Pgina Inicial  
revistas artigos autores noticias  
Página Inicial
Direcção e Redacção
Conselho de Redacção
Estatuto Editorial
Condições de assinatura para 2014 e 2015
Edições noutros países
Livrarias onde Adquirir
Publicações Communio
Nota Histórica
Ligações
Contactos
Pesquisa
Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XXVIII • 2011-03-31 • nº 1 •
Morrer
 
palavra-chave
 
   

artigos
Crer na ressurreição ou a lógica do amor • pág 007
Batut, Jean-Pierre
A medicina e a morte. Algumas considerações no início do século XXI • pág 019
Melo, Jorge A.S.
A questão da morte. A derradeira questão do homem e a questão última da medicina • pág 031
Reimão, Sofia
O Testamento Vital e o direito à autodeterminação • pág 039
Semedo, João
Pena de morte. Considerações éticas • pág 049
Bastianel, Sergio
Naufrágios • pág 063
Sanches, Francisco B.
Doze recados dentro de nós • pág 079
Oliveira, Raquel
Brites, Marta
Uma luz no meio de nós. As crianças e os adolescentes perante a morte • pág 091
Strecht, Pedro
Requiem à Memória de Passos Manuel. Breves considerações a propósito e a despropósito • pág 099
Carrapatoso, Eurico
Dos homens e dos deuses. Um filme de Xavier Beauvois • pág 105
Rego, António
As crianças e o conhecimento da morte • pág 109
Cid, Teresa
Laudatio do Cardeal Walter Kasper • pág 115
Pinho, José Eduardo Borges de
Que todos sejam um. Uma visão da unidade cristã para a próxima geração • pág 121
Kasper, Walter


apresentação


JOSÉ M. PEREIRA DE ALMEIDA – GRAÇA PEREIRA COUTINHO – CARLOS SALEMA

Quando este número da Revista foi pensado – a propósito do debate na sociedade portuguesa sobre a dignidade da pessoa na fase final da vida (1) – estávamos longe de imaginar o número de iniciativas, de propostas de reflexão, de intervenções aos mais diversos níveis que entretanto surgiram. Prova de que este tema é particularmente actual e nos preocupa enquanto cidadãos.
A discussão dos projectos de lei sobre o chamado “testamento vital” e questões com ele relacionadas, como a autonomia, o direito à informação, o consentimento livre e esclarecido, iniciada na legislatura anterior do Parlamento, vai brevemente, tanto quanto se anuncia, ser retomada. O artigo de João Semedo apresenta uma perspectiva, uma voz, no debate parlamentar. Outras contribuições foram pedidas, representando outras sensibilidades no leque partidário, mas não obtivemos resposta.
Bem sabemos que o tema não se circunscreve (pelo contrário!) ao âmbito nacional. Neste mês de Julho, por exemplo, foi aprovada em Itália a lei que regula as “declarações antecipadas de tratamento”.(2) Também recentemente, foi publicado um interessante “conjunto de trabalhos sobre cuidados em fim de vida em medicina oncológica”,(3)  que alarga os nossos horizontes de compreensão e de intervenção no sentido da procura de uma melhor qualidade na prestação de cuidados paliativos, de maior formação pré e pós-graduada dos profissionais de saúde, de uma verdadeira task force (como se fez noutros países europeus). O artigo do eminente clínico Jorge Melo debruça-se sobre as interrogações que a morte coloca aos médicos e à medicina. A sua formação em bioética permite-lhe convocar a dimensão da filosofia da medicina para compreendermos como, na segunda metade do século XX e neste início do século XXI, se assiste a novos desenvolvimentos nesta relação interdisciplinar no cenário de vários movimentos, que apenas se passam em revista.
No âmbito da filosofia da medicina, a contribuição de Sofia Reimão, neuro-imagiologista do Hospital de Santa Maria, com uma tese de Mestrado na Universidade Católica sobre esta temática, é particularmente relevante ao reflectir o problema da morte nos dias de hoje.(4)  E, a este propósito, é comovente o testemunho de Francisco B. Sanches intitulado “Naufrágios”: um grito de alma que brota de uma experiência densa e significativa.
Com títulos que remetem para o “nós” (“no meio de nós” e “dentro de nós”), o reconhecido pedopsiquiatra Pedro Strecht parte da sua actividade clínica para abordar o problema das crianças e dos adolescentes perante a morte, e a professora Marta Brites e a psicóloga Raquel Oliveira falam-nos do luto, a partir das recordações, evocações e sentimentos de um jovem a quem morre a mãe, dois dias antes de completar 14 anos.
As considerações éticas sobre a pena de morte, que o teólogo Sergio Bastianel nos propõe, iluminam o nosso agir em sociedade (a nossa existência é vivida como coexistência), interrogando-nos acerca da busca da verdade e do bem, nas relações interpessoais que podem estruturar-se de forma mais ou menos humana, ou mesmo desumana. Viver é fazer viver, tanto quanto de nós depende. Para os que nos reconhecemos como discípulos de Cristo, a vida e a morte é lida em chave do Mistério Pascal do Senhor que viveu a vida como vida dada, entregue até ao fim, para que todos tenhamos vida. Essa vida vivida por amor, como o Bispo Jean-Pierre Batut nos apresenta, permite conferir sentido salvífico a todos os momentos da nossa vida, incluindo os “momentos de morte” e o “momento da morte”.
Na arte, esta experiência é bem patente. O compositor Eurico Carrapatoso – a quem foi este ano atribuído o Prémio de Cultura Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes (Prémio instituído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, em parceria com a Rádio Renascença) – apresenta-nos alguns comentários sobre a sua obra Requiem à Memória de Passos Manuel. Retomando o sentido original do termo requiem (repouso), Eurico Carrapatoso não segue a linha tradicional da missa de defuntos, com as clássicas referências ao Deus da ira e ao Juízo Final, adoptando antes para esta obra um estilo musical “íntimo e sereno”, uma “gramática transparente”, muito mais adequados à transmissão da ideia do Deus da paz. António Rego leva-nos a recordar as imagens e o ambiente do filme de Xavier Beauvois, Dos homens e dos deuses, que, ao narrar “na pura linguagem do cinema” a vida e a morte como mistério, recebeu o prémio do Júri de Cannes em 2010 e foi candidato ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2011.
Completando a secção Depoimentos, contamos com Teresa Cid que aborda o tema, sempre difícil, do primeiro contacto de uma criança com a morte.
A secção Perspectivas é dedicada ao Cardeal Walter Kasper, a quem a Universidade Católica Portuguesa atribuiu este ano o Doutoramento honoris causa. Incluímos nesta secção a laudatio proferida na sessão académica, na qual José Eduardo Borges de Pinho destaca os principais méritos pessoais, científicos e eclesiais deste teólogo e, depois, a comunicação sobre o ecumenismo apresentada por Walter Kasper nessa ocasião.

 

(1) Recorde-se que também os Bispos de Portugal quiseram, oportunamente, “dar um contributo para o debate em curso” (cf. CONFERÊNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA, Nota Pastoral Cuidar da vida até à morte. Contributo para a reflexão ética sobre o morrer, 12 de Novembro de 2009).
(2) Recomenda-se, a este propósito a obra do médico e pensador da história da medicina Giorgio COSMACINI, Testamento biologico, Idee ed esperienze per una morte giusta, Il Mulino, Bologna 2010; e, acerca da perspectiva ético-teológica, neste mesmo espaço linguístico, veja-se: Vidas BALCIUS, “Dichiarazioni anticipate di trattamento. Nuclei di attenzione per una decisione etica”, in Euntes Docete LXIV (2011/1) 195-222; e Donatella ABIGNENTE, “Sulle ‘Dichiarazioni anticipate di trattamento’: considerazioni etico-teologiche”, in Rassegna di Teologia 52 (2011) 231-259.
(3) Trata-se de um caderno apresentado por Manuel Silvério Marques que corresponde à última fase de um “projecto em boa hora posto a concurso pela Fundação Calouste Gulbenkian: “A humanização dos cuidados paliativos em contexto domiciliário” e corresponde ao número intitulado “Morrer em Portugal” da Revista Portuguesa de Filosofia 66 (2010/2) 269-503.
(4) Cf. Sofia REIMÃO, A questão da medicina e a morte como questão, Universidade Católica Editora, Lisboa 2010.


 

 
  KEOPS multimedia - 2006