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Titulo do Artigo
Autor
Ano XXIX • 2012-09-30 • nº 3 •
Nos 50 anos do Concílio Vaticano II
 
palavra-chave
 
   

artigos
Pensar a tradição hoje • pág 263
Kasper, Walter
Diálogo e deliberação durante o Vaticano II • pág 281
Gaillardetz, Richard
Estruturas de diálogo na Igreja e communio. Teologia do Vaticano II • pág 287
Pottmeyer, Hermann J.
A leitura crente dos sinais dos tempos. O "vivido" como matéria do anúncio cristão • pág 297
Terra, Domingos
A recepção do Concílio Vaticano II nos dinamismos de evangelização • pág 307
Nunes, José
Um Concílio na era do pluralismo. A questão da liberdade religiosa • pág 319
Chelo, Hugo
Episcopado e missão pastoral. Interrogações do após-Concílio • pág 331
Marcelino, António Baltasar
O testemunho cristão no espaço público. Revisitar a Constituição Pastoral Gaudium et spes • pág 341
Silva, Manuela
O legado do Concílio Vaticano II • pág 347
Eleutério, João Marques
Continuar o Concílio Vaticano II • pág 353
Catarino, Acácio
O espírito do Concílio • pág 359
Caiado, Joana
Um Concílio presente na vida da Igreja • pág 365
Rego, António
As religiões no ensino da História • pág 375
Pina, Fátima


apresentação

ALFREDO TEIXEIRA – JOSÉ PATRÍCIO


O anúncio de um concílio, nas palavras proferidas por João XXIII no dia 25 de janeiro de 1959, permanece como acontecimento inscrito no âmago da memória do século XX. Entre a sessão inaugural, a 11 de outubro de 1962, e o seu encerramento, a 8 de dezembro de 1965, descobre-se uma Igreja em estado de gestação. Cinquenta anos depois, encontramos, na geografia de algumas sensibilidades, um olhar de distanciamento ou deceção em relação ao evento conciliar: uns desvalorizam-no em nome da continuidade de um edifício doutrinal que lhe é anterior; outros apresentam-se dececionados por acharem que o processo de aggiornamento teórico não encontrou as formas de tradução prática.
No “Discurso aos cardeais, arcebispos e prelados na apresentação dos votos de Natal, de 22 de dezembro de 2005”, o papa Bento XVI formulou o problema de uma forma que se tornou paradigmática na discussão posterior. Na sua comunicação, o papa sinaliza a existência de um confronto de hermenêuticas: a que ele descreve como hermenêutica da descontinuidade e da rutura e a que apresenta como hermenêutica da reforma, no sentido de renovação na continuidade. Num quadro filosófico em que continuidade e descontinuidade são incomensuráveis, esta interpretação tem sido usada, em sentidos não coincidentes, por diversas sensibilidades na eclesiosfera católica. Um dos interlocutores mais avisados deste debate foi o cardeal Walter Kasper, que neste número da revista da COMMUNIO nos propõe um recentramento do debate na noção teológica de tradição. Como observa Walter Kasper, o aprofundamento de uma conceção de tradição, enquanto processo de transmissão, refundou a legitimidade de uma leitura histórica da Bíblia e dos dogmas, opção que foi vista por alguns como cedência ao modernismo antes combatido. De forma arguta, o cardeal Walter Kasper lembra que, se é necessário excluir a tese da rutura, se mantém, no entanto, a questão de saber o que se entende por continuidade: “esta continuidade não pode reduzir-se à repetição imobilizada da tradição precedente”.
De facto, já no seu Diário do Concílio (10-09-65), Henri de Lubac se interrogava, um pouco incrédulo, sobre uma impressão de desordem, provocada pelo concílio, veiculada por alguns. Parece claro que essa impressão de rutura diz respeito sobretudo a um estilo novo à forma da Igreja se apresentar e comunicar, concretizado no abandono de posições defensivas e no afastamento das linguagens normativas e prescritivas. John O’Malley, que estudou a retórica conciliar, observou que os textos do concílio se aproximam estilisticamente de alguns dos modelos da teologia patrística, abandonando a linguagem jurídica dos concílios anteriores e a conceitualidade neoescolástica. De alguma forma, o leitor mais desprevenido identifica este “estilo do Vaticano II”. Um novo “estilo” também na forma de representar as relações com o mundo, que Paulo VI descreve com as categorias de “amizade” e “diálogo”. Esta abertura à reciprocidade não exclui a consciência de missão. José Nunes, no seu contributo para este número da revista, mostra como os dinamismos de evangelização se tornaram um importante lugar de receção deste concílio.
Como mostra João Eleutério, na sua breve crónica sobre alguma da bibliografia mais recente acerca do Vaticano II, o olhar teológico tendeu a ultrapassar a leitura dos documentos conciliares como uma espécie de totalidade fechada ou biblioteca de documentos. Esse universo bibliográfico mostra a importância de levar em conta o Concílio como “lugar” onde se descobre a Igreja a construir-se – a conciliaridade da própria Igreja. Neste sentido, não é só a enunciação que interessa, importa o lugar de enunciação. Um dos mais importantes peritos do Concílio Vaticano II, o teólogo dominicano Yves Congar, lamentava o facto de prevalecer a tendência para tratar os concílios como acontecimentos jurídicos e políticos. No quadro desta reflexão, Congar chama a atenção para a própria figura do corpo episcopal reunido, em “assembleia”, sublinhando a necessidade da deliberação e do discernimento.
No itinerário que se propõe neste número da revista, Gaillardetz mostra como o “espírito do concílio” se descobre na importância dada ao debate e à cultura da deliberação, chamando a atenção para o facto de que esse debate ultrapassou a estrutura formal da assembleia conciliar. Hermann Pottmeyer refere que este espírito de diálogo não se esgota na metodologia do próprio concílio, já que a teologia de comunhão, presente nos textos conciliares, se articula com importantes indicações relativas à revitalização da prática sinodal, e com recomendações relativas à criação de órgãos destinados à partilha recíproca. Pode este ser o enquadramento de leitura dessa redescoberta da colegialidade episcopal. Neste número da COMMUNIO, D. António Marcelino afirma que nos textos conciliares ficou clara uma teologia do bispo e da sua missão eclesial, e exorta a “tomar consciência das contradições e desregramentos em que se foi caindo, voltando a tempos idos que o Concílio quis e quer purificar, fazendo-os esquecer”.
Como sublinhou Marie-Dominique Chenu, este foi o concílio em que a palavra história adquiriu pleno estatuto de eclesialidade, sintoma de uma nova visão da autonomia do mundo e de uma abertura aos seus lugares de interpelação. Domingos Terra, no seu artigo, chama a atenção para a necessidade de uma interpretação dos acontecimentos relevantes do devir histórico à luz da fé cristã, tomando naturalmente como matriz orientadora o acontecimento de Jesus Cristo, “o sinal dos tempos por excelência”. Refere--se depois à dimensão da historicidade na própria conceção da verdade revelada, apresentando a prática cristã como “lugar de produção do sentido da própria mensagem cristã”.
Revisitando a Constituição Gaudium et spes, Manuela Silva menciona os princípios básicos que devem inspirar a vida coletiva, a economia, a cultura e em geral a organização social, assim como o agir humano e cristão. Trata- -se da “imanência mútua” concebida pela nova eclesiologia conciliar, pois que a presença da Igreja no mundo significa também assumir a interioridade do mundo na Igreja. Por sua vez, Acácio Catarino realça algumas tendências preocupantes da ação laical no domínio social: a resistência individualista, o pluralismo não assumido e um certo clericalismo. Enumera determinadas lacunas e insuficiências dessas infidelidades ao Concílio e recomenda algumas linhas de “atualização” conciliar no âmbito da responsabilidade laical.
Desta nova interpretação da inscrição da Igreja no mundo, decorre também um novo olhar sobre o pluralismo da demanda religiosa da humanidade. Hugo Chelo percorre os trabalhos preparatórios da Declaração Dignitatis humanae, de 1965, que foram largamente dominados por uma questão: a do conceito de liberdade religiosa. O autor procura mostrar como a noção adotada, aliás desde a intuição inicial do Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos, foi de índole técnico-jurídica, deste modo distinguindo, embora não separando, as ordens jurídico-política e teológico-moral; reconheceu-se pois essa liberdade como imunidade da coerção, ou seja, direito (público, civil) de não agir contra a consciência, nem ser impedido de agir segundo ela.
Na secção Depoimentos pronunciam-se duas gerações, a pré-conciliar e a pós-conciliar. António Rego lembra o tipo de vivência eclesial antes do Vaticano II no meio em que cresceu, assim como as sementes de renovação que já despontavam e o entusiasmo e esperança do tempo conciliar, coincidente com o da sua formação teológica. E conclui que a Igreja “sabe hoje estar com vigor e firmeza na sua fé e ao mesmo tempo com a docilidade de quem quer ainda aprender e se disponibiliza a dialogar com todos. Mantém o lugar charneira de defensora da Paz e disponibilidade para as questões mais complexas que a humanidade vive”. Da segunda das mencionadas gerações, Joana Caiado depõe a partir das imagens do documentário francês “Vaticano II: imagens e testemunhos” e, evidentemente, da sua experiência pessoal, referindo vários aspetos, desde a liturgia até ao ecumenismo, ao relevo dado às igrejas locais, ao laicado, etc. – manifesta a convicção de que o espírito do Concílio é o Espírito Santo.
Este número da revista COMMUNIO termina, na secção Perspetivas, com um artigo sobre a religião no ensino da História. Com uma longa e rica experiência no ensino da História, Fátima Pina apresenta-nos algumas das mais importantes conclusões do estudo que fez dos programas de História, perseguindo o modo como a religião ou as religiões aí são apresentadas.

 
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