Pgina Inicial  
revistas artigos autores noticias  
Página Inicial
Direcção e Redacção
Conselho de Redacção
Estatuto Editorial
Condições de assinatura para 2014 e 2015
Edições noutros países
Livrarias onde Adquirir
Publicações Communio
Nota Histórica
Ligações
Contactos
Pesquisa
Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XXVIII • 2011-12-31 • nº 4 •
Igreja apostólica
 
palavra-chave
 
   

artigos
A Igreja apostólica como fundamento. Mito de origem? • pág 391
Lamelas, Isidro Pereira
Jesus, fundamento da apostolicidade • pág 407
Scalabrini, Patrizio Rota
Comunhão hierárquica e corresponsabilidade na Igreja • pág 417
Nunes, José Silva
Lex orandi, lex credendi. Notas sobre o Ritual "Início do ministério petrino do Bispo de Roma" (2005) • pág 427
Cabecinhas, Carlos
A dimensão apostólica da Igreja no diálogo ecuménico • pág 439
Koch, Card. Kurt
O papel dos Bispos de Angola na mediação da guerra civil • pág 455
Neves, Tony
Ser bispo na Guiné-Bissau • pág 465
Zilli, D. Pedro Carlos
Ser bispo na Amazônia • pág 469
Neto, D. Mário Clemente
O vazio verde. Evocação de José Augusto Mourão • pág 479
Mendonça, José Tolentino
Embolismo. Poema • pág 480
Mourão, José Augusto
O manto da ironia. No 5º centenário do Elogio da Loucura, de Erasmo • pág 483
Bedouelle, Guy
Carta ao Irmão Giovanni da Samminiato • pág 489
Salutati, Coluccio
Para uma sociologia do catolicismo • pág 493
Lopes, Policarpo


apresentação

Alfredo Teixeira – Juan Ambrosio – Rui Madeira


O presente número da Revista Communio termina o ano editorial de 2011 propondo um itinerário de reflexão sobre uma das notae ecclesiae (atributos da Igreja), a apostolicidade. Encontramos o rasto das chamadas “notas da Igreja”, sumarizadas no credo niceno-constantinopolitano (“creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”), nas primeiras gerações de teólogos cristãos, mas essa autorrepresentação eclesial aprofundou-se no período crítico de emergência das heresias e cismas na Igreja antiga. Aquelas quatro propriedades teologais exprimiam o reconhecimento de que a “grande Igreja” se encontrava na continuidade da memória pascal. Isidro Lamelas mostra como a ideia de “tradição apostólica” não pode ser reduzida à tipologia de um mito de origem. Mesmo que essa aproximação possa ser feita, quanto à sua força instituinte ou ao poder simbólico da narratividade que se exprime tanto na figura teológica da “tradição apostólica” como nos mitos de origem das culturas, há uma dimensão de historicidade, conjugada nas diferentes formas de compreender a tradição na experiência cristã, que não cabe na figuração prototípica e no argumento estereotipado da narrativa mítica – as mitologias não são acta, como a noção de traditio exige.
No seu âmago, a confissão da Igreja como “apostólica” enuncia a presença nela do Espírito de Deus, garantia da sua autenticidade como Igreja de Jesus Cristo. Neste sentido, a qualidade de “apostólica” exprime a necessária tensão entre fidelidade e criatividade, entre convocação e missão, entre identidade e relevância, já que a comunidade eclesial é chamada a propor o evangelho de Jesus, aqui e agora, em toda a terra habitada. Na literatura neotestamentária, como mostra Patrizio Rota Scalabrini, a condição apostólica exprime-se na urgência do anúncio e na condição de enviado – por isso, na Carta aos Hebreus, o próprio Jesus é representado como o “apóstolo”, o enviado que envia.
O diálogo entre fidelidade e abertura exprime-se em diferentes dinamismos eclesiais. E também aí nos deparamos com o desafio articular a constituição hierárquica da Igreja com a sua expressão sinodal. Assim, por um lado, a Igreja, como comunidade de batizados em Cristo, na sua unidade e diversidade, é portadora da missão e da tradição apostólicas – ninguém está dispensado das exigências do seguimento de Jesus. Por outro, as comunidades cristãs conhecem, desde cedo, a necessidade de ministérios que sirvam a comunhão na mesma fé. Na perspetiva de leitura do concílio Vaticano II, proposta pelo teólogo José Nunes, estas tensões encontram a sua realização fecunda no exercício de uma “comum responsabilidade”, exigida pela communio que exprime a identidade apostólica da comunidade eclesial.
Neste itinerário, assume particular relevância o ministério petrino. Propomos aos nossos leitores uma abordagem menos comum desta realidade, a partir da própria praxis litúrgica. No artigo Notas sobre o ritual “Início do ministério petrino do Bispo de Roma” (2005), partindo da tradicional sentença Lex orandi, lex credendi (“a norma da oração é a norma da fé”), Carlos Cabecinhas – especialista em questões de teologia litúrgica e atual reitor do santuário de Fátima –, apresenta a sintaxe própria das sequências rituais bem como os critérios seguidos na reforma e elaboração desse ritual. O autor descobre quatro grandes dinamismos da reforma deste ritual: a receção da eclesiologia do Concílio Vaticano II; a fidelidade criativa à grande Tradição da Igreja no que se refere ao ministério do papa; a preocupação ecuménica de não afrontamento das diferentes perspetivas sobre o alcance deste ministério na Igreja; a definição do múnus do papa como serviço, como ministério, em detrimento das figuras do poder.
O cardeal Kurt Koch – atual Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos –, no artigo intitulado A dimensão apostólica da Igreja no diálogo ecuménico, tem em conta que a Igreja não pode ser reduzida a uma essência teológica. Enquanto realidade histórica ela integra a experiência da diversidade, que tem de ser refletida no quadro teológico das “notas da Igreja”. Assim, a partir das suas competências teológicas e da sua experiência eclesial, o autor reflete sobre a “apostolicidade” como questão ecuménica, tendo em conta o “pluriverso de Igrejas cristãs e comunidades eclesiais, cada vez mais difícil de abranger com a vista”, segundo a sua própria expressão.
Tony Neves recorda-nos que em 2012 se cumprem dez anos de paz em Angola, após 40 anos de guerra continuada (1961-2002). Agora, no momento em que se está em plena era de reconstrução dos corações e das infraestruturas, o tempo é de olhar para essa realidade tentando perceber melhor o que se passou e, dessa forma, criar as condições para que se fechem as feridas. No artigo O papel dos Bispos de Angola na mediação da guerra civil, propõe-se não só evocar o importante papel da Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé (CEAST) durante esse tempo de conflito, como também incentivar a um comprometimento claro em favor das vidas daqueles que ainda sofrem, na dor e na exclusão, as consequências da guerra. Neste artigo, encontramos o eco de uma investigação mais ampla, realizada no âmbito do seu doutoramento em Ciência Política, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Para além dos cenários políticos em causa, a sua reflexão mostra como o ministério episcopal pode ser, a partir dos dons que o qualificam especificamente, um instrumento de reconciliação, dando, de forma atuante, testemunho do mandamento novo que funda o discipulado de Jesus. Esta função mediadora exprime, naquelas circunstâncias, a criatividade social própria do exercício deste ministério na Igreja local.
Encontramos a mesma espessura histórica nos dois depoimentos que recolhemos para este dossier. Fazendo referência à celebração dos 10 anos da criação da Diocese de Bafatá, D. Pedro Carlos Zilli, seu primeiro bispo, partilha a sua experiência sobre o que é ser bispo na Guiné-Bissau. Nesse contexto, relembra o itinerário vocacional que o levou a esta “pequena porção do chão Africano”, onde já se encontra há mais de 26 anos. A evangelização, a educação e saúde, a atenção aos mais pobres estão entre as prioridades do serviço que a Igreja presta a toda a população – nela, os cristãos constituem uma pequena percentagem de cerca de 15%. A partir do lema “vim para servir”, escolhido para o exercício do seu ministério episcopal, D. Mário Clemente Neto partilha com os leitores da Communio a leitura que faz da sua missão de serviço na Igreja da Prelazia de Tefé. Com o objetivo firme de ajudar os cristãos “a caminhar com as suas próprias pernas”, sinaliza aquelas atitudes pastorais necessárias à ultrapassagem de muitas dependências. Segundo o seu testemunho, a sua missão é vigiar para que aquela porção do povo de Deus se possa tornar sujeito da sua própria história.
No dia 5 de Maio de 2011, depois de um corpo a corpo com a doença, faleceu José Augusto Mourão, presbítero da Ordem dos Pregadores, poeta, tradutor, professor e investigador nos domínios da Semiótica e dos estudos do Hipertexto e da Cibercultura, na Universidade Nova de Lisboa. Foi Presidente do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens (UNL) e Director do Instituto de S. Tomás de Aquino. A Communio não pode deixar de se associar ao coro dos que celebram a sua memória. José Tolentino Mendonça, seu amigo e seu leitor, deixa-nos um elogio fraterno, recordando a obra seminal e profética de José Augusto Mourão, espírito que marcou um tempo, mesmo não podendo ser descrito como um criador confortável, “nem para o campo católico nem para os parâmetros da cultura dominante”. A sua poesia e as suas homilias – literatura singular –, num discurso “inusual e exigente”, serão por certo recordadas no reconhecimento da sua força e originalidade. Associamos ao testemunho de José Tolentino Mendonça as próprias palavras do poeta falecido, recorrendo ao arquivo das dádivas que, noutros momentos, José Augusto Mourão entregou à Communio. (1)
A secção “Perspectivas” é enriquecida ainda com uma evocação do celebrado 5º centenário do Elogio da Loucura de Erasmo. De forma clara, Guy Bedouelle conduz-nos ao texto que Erasmo escreveu numa semana, em 1510, em casa de Thomas More, Encomium mori (Elogio da loucura), título que apela ao jogo de palavras que moria (loucura) facilita, evocando o nome do seu amigo, a man for all seasons – como a ele se refere na dedicatória. Acrescenta-se a esta evocação a tradução portuguesa de um documento do humanismo italiano, uma carta de Coluccio Salutati (1331-1406) – o humanista chegou a chanceler de Florença e foi figura de referência do Renascimento florentino. Havia já tempo que Salutati mantinha uma troca epistolar com o beneditino camaldulense Giovanni da San Miniato, o qual censurava a Salutati a sua defesa e difusão dos estudos clássicos, pois lhe pareciam perigosos para a fé. Esta polémica acerca dos studia humanitatis atravessará toda a cultura humanista e renascentista. Fechamos esta secção com um texto póstumo de Policarpo Lopes. O sociólogo deixou-nos um olhar lúcido sobre a recomposição do religioso nas sociedades contemporâneas.

(1) Vd. os seguintes fascículos da Communio: 1/2001; 4/2003; 3/2008.
 
  KEOPS multimedia - 2006