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Titulo do Artigo
Autor
Ano XXIX • 2012-12-31 • nº 4 •
Catolicidade da Igreja
 
palavra-chave
 
   

artigos
Catolicidade como unidade na multiplicidade. Fundamentação cristológica e pneumatológica • pág 391
Kasper, Walter
Ministério petrino e colegialidade episcopal ao serviço da catolicidade da Igreja • pág 405
Pinho, José Eduardo Borges de
As "notas" da Igreja no cristão • pág 417
Cazzago, Aldino
Estará Cristo dividido? • pág 435
François, Irmão
Yves Congar. Um teólogo fiel ao futuro • pág 449
Émile, Irmão
Do Átrio aos Gentios. Uma Igreja tão católica quanto una • pág 465
Ferreira, Mafalda Folque
O ecumenismo em Bose • pág 479
Dotti, Irmão Guido
Estado social e sociedade solidária • pág 487
Martins, Guilherme d'Oliveira
Um novo humanismo em dez princípios • pág 493
Kristeva, Julia
A infância de Jesus vista à luz da história e da fé. Uma proposta de Joseph Ratzinger/Bento XVI • pág 499
Galvão, Henrique de Noronha
Padre António Vieira, jesuíta e profeta • pág 503
Bedouelle, Guy


apresentação

José M. Pereira de Almeida – Graça Pereira Coutinho – Juan Ambrosio


Dando continuidade ao ciclo anteriormente iniciado sobre as “notas” da Igreja (cf. Communio 4/2011), dedicamos este último número do ano 2012 a um dos atributos eclesiais, a catolicidade. Em pleno Ano da Fé, esperamos contribuir assim para uma reflexão mais aprofundada da afirmação de fé incluída no Credo: “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”.
Ao longo dos tempos – devido a vicissitudes históricas, a determinadas tendências culturais, etc. –, o conceito de catolicidade tem sido interpretado de várias maneiras, adquirindo conotações que frequentemente desvirtuam o seu sentido original. E levantam-se actualmente algumas questões sobre as quais se apresentam neste número propostas de reflexão: Qual a relação entre catolicidade e Igreja Católica Romana? Será a catolicidade um atributo exclusivamente da Igreja invisível? Como viver e entender o diálogo ecuménico neste contexto? A catolicidade será confundível com sincretismo de religiões?
Para melhor compreensão destas questões é fundamental remontar às origens históricas da utilização desta expressão e ao seu significado teológico original. Walter Kasper guia-nos neste percurso no artigo Catolicidade como unidade na multiplicidade. Fundamentação cristológica e pneumatológica. Começando na Patrística, passa pelos momentos cruciais para o desenvolvimento deste conceito na História da Igreja – Igreja do Império, (438); cisma do Oriente (1054); Igrejas da Reforma (séc. XVI) – detendo-se depois nas principais afirmações do Concílio Vaticano II sobre a catolicidade e suas repercussões na dimensão ecuménica. Retoma então os verdadeiros fundamentos cristológicos e pneumatológicos da catolicidade, para relembrar as exigências de conversão contínua que esta “nota” significa para a Igreja.
No artigo Ministério petrino e colegialidade episcopal ao serviço da catolicidade da Igreja, José Eduardo Borges de Pinho aborda uma questão de reconhecida complexidade, que emergiu de maneira significativa nos debates conciliares sobre a constituição Dogmática Lumen gentium e continua presente em todo o processo da recepção conciliar. Com o presente texto, como o próprio autor afirma, pretende-se apenas enunciar alguns pontos de reflexão e critérios de orientação que ajudem a um discernimento, como tarefa que cabe a cada cristão, a cada Igreja Local, ao ministério episcopal em comunhão com o bispo de Roma, e a todos aqueles que configuram quotidianamente a prática do ministério petrino. Após uma breve alusão ao significado da catolicidade da Igreja, a reflexão desenvolve-se relacionando o exercício do ministério petrino com a colegialidade episcopal, na recepção do Concílio, para depois explicitar a responsabilidade específica do ministério episcopal ao serviço da catolicidade na comunhão das Igrejas, e destacando, finalmente, a questão de fundo subjacente a toda a reflexão desenvolvida, ou seja, a tensão entre visões eclesiológicas diferentes e suas consequências.
As “notas” da Igreja no cristão são expostas com clareza por Aldino Cazzago que, com o pano de fundo da Igreja como sacramento de salvação, evidencia uma das imagens da Igreja – a de Corpo de Cristo – para dizer, com Yves Congar, que cada membro da Igreja possui, enquanto tal, a plenitude dos atributos eclesiais: unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade.
Partindo da pergunta feita por S. Paulo por causa das divisões existentes na comunidade de Corinto: “Estará Cristo dividido?” (1Co 1,13), o Irmão François, da comunidade de Taizé, propõe-nos uma reflexão sobre a unidade dos cristãos. Nesse exercício, recorre à imagem dos círculos concêntricos, utilizada pelo papa João XXIII. Na verdade, as diversas comunidades cris-tãs, muitas vezes ao longo da história, olharam para si e para a sua relacionação de uma maneira que pode ser traduzida pela imagem de círculos justapostos. Situando-se umas ao lado das outras, tocando-se por vezes nos bordos ou, no limite, sobrepondo-se parcialmente, as diversas comunidades cristãs não têm sido capazes de percorrer decididamente o caminho da unidade, esquecendo-se que Jesus Cristo veio justamente para unir e reconciliar. Ora, diz o autor, “todas as Igrejas cristãs têm em comum o seu centro que é Cristo”. Por isso deveriam aprender a ver-se de outro modo, como círculos concêntricos com um centro comum que não pode ser dividido. Deste modo, na medida em que cada uma das Igrejas for capaz de ousar aproximar-se desse centro, não pode deixar de, simultaneamente, se aproximar das outras. Como olhamos hoje para esta realidade? Será a partir de um olhar novo? Se nos considerarmos rivais, certamente nos olharemos com distância. Mas porque Cristo é o único centro, aquilo que os outros cristãos vivem em seu nome já não pode ser considerado simplesmente como exterior e alheio. Por causa de Cristo, as diversas denominações cristãs nunca estão verdadeiramente umas ao lado das outras, pois o mais precioso que têm atravessa-as a todas.
Vivemos, como diz o Irmão Émile, um período da história em que não é raro notar um interesse pela vida espiritual, mas em que a Igreja provoca receios a muitos dos nossos contemporâneos. Neste contexto, o pensamento de Yves Congar pode ser uma ajuda preciosa para ajudar as pessoas a entenderem melhor a realidade da Igreja. Com efeito, o teólogo dominicano estudou durante dezenas de anos temas relacionados com a eclesiologia, a reforma, o ecumenismo, os ministérios, o laicado, tornando-se assim um profundo conhecedor dessas realidades. Quando foi chamado a dar o seu contributo no Concílio Vaticano II, foi grande o impacto que a sua reflexão teve, a ponto de podermos descobrir em muitos dos textos conciliares o fio do seu pensamento. A partir do estudo de três temas – tradição, reforma, catolicidade –, o Ir. Émile mostra como a eclesiologia do padre Y. Congar é uma das mais aptas a reflectir sobre a Igreja como realidade que, não sendo um sistema fechado sobre si mesmo, é capaz de acolher, em cada momento, a história, a novidade, a singularidade, ou seja, o imprevisível do Espírito; podendo, deste modo, ser hoje, como o foi no decorrer dos trabalhos do Concílio, uma preciosa ajuda para entender a realidade, identidade e missão da Igreja.
O interessante artigo de Mafalda Folque Do Átrio aos Gentios. Uma Igreja tão católica quanto una, propõe-nos uma viagem através do diálogo fé-cultura para o tempo presente, que permite enquadrar a recente realização do Átrio dos Gentios em Guimarães e em Braga (16-17 de Novembro passados), com a presença do Cardeal Ravasi.
Contamos, no âmbito desta reflexão, com o claro contributo de Guido Dotti, da Comunidade de Bose, no norte de Itália, sobre a sua luminosa experiência ecuménica que permite falar da catolicidade não com discursos “acerca de”, mas com o testemunho de uma vida quotidiana.
Numa altura em que muito se fala no Estado Social no que diz respeito à situação presente, mas também, e sobretudo, no que diz respeito às decisões a tomar em relação ao futuro, a Communio partilha com os seus leitores, na secção Perspectivas, a reflexão de Guilherme d’Oliveira Martins sobre os trabalhos desenvolvidos durante a Semana Social de 2012, cujo tema foi o Estado Social e a sociedade solidária. Nesse contexto, afirma que não basta falar da crise ou insistir nas dificuldades indiscutíveis que atravessamos, mas que é indispensável ligar a reflexão à acção; e que para além dos princípios é também urgente e necessário nunca deixar de ir ao encontro das pessoas com dificuldades e carências. Por isso “o Estado Social não pode ser centralizado, distante, burocratizado e incontrolável. Não pode ser produtor de bens e serviços nem confundir-se com o mercado, tem de mobilizar e representar os cidadãos, tem de salvaguardar a subsidiaridade.” Não basta falar de Estado Social, é antes indispensável ligá-lo a uma sociedade solidária, capaz de criar redes de proximidade, atentas aos mais desprotegidos e aos que mais precisam.
Para comemorar os 25 anos do primeiro encontro pela paz, teve lugar, em Assis, a 25 de Outubro de 2011, uma jornada inter-religiosa, convocada pelo papa Bento XVI. Nessa ocasião Julia Kristeva avançou com dez princípios para repensar o humanismo. Trazemos hoje aos nossos leitores esse texto, cientes da importância que a reflexão nele desenvolvida pode ter perante as ameaças e crises a que estamos a assistir.
Na recensão que apresenta da obra de Joseph Ratzinger/Bento XVI sobre Jesus de Nazaré – A infância de Jesus, Henrique de Noronha Galvão destaca, na metodologia proposta por Bento XVI para uma correcta exegese dos textos bíblicos, a importância de não se cair em exageros redutores quer de carácter racionalista quer de ordem gnóstica, conferindo à crítica histórica o lugar que lhe deve ser atribuído neste processo. Antigo e Novo Testamento fazem parte de um único dinamismo: se é certo que se parte dos textos veterotestamentários para se entender o Novo Testamento, é também verdade que só em Jesus Cristo as profecias do Antigo Testamento adquirem o seu verdadeiro significado.
Com a inserção neste número do texto Padre António Vieira – Jesuíta e Profeta quisemos prestar homenagem à memória de Guy Bedouelle, o.p. († 2012), que fez parte da Communio francesa desde o início e de quem publicámos vários artigos. Tendo o cinema como um dos seus grandes interesses, considerava o realizador Manoel de Oliveira “o príncipe do cinema português”. É a propósito do filme deste realizador, Palavra e Utopia (2000), que G. Bedouelle evoca neste artigo a figura do Padre António Vieira, enaltecendo a forma como no filme a imagem é posta ao serviço de uma palavra que “parece nunca se esgotar”, no propósito de atingir na unidade o tempo e o espaço.

 
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