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Titulo do Artigo
Autor
Ano XXX • 2013-03-31 • nº 1 •
Universidade
 
palavra-chave
 
   

artigos
A Universidade e a autoridade da verdade • pág 007
Ratzinger, Joseph / Bento XVI
A Universidade. Uma instituição de intermitências • pág 017
Gonçalves, Joaquim Cerqueira
A fusão da Universidade Clássica e da Universidade Técnica de Lisboa • pág 029
Antunes, João Lobo
A Universidade e a ruptura entre ciência e sabedoria • pág 043
Neto, Francisco Borba Ribeiro
A relação professor-estudante no ensino superior no século XXI. Incidências na Universidade Católica • pág 057
Azevedo, Joaquim Moreira de
A Universidade como comunidade imaginada • pág 073
Faria, Luísa Leal de
Abertura, escala, transparência e integração. Como a rede está a reinventar as universidades • pág 087
Teixeira, António Moreira
A investigação fundamental tem sentido? Reflexões de um matemático católico • pág 097
Lafforgue, Laurent
Uma Universidade Católica na China • pág 111
Stilwell, Peter
Deus na Universidade. Recensão • pág 115
Salema, Carlos
A surpresa do sentido. Ciência, fé, e como encontrar a razão das coisas. Recensão • pág 117
Falcão, Maria Luísa
Da cátedra universitária à cátedra de S. Pedro. Na despedida de Bento XVI • pág 123
Galvão, Henrique de Noronha


apresentação

M. Luísa Falcão – Carlos Salema – M. Luísa Ribeiro Ferreira


Fala-se muito do modo como a crise tem afectado a Universidade mas pouco do papel que esta pode e deve ter na reflexão sobre uma inevitável mudança de vida e de padrões valorativos. No entanto, é na Universidade que se encontra a elite intelectual do país, o que, consequentemente, leva a que dela esperemos uma reflexão aturada, projectos inovadores, quiçá soluções, para ultrapassar este estado de coisas. No presente número da Communio, e pela mão de universitários, procuramos fazer o levantamento de algumas das questões essenciais com que se defronta esta instituição.
Escolhemos como texto inicial a alocução que o Papa Bento XVI deveria ter pronunciado na sua visita à Universidade La Sapienza de Roma. É um escrito que não cumpriu os seus objectivos pois, como sabemos, a visita papal foi impedida à última da hora. Intitulámo-lo A Universidade e a autoridade da verdade, pois esta é, segundo Bento XVI, a missão essencial da Universidade, uma instituição que deverá valorizar a “sabedoria das grandes tradições religiosas” e caminhar na “procura laboriosa da razão para alcançar o conhecimento da verdade total”.
O texto de Cerqueira Gonçalves, A Universidade. Uma instituição de intermitências, faz justiça à Idade Média como época que viu nascer esta “instituição questionante”. De onde as interrogações que hoje se lhe levantam. A primeira e mais funda, diz respeito à sua actual pertinência ou justificação, consequência das características do saber dominante que necessariamente ultrapassa as fronteiras da Escola. As questões levantadas pelo Prof. Cerqueira Gonçalves visam a problematização de um saber universitário, discutindo a sua legitimidade, o seu carácter de representação, a sua convergência para a técnica e a sua responsabilidade na salvaguarda de um futuro.
João Lobo Antunes em A Fusão da Universidade Clássica e da Universidade Técnica de Lisboa debruça-se sobre a recente ocorrência que levou à ampliação da Universidade de Lisboa pela fusão de duas instituições do ensino superior de grande dimensão (a Clássica e a Técnica). É um caso inédito na história das universidades portuguesas, mas tem-se revelado uma tendência crescente na cena académica internacional. O Autor elenca as razões que levaram a esta decisão, sublinhando a complementaridade das duas universidades, que se traduz na cobertura total das chamadas learned professions (“profissões baseadas no conhecimento”), a capacidade de criar programas de ensino multi e transdisciplinares, os benefícios trazidos pela articulação dos centros de investigação, a partilha dos recursos administrativos e de experiências em áreas de empreendedorismo. O texto descreve o processo, desde uma primeira ideia de consórcio, até à etapa final, relevando a necessidade de preservar a autonomia das Escolas, sobretudo as que integram a UTL.
Em A Universidade e a ruptura entre ciência e sabedoria, Francisco Borba Ribeiro Neto apresenta-nos a ciência a fornecer o discurso legitimador na sociedade contemporânea. Constata-se hoje uma ruptura entre as ciências e a sabedoria, entendida esta como a capacidade de atribuir sentido à realidade. Mas o pleno desenvolvimento das ciências implica um horizonte sapiencial no qual se deverão inserir, tal como uma sabedoria adequada ao mundo contemporâneo necessita do conhecimento científico. Esta síntese é uma das atribuições específicas da Universidade, aquilo que a distingue de outros centros de pesquisa ou de formação.
Joaquim Azevedo preocupa-se com A relação professor-estudante no ensino superior no século XXI. Depois de apontar a tendência actual para a empresarialização do ensino e a necessidade de uma educação para os valores humanistas num mundo estudantil de “nativos digitais”, o autor interroga-se sobre o papel formativo da “Instituição” Universidade Católica no triângulo Saber-Professor-Estudante. A instituição terá sempre a responsabilidade acrescida de fomentar o diálogo e interacção entre alunos e professores e de educar, de forma integral, para a competência científica e técnica e também para a autonomia, responsabilidade e liberdade. Estes professores deverão assim ser profissionais e pessoas que, além de um saber muito sólido, devem possuir a “formação do coração”, num ambiente institucional que as apoia a participarem na missão educativa da Igreja para a Caridade.
Retomando a lição apresentada à Universidade de Lisboa a 9 de Março de 2011, A Universidade como comunidade imaginada, Luísa Leal de Faria alerta-nos para a oportunidade de uma reflexão sobre a identidade desta instituição milenar, despertando-nos quer para as suas tradições quer para as profundas mudanças ocorridas ao longo de séculos. Conclui que, tal como as nações europeias, a universidade é “um artefacto cultural específico que tem sofrido sucessivos processos de reformulação”. Os cerimoniais, os rituais, os trajes académicos têm sido mantidos e simultaneamente reinventados e adaptados às circunstâncias. Com novos modelos de governação, de administração e de avaliação, a Universidade manteve, desde a Idade Média aos nossos tempos, uma dimensão simbólica que lhe confere o estatuto de “comunidade imaginada”.
António Moreira Teixeira fala-nos dos novos e contraditórios desafios com que a Universidade se defronta. Em Abertura, escala, transparência e integração: como a rede está a reinventar as universidades, mostra-nos a articulação entre a oferta educativa para públicos não tradicionais e a internacionalização da sua oferta convencional, centrando-se na importância dos Massive Open Online Courses (MOOC), os quais manifestam a importância dos princípios de funcionamento do mundo em rede. O ensino a distância sofreu profunda transformação nos últimos anos, tanto do ponto de vista tecnológico como pedagógico, tendo vindo a constituir-se progressivamente uma prática generalizada.
Em A Investigação fundamental tem um sentido? Laurent Lafforgue sustenta que os académicos acreditam que o seu mundo está unido por uma espécie de culto à ciência, ao conhecimento e à inteligência. Contudo, a maioria das pessoas fora da academia não atribui grande valor à dedicação de uma vida ao serviço do conhecimento. Por isso, é lícito perguntar se terá sentido consagrar uma parte importante das nossas vidas a disciplinas sem qualquer ligação directa à vida, como a matemática. Para Laurent Lafforgue, a vitalidade universitária tem uma natureza teológica. Todas as coisas foram criadas por Deus e por isso todas merecem ser estudadas. Grande parte dos académicos não tem fé, mas no entanto continua a procurar e a ensinar pedaços da verdade, como se a possuísse. A confrontação com a verdade dos factos, a obediência às coisas como elas são e a renúncia a si próprio para atingir a verdade são os princípios fundadores e constituintes da Universidade em todos os tempos.
Na secção Depoimentos, em Uma Universidade Católica na China, Peter Stilwell, a partir de Macau, fala-nos da Universidade de S. José, onde é obrigatório o estudo do mandarim e do português, que conta com cinco faculdades, 1.800 alunos de cerca de vinte nacionalidades e um corpo docente proveniente de perto de sessenta nações. Segundo o seu Reitor, à USJ compete retomar a tradição milenar do ensino superior católico em Macau e na própria China, razão pela qual esta universidade se encontra empenhada em profunda reestruturação.
Publicam-se ainda duas recensões. Carlos Salema ocupa-se do livro Deus na Universidade – O que pensam os universitários portugueses sobre Deus?, onde destaca a coragem daqueles universitários a quem foi pedido um testemunho e que responderam ao desafio, conscientes das dificuldades de se afirmarem crentes no meio intelectual português adverso à ideia de Deus. Sublinha, por outro lado, o empobrecimento da própria formação universitária pública ao não dar aos seus jovens acesso ao riquíssimo património cultural religioso nos seus curricula. Em A surpresa do sentido: ciência, fé, e como encontrar a razão das coisas de Alister McGrath, Luísa Falcão aponta como eixos centrais do livro a necessidade premente que sentimos de ter uma perspectiva total da existência e, em paralelo, a fé que depositamos na racionalidade intrínseca do universo e na nossa capacidade de descobrir a lógica que a ele parece presidir. Com essa finalidade, o autor (cientista e teólogo) expõe aspectos concretos do saber científico, que uma visão inteligente e isenta da fé vem iluminar e completar.
Na secção Perspectivas H. Noronha Galvão em Da cátedra universitária à cátedra de S. Pedro recorda as aulas do professor Joseph Ratzinger no curso de preparação para doutorandos em Regensburg, e sublinha a profunda linha de continuidade que encontra entre o seu ex-professor e o papa emérito Bento XVI. Dos traços fundamentais de Ratzinger destaca a afabilidade, a sua multifacetada cultura, a excelência como professor, a capacidade de síntese e o cuidado de sempre alicerçar a teoria teológica na vivência da fé. Sublinha ainda a unidade fundamental, realizada nas duas cátedras, entre Logos e Agape, a Verdade e a Caridade, um tema enraizado na Bíblia e na teologia de St. Agostinho.
Para concluir esta Apresentação, recorremos às palavras, como sempre sintéticas e luminosas, de Bento XVI no artigo que dá início a este número da Communio: “A verdadeira origem da Universidade reside na ânsia de conhecimento que é própria do homem.”

 
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