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Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XXVII • 2010-03-31 • nº 1 •
República
 
palavra-chave
 
   

artigos
O Evangelho e a res publica no protocristianismo ou o paradoxo da cidadania cristã • pág 007
Lamelas, Isidro Pereira
A "Lei da Separação" de 1911 • pág 025
Seabra, João Maria
Perspectivas sobre o anticlericalismo português • pág 033
Abreu, Luís Machado de
"Socialista, republicano e laico". Identidade, programa político e societário • pág 043
Pinto, Sérgio
I República. Protestantismo e liberdade de culto • pág 053
Leite, Rita Mendonça
Os filósofos da República. O caso da Commonwealth • pág 067
Henriques, António Mendo Castro
Repúblicas populares: ideologia e utopia. As Igrejas cristãs e a revolução política • pág 085
Matos, Luís Salgado
Os dois corpos do Presidente da República. Notas para uma releitura de Ernst Kantorowicz • pág 095
Teixeira, Alfredo
Apelos de Enzo Bianchi aos católicos • pág 103
Cabral, Francisco Sarsfield
Santa Ignorância. Notas de leitura • pág 109
Eleutério, João Marques
Testemunho sobre o Padre Honorato Rosa • pág 113
Matos, Vitalina Leal de
O cristianismo antigo perante a cultura desportiva do mundo greco-romano • pág 121
Baslez, Marie-Françoise


apresentação

Carlos Salema – Alfredo Teixeira

Este fascículo da Revista Communio, no ano em que se comemora o 1º centenário da implantação da República em Portugal, é integralmente dedicado ao tema “República”. No horizonte da programação deste número da revista, encontramos não só os acontecimentos que deram corpo a esse momento da história contemporânea de Portugal, mas também uma reflexão sobre a República enquanto modo de pensar e organizar a colectividade humana nesse registo específico que é a experiência de cidadania.
Como mostra Isidro Pereira Lamelas, em “O Evangelho e a res publica no protocristianismo ou o paradoxo da cidadania cristã”, as primeiras gerações de cristãos viram-se confrontadas com sociedades marcadas pelo estreito nexo entre o culto e cultura, encerrando a experiência de cidadania numa “teologia política”. O cristianismo afirmou-se historicamente pela via da reivindicação da autonomia e liberdade da consciência. O Autor explora este problema no quadro de uma reflexão sobre a configuração municipal da vida social, factor decisivo da primeira missão cristã.
No que concerne às interacções entre o poder político e a Igreja católica romana, em Portugal, no contexto da construção histórica da I República, a chamada Lei da Separação é um lugar de visitação obrigatório. João Seabra introduz-nos, com detalhe, no processo desencadeado pela promulgação, a 20 de Abril de 1911 da “Lei da Separação do Estado das Igrejas”. O Autor sublinha que a Lei da Separação deve ser estudada com realismo histórico e político, sem disfarçar o facto de se ter tratado de um instrumento que deu operatividade a uma das intenções políticas dos revolucionários de 5 de Outubro: a erradicação do catolicismo, considerado responsável pelo atraso histórico do país.
O anticlericalismo no contexto republicano constitui-se como uma das expressões deste conflito matricial na sociedade portuguesa contemporânea. Deste tema se ocupa Luís Machado de Abreu. O que mudou desde os tempos da I República até hoje constitui a questão a que o Autor se propõe responder, apresentando o anticlericalismo como uma realidade multifacetada e complexa que sofre as metamorfoses próprias dos comportamentos por força da evolução das mentalidades, dos saberes, das práticas sociais, dos contextos políticos e dos padrões culturais.
“Socialista, republicano e laico”, uma trilogia que evoca realidades distintas, não necessariamente coincidentes, e que assim reunidas constituem um programa social e político, no sentido amplo do termo. Sérgio Pinto oferece-nos uma interpretação histórica desta sintaxe. Do ponto de vista do Autor, a trilogia programática pode entender-se como a expressão de uma memória, elaborada a partir de elementos próximos mas não coincidentes, e uma reivindicação que remete, simultaneamente, para uma experiência histórica de longa duração e um desiderato utópico de carácter holístico.
Nos finais do século XIX, o republicanismo congregava no seu núcleo ideológico uma importante componente anticlerical que identificava a religião católica romana como um adversário do republicanismo. Essa identificação, reforçada pelo facto da Igreja Católica ser maioritária e constitucionalmente designada como a religião do reino, permitiu que se criasse, no seio da ideologia republicana, um espaço de abertura a outros grupos não estritamente políticos. Este foi o principal fundamento das diversas aproximações entre protestantismo e republicanismo. O artigo de Rita Mendonça Leite, “I República, Protestantismo e Liberdade de Culto” faz esta aproximação, do entusiasmo inicial à desilusão de alguns.
A experiência republicana inglesa, entre 1649 e 1660, é o objecto do artigo de Mendo Castro Henriques “Os filósofos da República: o caso da Commonwealth”. Até ao século XVII, a Inglaterra e o continente mantiveram vias abertas de comunicação entre as diferentes correntes de pensamento político. Mas com a revolução inglesa houve uma divergência marcada pela diferença no uso do símbolo Estado. A Europa continental criou leis para a defesa do Estado; a Inglaterra para a defesa do reino. A França, Espanha, Alemanha e Portugal têm uma teoria do Estado; a Inglaterra e os Estados Unidos têm uma theory of government.
A Revolução contra a Religião (o percurso de 1789 a 1917), a Revolução indiferente à Religião (um fenómeno chinês), a Revolução a favor da Religião (o fenómeno tradicional) e a Religião a favor da Revolução (incluindo as reacções pró-revolucionárias do Vaticano e as revoluções de inspiração católica) constituem um poliedro cultural complexo, explorado por Luís Salgado Matos em “Repúblicas populares: ideologia e utopia”. O ensaio explora as trajectórias não lineares das relações entre cristianismo e revolução: “o cristianismo afirmou o primado da pessoa, e portanto o individualismo, aceitando uma única organicidade, a da própria Igreja; a família era instrumental e o Estado inexistente; foi por isso revolucionário até que Constantino o reposicionou como instituição simbólica do Império romano; o seu revolucionarismo tornou-se latente; mais de um milénio depois, a reforma do século XVI faz vingar de novo a dimensão revolucionária, restrita à área calvinista e evangélica; o catolicismo e a ortodoxia continuaram a aparecer identificados com a organização política; por isso, são atacados pelas revoluções posteriores a 1789; num paradoxo, a Igreja romana aceita a revolução no século XX; e a revolução em breve tem de aceitar a religião; a organização política das democracias representativas depois da Segunda Guerra Mundial cria as condições para que a Igreja Católica re-assuma a sua natureza politicamente revolucionária”.
As notas de Alfredo Teixeira para uma releitura de Ernst Kantorowicz, "O duplo corpo do Presidente da República" ajudam a perspectivar este trabalho simbólico que permite o desdobramento institucional do sujeito (“os dois corpos do rei”): o soberano e a sua função, unidos numa espécie de matrimónio místico. O Autor interroga-se se esta configuração política medieval não poderá ainda iluminar, sem iludir as diferenças, o trabalho simbólico que é necessário para instituir a representatividade própria do Presidente da República, particularmente em sistemas políticos em que ele se apresenta num quadro de transcendência em relação à chamada “luta político-partidária”.
A área editorial Depoimentos é preenchida com comentários e notas de leitura sobre dois livros recentes e por um testemunho. Francisco Sarsfield Cabral oferece-nos uma leitura de “Para uma ética partilhada”, de Enzo Bianchi, fundador da Comunidade Monástica de Bose. João Eleutério convida-nos à leitura de “Santa Ignorância”, escrito por um sociólogo especialista no Islão, que se interroga sobre a nossa actualidade como a de um tempo da religião sem cultura. Inserido no “Ano sacerdotal”, o testemunho de Vitalina Leal de Matos dá voz à memória do Padre Honorato Rosa que tanto marcou o seu tempo.
A secção Perspectivas é preenchida por um ensaio sobre o cristianismo antigo e o desporto, por Marie-Françoise Baslez, historiadora da antiguidade tardia, e que conhecemos já por dois estudos sobre o mundo paulino publicados anteriormente na Communio.

 
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