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Autor
Ano XVIII • 2011-06-30 • nº 2 •
Ascensão e Pentecostes
 
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artigos
Partir para regressar. O Mistério da Páscoa no primeiro discurso de despedida no evangelho de S. João • pág 135
Van den Heede, Philippe
Ascensão e Pentecostes. Etapas significativas na história da salvação • pág 147
Barbi, Augusto
A Igreja nasce da pregação do Reino • pág 167
Chéno, Rémi
Aprender a viver as virtudes teologais com a Páscoa, a Ascensão e o Pentecostes • pág 179
Batut, Jean-Pierre
Do corpo e do Espírito. A poética somática da salvação • pág 191
Martins, António Manuel Alves
Ascensão e Pentecostes nos ícones das Igrejas Orientais do sec. VI ao XI-XII • pág 205
Crippa, Maria Antonietta
Perda e ganho. A Oratória da Ascensão de Johann Sebastian Bach • pág 215
Gassmann, Michael
Por uma escuta plural. Sobre a minha Missa de Pentecostes • pág 221
Madureira, João
Quinta-feira da espiga • pág 229
Lima, José da Silva
O Renovamento carismático em Portugal • pág 235
Adragão, José Victor
Representação da Anunciação nos tectos da Igreja da Encarnação em Lisboa (Chiado) • pág 243
Oliveira, António Pedro Boto de


apresentação


H. NORONHA GALVÃO – MARIA LUÍSA FALCÃO

No centro de todos os Mistérios da Vida de Jesus encontra-se o Mistério Pascal, realização do desígnio salvífico do Pai mediante a missão do Messias, seu Filho que assumiu a condição de Servo, ao dar a vida como prova suprema do seu amor divino e humano que nos redimiu. Pela ressurreição dá-se o retorno de Jesus ao Pai, cujo momento decisivo é assinalado pela Ascensão. A sua descrição devemo-la a S. Lucas, quer no seu evangelho quer nos Actos dos Apóstolos. Um acontecimento em que fica também patente que a ausência de Jesus diz apenas respeito à sua presença visível na história dos homens, quer na sua condição humana antes da morte e ressurreição, quer no tempo em que, já na condição de ressuscitado, se tornava acessível aos discípulos através de manifestações sensíveis. Este foi um período de transição em que Jesus preparava os discípulos para o tempo da Igreja em que Ele, como Senhor glorioso, continuaria presente através do seu Espírito que o Pai havia de enviar em toda a plenitude no dia de Pentecostes. Deste modo, a Ascensão só pode entender-se, em seu pleno significado, pela sua íntima ligação com o Pentecostes, ao cumprir-se a promessa de Jesus, que lemos no evangelho de S. João: “Não vos deixarei órfãos, Eu voltarei a vós!” (14,18) “… é melhor para vós que Eu vá, pois, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas, se Eu for, Eu vo-lo enviarei.” (14,26) Esta a promessa que, como nos diz S. Lucas, o Senhor fez também imediatamente antes da Ascensão (Act 1,8). A referência, igualmente importante, ao retorno de Jesus no final dos tempos (cf. Act 1,11), que encontramos também no contexto da Ascensão, será tema de um outro número da Communio a publicar no próximo ano.
A razão de ser da perspectiva de todo este fascículo, associando assim Ascensão e Pentecostes, torna-se clara no primeiro artigo que publicamos, Partir para regressar, de Philippe Van den Heede. Ao terminar o período das suas manifestações sensíveis, o Jesus glorioso dá-nos acesso a um seu conhecimento mais profundo, o da fé: “A partida de Jesus culmina… no verdadeiro conhecimento da sua identidade.” A fé permitirá mesmo aos discípulos continuarem e ampliarem a obra de Jesus: “Quem crê em mim também fará as obras que Eu realizo; e fará obras maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai.” (Jo 14,12) O artigo seguinte, de Augusto Barbi, fixa-se na perspectiva de S. Lucas, o único a datar e descrever não só a Ascensão mas também o Pentecostes. Trata-se, praticamente, de um duplo artigo pois nele se faz a análise pormenorizada de cada um destes acontecimentos, considerados como Etapas significativas da História da Salvação. Quanto à Ascensão, o Autor procura determinar quer as formas subjacentes à descrição do acontecimento (oriundas das tradições greco-romana e bíblico-judaica) quer a decisiva intervenção redaccional do evangelista. As narrativas da Ascensão, situadas na charneira da obra de S. Lucas, balizam com efeito a história da Salvação, que constitui o centro da teologia lucana, ao mesmo tempo que iluminam todos os aspectos do Mistério Pascal. Com o Pentecostes, o evangelista “marca uma nova etapa na história da Salvação e cria uma correspondência entre o tempo de Jesus (que em Jerusalém atinge o ponto mais alto com a Ascensão) e o tempo da Igreja (que em Jerusalém se inicia com o Pentecostes)… Com esta efusão inesperada e surpreendente do Espírito, Deus quis escolher para si ‘um povo que fosse consagrado ao seu nome’ [Act 15,14]. Deste modo, o Espírito, inspirando continuamente a Igreja a superar barreiras, vai-a levando a novos campos de missão.”
Como nos expõe Rémi Chéno, é a pregação do Reino de Deus que constitui o nascimento da própria Igreja e está na origem da sua missão. O Autor procura definir de modo convincente a fundação da Igreja, como processo que se inicia com Jesus na sua vida histórica e recebe de Cristo ressuscitado a sua realidade acabada, pela acção do Espírito. Jean-Pierre Batut situa-se no plano da espiritualidade, fazendo-nos ver como a fé teologal existe a partir do Mistério Pascal e da transformação operada no homem pela Palavra divina que se faz sacramento. O itinerário pascal, da Ressurreição até à Ascensão e ao Pentecostes, torna-se, para o crente, num itinerário que o conduz da fé à esperança e à caridade, tornando possível o dom de si próprio, ao serviço de Deus e dos irmãos.
António Martins opta por uma perspectiva antropológica, destrinçando toda a relacionação somática-espiritual própria do homem. Esta corresponde também à importância do corpo no regime da salvação operada por Cristo no seu Espírito. A esta luz percebe-se todo o alcance da ascensão do corpo glorioso de Cristo na sua ida para o Pai, bem como da presença continuada do seu Espírito na realidade corpórea da Igreja, nomeadamente pela Eucaristia e restantes sacramentos.
Três artigos no domínio das artes introduzem-nos no modo como a Ascensão e o Pentecostes foram interpretados quer pelos ícones orientais, quer pela música ocidental. Dos primeiros trata o estudo de M. Antonietta Crippa, salientando a vantagem de se investigar um período em que a Igreja permanecia unida (até ao cisma de 1054) e em que “cada igreja, estrutura unitária em analogia com a ordem e harmonia do cosmos, era concebida e percebida como transfiguração espiritual, na matéria modelada pela mão humana, da Igreja instituída por Cristo, … antecipação… da ligação futura entre o céu e a terra, entre o invisível e o visível trazido pela Incarnação.” No que respeita à Ascensão e ao Pentecostes, “a representação de ambos os episódios teve no Oriente uma importância excepcional, evidente nos ciclos pictóricos monumentais das igrejas, não sendo inseridos apenas, ou principalmente, na série dos factos importantes da vida de Jesus Cristo, mas sendo considerados temas fundamentais para a elaboração dos dogmas de fé.”
Entre as três oratórias de Johann Sebastian Bach, é a da Ascensão a menos conhecida, devido sem dúvida à sua menor extensão quando comparada com as oratórias do Natal e da Páscoa. Isto nada retira à sua beleza e também à profundidade e originalidade da interpretação que nos oferece da narrativa da Ascensão – quer pelo teor dos textos musicados quer pela própria mestria com que, por meios especificamente musicais, exprime o mistério celebrado, enquanto encontro da liturgia terrestre e da liturgia celeste. O próprio decorrer do acontecimento da Ascensão é dramatizado em momentos de Perda e ganho, como Michael Gassmann intitula o seu artigo, perda da presença sensível de Jesus que parte para o céu, mas ganho pela alegria da sua glória e pela esperança do seu regresso.
Por seu lado, João Madureira fala-nos de uma Missa de Pentecostes que ele compôs a convite do Pe. José Tolentino Mendonça, integrada no projecto “Diálogo Arte contemporânea e Sagrado”. Este diálogo apresenta-se ao Autor como uma relação “com dois sentidos: procuramos testemunhar o que sentimos face ao texto, ao mesmo tempo que o texto nos interpela na capacidade que temos de estabelecer um discurso estético referente a este lugar, a este tempo em que vivemos”. Daí a opção pela “integração de uma pluralidade de linguagens musicais e, naturalmente, do ordinário comum da missa, num espaço cultural mais vasto, em que testemunhos de escritores de origens várias e épocas diversas se podem abraçar – testemunhos de vários homens e tempos que são revisitados como forma de melhor entendermos o tempo que é o nosso e a humanidade que somos”.
Como depoimentos, podemos ler neste número, relativamente à Ascensão, um texto de José da Silva Lima sobre a Quinta-feira da espiga, considerando-a “na sua origem, no rito que a fez chegar até nós, na coreografia que suporta o seu significado e na possível actualidade, que faz sentir a sua miragem”. Verificamos como nesta prática popular se cruzam tradições profanas muito antigas, ligadas à celebração da primavera e da natureza, com o espírito novo que o cristianismo soube incutir em costumes antigos. “O Senhor subiu ao céu para Sua glória, e dos campos vinham, sobretudo, as espigas e as flores que O louvavam e enalteciam. Procedia-se a uma dádiva, não só porque os campos davam as primeiras, mas sobretudo porque a Ele pertenciam todos os produtos.” Hoje, numa civilização que se tornou principalmente urbana, a prática persiste sobretudo na memória dos mais velhos.
O Renovamento Carismático em Portugal é o tema desenvolvido, sob a forma de testemunho, por José Victor Adragão. Além de elucidar as origens, quer internacionais quer nacionais, dos movimentos carismáticos, define o que considera ser-lhes essencial: “Em comum, todos eles têm a crença de que os carismas, reconhecidos por Paulo como presentes na Igreja dos primeiros tempos, não se teriam extinguido com o passar dos séculos e que, desde que os fiéis se disponibilizassem a viver um ‘Pentecostes pessoal’, as graças do Espírito poderiam dar frutos sensíveis na renovação das pessoas e das comunidades cristãs.”
Na secção Perspectivas, oferecemos aos nossos leitores um estudo pormenorizado da Representação da Anunciação nos tectos da Igreja da Encarnação em Lisboa (Chiado) por António Pedro Boto de Oliveira. Como perspectiva de fundo podemos reter o que escreve: “O Céu que se abre sobre os fiéis nos tectos da Igreja da Encarnação, em que se representa a Anunciação que é um acontecimento terreno, é o levar ao extremo esta ideia de que o Céu inunda a terra em tal momento da História da Salvação. A profusão de anjos, nuvens, cores e imaterialidade não é outra coisa senão todo o Paraíso que desce sobre a terra.”

 
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