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Autor
Ano XXIX • 2012-06-30 • nº 2 •
A última vinda de Cristo
 
palavra-chave
 
   

artigos
A espera da vinda do Senhor em S. Paulo • pág 135
Maggioni, Bruno
A vida que vence a morte • pág 145
Carvalho, Maria Manuela da Conceição Dias de
Quando virá Jesus Cristo de novo? Considerações filosóficas sobre o momento da parusia • pág 155
Henrici, Peter
O mistério da descida aos infernos. Reflexão teológica • pág 165
Balthasar, Hans Urs von
Escatologia no presente. Aproximações a expectativas não cristãs • pág 179
Bürkle, Horst
A Ressurreição de Stanley Spencer • pág 193
Correia, Carlos João
A Última Batalha. Uma leitura de C.S. Lewis • pág 203
Falcão, Maria Luísa
O Sétimo Selo de Ingmar Bergman. Para acabar com o fim do tempo • pág 211
Andrade, José Navarro de
O Apocalipse. Uma outra maneira de viver a missa • pág 223
Lobão, Maria Mathias Cortez de
Jesus Cristo, princípio esperança da espiritualidade carmelita • pág 229
Bravo, Pedro
A expectativa da última vinda de Cristo • pág 235
Carvalho, Luís Alberto
Multiculturalidade, democracia e direitos humanos II • pág 241
André, João Maria


apresentação

H. Noronha Galvão – Maria Luísa Falcão


A contemplação dos Mistérios da vida de Jesus coloca-nos perante a condição incarnada do Filho de Deus que, sobretudo nos momentos fulcrais da sua história concreta, nos revela a presença e acção salvadora de Deus. Com a reflexão sobre a “Última vinda de Cristo” termina uma longa série de números da Communio dedicada a esta temática geral, iniciada em 2003 com o número sobre “O Mistério da Incarnação”. Ao contrário, porém, deste e dos mistérios que se lhe seguiram (Vida oculta de Jesus, Baptismo, Bodas de Caná, Anúncio do Reino, Transfiguração, Entrada de Jesus em Jerusalém, Mistério Pascal, Ascensão e Pentecostes), a Última vinda de Cristo, não sendo um acontecimento que se tenha já dado, constitui antes objecto de uma expectativa que aguarda o cumprimento da promessa feita por ocasião da Ascensão do Senhor: “Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus que vos foi arrebatado para o Céu virá da mesma maneira, como agora o vistes partir para o Céu.” (Act 1,11)
Testemunha maior dessa expectativa foi S. Paulo, que apenas conheceu Jesus na sua glória de ressuscitado, quando este lhe aparece na estrada de Damasco. No escrito mais antigo do Novo Testamento, a primeira Carta aos Tessalonicenses, o apóstolo “como que condensa a essência da identidade cristã… em volta da espera do regresso do Senhor”, como explica Bruno Maggioni no seu artigo, notando também, para caracterizar a mensagem de S. Paulo: “Ninguém conhece o tempo e a hora da vinda do Senhor; porém sabe--se que a sua vinda será imprevista. Se isso é verdade, é então preciso viver ‘despertos e vigilantes’.” Trata-se, no fundo, da esperança cristã numa “vida que vence a morte” como explica M. Manuela Carvalho, o que diz respeito não só à vida individual de cada um mas a toda a história da humanidade. O “definitivo” (eskhaton) da salvação de Deus, realizado já na cruz e ressurreição de Cristo, constitui o dinamismo constante do peregrinar da Igreja até ao encontro final com o Senhor.
E que tem a dizer a reflexão filosófica sobre o tempo acerca desta expectativa? Uma pergunta a que procura responder o artigo de Peter Henrici, Quando virá Jesus Cristo de novo? Considerações filosóficas sobre o momento da parusia. Como é próprio da natureza de um acontecimento futuro, o seu quando e como permanecem desconhecidos. Há, no entanto, um facto cuja ocorrência é absolutamente certa: a morte de cada um. A esta certeza, a fé acrescenta uma segunda, a da última vinda de Cristo para toda a humanidade. Polarizado por esta espera do Senhor, o tempo da história ganha um dinamismo próprio, que a fé cristã lhe imprime.
De Hans Urs von Balthasar é publicado um estudo de importância particular, pois nele o autor expõe o tema porventura mais difícil e controverso do seu pensamento teológico. A afirmação que fazemos no Credo de que Jesus Cristo, após a sua morte, “desceu aos infernos” é interpretada num sentido não usual em toda a Tradição anterior. Para esta, é como “a Ressurreição e a Vida” – que Jesus sempre é – que ele desce à “mansão dos mortos” para lhes levar o dom da nova vida que alcançou pela sua entrega “por muitos” na cruz. É próprio, porém, da Tradição haver em cada novo tempo eclesial uma nova sensibilidade que, sem acrescentar o quer que seja à revelação, lhe descubra novos aspectos que assim são explicitados pela primeira vez. Ora uma das principais originalidades, senão mesmo a principal, da teologia de Balthasar, foi a utilização da dramaturgia com uma função heurística e hermenêutica para reflectir a fé cristã. (Ver sobretudo a Teodramática, a parte central da sua obra de fundo, a sua Trilogia.) E é a essa luz que, a propósito da descida de Jesus aos infernos, constitutiva do mistério de Sábado Santo, e da sua interpretação tradicional que no fundo antecipa já o mistério pascal da ressurreição, ele lança a questão: “nesta sobreposição do Sábado Santo pela Páscoa, não se estará a saltar sobre uma fase essencial do drama da salvação?” Haverá pois algo entre a morte e a ressurreição de Cristo que é essencial ao mistério cristão e que a fé sempre enunciou com a afirmação da “descida aos infernos”. Como pensar essa “fase essencial do drama da salvação” a partir dos textos do Novo Testamento? Questão central é saber se Jesus desceu “apenas” ao inferno no sentido da “mansão dos mortos” (hades), ou, mais radicalmente, ao inferno de fogo (geena), perdição em que incorrem aqueles que não aceitam a salvação de Jesus Cristo. Ainda que Balthasar não ouse pronunciar-se definitivamente num sentido ou noutro, o seu pensamento tende para esta segunda hipótese. Ele entende, com efeito, o Amor divino como uma capacidade de se esvaziar numa total impotência para se fazer dom total (cf. Fl 2,7), impotência com que não podem competir em radicalidade nem sequer aqueles que se afastam mortalmente da fonte da vida pelo seu pecado. Uma impotência de amor que “suporta abraçando” (unterfasst) a impotência do pecado votado à geena. A isto chama Balthasar estar a cruz implantada no limite extremo do inferno. Aí terá Jesus descido para levar a salvação do amor divino aos pecadores, não apenas como mortos mas também, precisamente, como pecadores. Tomando a questão programática de Immanuel Kant was dürfen wir hoffen, “o que nos é lícito esperar”, Balthasar é levado por essa fé no Amor extremo de Deus a uma esperança também extrema que inclua na salvação de Deus todos os pecadores. Mas aí, apenas a esperança é lícita não o conhecimento, pois ninguém se pode imiscuir no julgamento final de Deus, ninguém lhe pode “ver as cartas” com que joga o seu juízo. Já para Kant a questão do “que nos é lícito esperar” difere da questão do “que podemos saber” (was können wir wissen).
Em Escatologia no Presente, Horst Bürkle, lembrando que a condição de mortalidade leva os homens a perguntar o que os espera depois da morte, apresenta várias abordagens desta interrogação. Explicita importantes tradições budistas e alguns dos seus principais representantes, sublinhando a importância da segunda vinda de Cristo e da concepção de história a que ela conduz para o diálogo inter-religioso.
Uma incursão nas artes plásticas pela mão de Carlos João Correia fala- -nos do quadro Ressurreição, Cookham de Sir Stanley Spencer, pintor modernista inglês da segunda metade do século XX. Segundo a presente análise, esta obra é a expressão do amor entre Spencer e Hilda Carline, mas porque se torna possível referenciá-la a outros nomes e outras pessoas, a pintura alarga-se a uma certa ideia de ressurreição, vista como percepção do sentido da vida. Ao abordar a obra ficcional de C.S.Lewis, Maria Luísa Falcão analisa como uma “história alternativa”, A Última Batalha, pode surpreender o leitor e levá-lo a considerar com renovado fascínio a realidade do fim do mundo e da segunda vinda de Cristo. Revendo o filme O sétimo Selo, José Navarro de Andrade sugere que Ingmar Bergman, ao enunciar o conflito entre Fé e Razão, tendo como pano de fundo dramático uma Idade Média imaginada, propõe uma ideia de Fim dos Tempos não como um acontecimento histórico, mas como um desígnio ético. E que em cinema esses estados de alma são revelados pela luz.
Maria Cortez de Lobão faz a recensão da obra A Festa do Cordeiro. Missa: o Céu na Terra, mostrando como através de uma obra bem fundamentada, mas ao mesmo tempo acessível e até empolgante, Scott Hahn procura levar o leitor a consciencializar a importância fundamental da Missa na sua vida de crente, socorrendo-se para tal de um paralelismo entre a Eucaristia e o livro do Apocalipse.
Como Testemunhos, podemos ler neste número da Communio os textos de dois presbíteros, sendo o primeiro, Frei Pedro Bravo, religioso da Ordem do Carmo. A expectativa da Última vinda de Cristo é apresentada como “o princípio esperança” central na espiritualidade carmelita, sendo que esta mais não é do que a vivência do que é próprio de toda a espiritualidade cristã. O segundo texto é de um padre diocesano, pároco e director espiritual do Seminário dos Olivais, o Con. Luís Alberto Carvalho. Faz-nos ver como toda a vida do cristão deve ser vivida a partir desse fim que é a Última vinda de Cristo, “na medida em que faz do viver com Cristo, por Cristo e para Cristo o centro unificador da sua vida”.
Na secção Perspectivas, João Maria André, na segunda parte do seu ensaio Multiculturalidade, Democracia e Direitos Humanos (a primeira parte foi publicada no número anterior da Communio), lembra que as tensões entre universalismo e particularismo em sociedades democráticas só se resolvem em termos de complementaridade, e aponta quatro modelos possíveis: assimilação, integração, multiculturalismo e interculturalidade. Sublinha também que, com a definição de direitos culturais e poliétnicos, a multiculturalidade lança um desafio à tradição democrática ocidental, sobretudo na aceitação e protecção dos direitos individuais, mas sobretudo colectivos, das diferentes culturas e etnias, minoritárias ou não, tendo sempre como esteio a prática da tolerância a nível privado e público.

 
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