo, na atividade ritual, um dos primeiros lugares de elaboração da cultura, anterior à própria linguagem articulada. Qualquer que seja o ponto de vista, parece indesmentível que a atividade ritual humana está particularmente ligada à sua criatividade simbólica: enquanto sistema de proteção, memória de acontecimentos fundadores, força instituidora, operador de mudanças sociais, proteção face ao desconhecido ou perante o enigma do futuro, recurso emblematizador da identidade coletiva, etc.. Percebe-se, assim, que a compreensão antropológica do rito exija a consideração da especificidade da atividade simbólica humana: “o rito pode ser entendido como uma transcrição pragmática do símbolo e este, por sua vez, como uma transcrição sintática do rito” (Ângelo Cardita).
Vale a pena recordar aquela já clássica observação de Paul Ricoeur, segundo a qual o rito é primeiro que tudo um agir, uma modalidade do fazer não redutível à ordem do discurso e da palavra. Mesmo que esta esteja presente, não prevalece sobre a ação, pois a compreensão intelectual desse agir não é condição primordial. Frequentemente, a ordem do discurso é apenas redundância, acompanhamento rítmico, explicação etiológica para uma prática cuja origem não se conhece. As observações clássicas de Émile Benveniste sobre o lexema ritus apontam para a sua ligação aos itinerários de formação do campo jurídico ocidental: aí, ritus é uma variante do conceito geral de ordem, que inclui a ideia de solidariedade das partes que constituem um todo. Seguindo tal perspetiva, muitas das abordagens clássicas do rito procuraram sublinhar que o rito é um modo de comunicação ao serviço da construção e manutenção da identidade coletiva. Por isso a atividade ritual teve sempre uma particular articulação com a religião e a política, precisamente porque estes domínios da cultura são os contextos decisivos na construção da experiência coletiva.
Tanto no terreno da política como da religião, não há gesto ritual que não seja referido: como sublinhou o antropólogo do Direito, Pierre Legendre, a ritualidade só é praticável na relação com a “referência” que a acredita. Seguindo a expressão do antropólogo, a religião ritualizada pode ser vista como atividade produtora da exterioridade do fundamento (assim perenizado sob a forma ritual), como mise en scène da referência fundadora de uma cultura perante os sujeitos – daí a exigência do mito, enquanto cenário. Num outro plano, a ritualidade litúrgica cristã pode ser lida nessa capacidade de se ultrapassar o encerramento de si: “o rito abre o sujeito individual ao seu carácter relativo e à sua solidariedade no seio dum grupo, e, portanto, o socializa, o rito litúrgico abre-lhe a memória” (François Cassingena-Trévedy).
Quando se pensa o longo curso das mutações das formas religiosas, pode descobrir-se uma certa tensão entre rito e ética. O rito pode ser uma linguagem endurecida, naqueles sistemas religiosos centrados na organização de um instrumentário simbólico de proteção face às ameaças do meio ou na construção de identidades coletivas. A criatividade ritual humana parece encontrar as suas contradições em contextos religiosos marcados pela edificação de um ethos individual. O movimento de Jesus e o cristianismo, em particular, podem ser lidos no quadro desta tensão entre rito e ética – tanto no confronto com a religiosidade da pureza ritual (José Tolentino Mendonça), como tensões face à ritualidade civil da pax romana (Pedro Falcão). Mas estas tensões não impedem a consideração de que, na medida em que o cristianismo se tornou religio, se vincasse o investimento na expressão ritual, em particular no quadro da historicização e cosmicização da sua estrutura sacramental. Assim, os recursos rituais não deixaram de estar presentes no quotidiano da vida eclesial, podendo mesmo emblematizar as cisões, as reformas ou as urgências de inculturação. Assim, o rito – como que um fóssil social – permite a identificação do rasto da penetração das tradições religiosas em diversas práticas e produções culturais – as hipóteses acerca da origem ritual do cante alentejano (Alexandre Branco Weffort) ou a exploração das imbricações do teatro e da liturgia (Luís Miguel Cintra).
Nas sociedades contemporâneas, o rito tornou-se um lugar de observação dos itinerários de erosão e recomposição do religioso. Porque se fragilizam as dimensões coletivas da identidade em detrimento da afirmação do indivíduo, são frequentes as interpretações que vêm, na atual precaridade dos rituais, um dos laboratórios da secularização. Assim Marcel Gauchet, ao afirmar que a religião subsiste apenas nos seus “restos” subjetiváveis. Assim Jürgen Habermas, que vê no desenvolvimento de uma ética comunicacional a possibilidade de dispensar o rito na construção dos consensos. Estes discursos, que enquadram a recomposição subjetiva do religioso numa espécie de teleologia, permanecem muito pouco atentos ao “religioso-a-fazer--se”. Não se interrogam acerca das “múltiplas modernidades”, onde é possível descobrir fenómenos de sinal contrário, que não podem ser neutralizados numa narrativa homogeneizadora. Subsistem algumas perguntas: Porque persistem uns ritos, mais do que outros? Porque assistimos, em certos contextos, a um recrudescimento da sacralidade ritual? Porque se desloca a simbolicidade ritual para outros domínios sociais?
O rito, enquanto objeto da teologia litúrgica e sacramental, mereceu recentemente uma renovada atenção por parte da teologia prática, nos diferentes contextos da pastoral da iniciação cristã, da pastoral sacramental e da pastoral comunitária. A atenção deslocou-se também para o papel “terapêutico” do rito em contextos críticos de perda e em situações de sofrimento. Essa remodelação do olhar prático-teológico é o lugar de perguntas pertinentes. Como pode a pedagogia do rito ser lugar de investimento em novas formas de transmissão e proposição da fé (João Eleutério)? No contexto da iniciação à fé das crianças, pode uma estética do rito ser um lugar de identificação cristã (Leonor Cardoso)? Como pode o espaço arquitetónico litúrgico ser, hoje, um lugar de abertura espiritual ao mistério de Deus, narrando, na sua plasticidade própria, a historia salutis (Joaquim Félix de Carvalho)?
Na medida em que as Igrejas vivem a urgência de reinventar os modos de comunitarização cristã, numa era de investimento no self e de desarticulação entre crer e pertencer, volta a ser necessário pensar o lugar da expressividade ritual nas lógicas de ação eclesial. Neste contexto, a ritualidade cristã é um lugar privilegiado de abertura do “recebido”, mas também ao “recriado”.
A secção “Perspetivas” deste número da revista Communio é preenchida pela publicação de uma obra de João Madureira, com uma nota introdutória: Pater, uma das secções do ciclo “Passio I-III”.

 
  KEOPS multimedia - 2006