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Titulo do Artigo
Autor
Ano XXVI • 2009-09-30 • nº 3 •
Um mundo que nasce
 
palavra-chave
 
   

artigos
Entre a liberdade e a confiança. Ulisses e Abraão • pág 263
Martins, António Manuel Alves
Mercado, economia e ética • pág 273
Ratzinger, Joseph
O valor da "crise de valores" • pág 281
Almeida, José Manuel Pereira de
Crise, sinal dos tempos • pág 287
Patrício, José Simões
Reinventar a solidariedade • pág 307
Maradiaga, Oscar Rodriguez
Causas da crise • pág 313
Cunha, Luís Campos e
O homem funcional. Capitalismo, propriedade, papel dos Estados • pág 321
Böckenförde, Ernst-Wolfgang
As encruzilhadas da crise contemporânea. Por um futuro sustentável • pág 329
Soromenho-Marques, Viriato
Uma nova terra. Em resposta à crise: a evolução da consciência • pág 339
Antunes, Maria José Melo
Derradeiro risco • pág 349
Curti, Elena
Com o microcrédito dar novas vida à vida • pág 355
Alves, Manuel Brandão
O peixe amarelo – Pistas para um mundo melhor • pág 363
Meneses, João Wengorovius
Futuro incerto para a comunicação social • pág 367
Cabral, Francisco Sarsfield
Teologia e razão contemporâneas. As razões cristãs para fazer teologia • pág 373
Dagens, Claude


apresentação

RUI MADEIRA - JOSÉ PATRÍCIO

Quando foi decidida a temática do presente número da COMMUNIO, não se haviam tornado ainda patentes os sintomas e factores da crise económico-financeira que vivemos a nível praticamente mundial. Mas pressentiam-se inquietações e dinamismos de ordem vária, em busca de formas alternativas de organização e conduta humana, não apenas nem talvez principalmente em sede económica, mas ainda no domínio ecológico e cultural. A crise manifestou-se em toda a sua força no segundo semestre de 2008 e veio revelar, súbita e claramente, várias debilidades da sociedade, levando a questionar estruturas materiais, procedimentos dos agentes sociais, em especial no seu relacionamento mútuo, e também padrões e valores, mormente espirituais, que servem de esteio à vida colectiva. O mundo é feito de mudança, como bem o expressa a sensibilidade poética, pelo que sempre conheceremos épocas mais orgânicas ou mais críticas, para usar uma terminologia centenária. Nas primeiras, pode-se tender ao descanso dos factores de mudança, enquanto que nas segundas haverá naturalmente maior consciência ou até contestação dos equilíbrios estabelecidos, mesmo que só aparentes, e propostas duma ordem diferente. Nestas páginas, António Martins, na esteira de Martin Buber, convida a comparar dois arquétipos da itinerância humana: o de Ulisses, mais propriamente errância do que itinerância, na liberdade da busca de si mesmo e retornando a casa, onde aliás é havido por estrangeiro; o de Abraão que, na esperança da promessa em que confia, é o peregrino do futuro, paradigma escatológico do crente. Figuras da cultura ocidental, apelam à complementaridade entre liberdade e confiança. Na presente situação sócio-económica, muito convirá lembrar a afirmação, atribuída a Einstein, de que a forma como se resolve um problema tem de ser diversa da forma como ele nasceu. Pois não se divisa nitidamente (ainda) em que novas bases assentará a sociedade; mas a verdade é que, mesmo sem apelar explicitamente a mudanças radicais de paradigma(s), as próprias autoridades internacionais reconhecem que as vias de saída da crise vão ser mais difíceis do que os remédios de emergência a que se lançou mão para obviar a uma segunda Grande Depressão. Vários dos contributos recolhidos pela COMMUNIO entrevêem o mundo que nasce analisando as raízes e manifestações quer da já denominada Grande Recessão quer da crise ecológica e dos valores. Como já sublinhava Joseph Ratzinger a meio da década de oitenta, uma economia que vise o bem comum não pode prescindir da ética, contrariamente ao que sustenta o liberalismo e o marxismo; um sistema económico justo, politicamente exequível e socialmente aceitável depende, sim, de um sistema ético determinado e este, por seu turno, só pode sustentar-se em sólidas convicções religiosas. Ora, como observa José Manuel Pereira de Almeida, após o eclodir da crise financeira tornou-se consensual a ideia de que a ela subjazia uma crise de valores; e há-de conferir-se à crise o valor próprio de apresentar o diálogo como ferramenta para a "ética partilhada" que se faz necessária. Se a crise e a recessão económicas tiveram por causa última a perda de consciência moral e de valores, desde logo o da verdade, é por este justamente que se há-de começar a reconstruir o que moralmente foi desconstruído. José Patrício documenta como da parte do mais alto magistério da Igreja foi bem cedo feito o diagnóstico da crise, assim como foram apontadas soluções justas em consonância com os valores próprios da doutrina social católica. Esta é objecto da intervenção de D. Óscar R. Maradiaga, dando conta da nova ordem política que emerge e de como importa construir com a lógica do bem comum. Segundo a análise de Luís Campos e Cunha, o sistema capitalista gerou por si mesmo uma crise que se teria verificado ainda que a não tivessem alimentado outros factores, tanto de natureza ética como, por exemplo, de ordem técnico-económica. Por sua vez, Ernst-Wolfgang Böckenförde sublinha ser própria do capitalismo a consideração do homem não como pessoa na sua integralidade mas apenas com as forças motoras e as funções exigidas pelos princípios do seu sistema de acção, cujo individualismo egoísta prima sobre a solidariedade interpessoal; pelo que defende que se proceda à crítica radical do capitalismo, na tradição explícita da doutrina social católica desde S. Tomás de Aquino. A desregulação e os riscos ambientais iminentes ou já em curso sedimentaram indubitavelmente há mais tempo na consciência colectiva, a ponto de ser hoje incontornável a pressão exercida a tal respeito pela sociedade civil sobre a classe política, mesmo a nível mundial. O modo como a civilização tecnocientífica se transforma numa força ontológica (des)construtora de mundos é analisado por Viriato Soromenho Marques que aponta os desafios à economia de mercado, em ordem à nossa sobrevivência, combinando fertilidade criativa e tenacidade moral. Numa reflexão teilhardiana, Maria José Melo Antunes foca o respeito não apenas pelo outro, pela humanidade, mas também pela criação, acentuando a necessidade de uma acção firme e solidária. Na secção Depoimentos, inserimos o testemunho pessoal de Paul Moore, em entrevista a Elena Curti, um banqueiro que soube denunciar, ainda antes da manifestação da crise financeira, a inadequação ética das práticas bancárias e, porque não ouvido, abandonou com sacrifício pessoal, mas em coerência com a sua fé, a função que desempenhava. Na área da sua experiência própria, Manuel Brandão Alves analisa o microcrédito como forma de combate à pobreza e auxílio ao empreendorismo dando "novas vidas à vida". A propósito de novos tipos de organização social, João Wengorovius Meneses sublinha o conhecimento e a inovação como alavancas do futuro. Na área da informação, Francisco Sarsfield Cabral retrata com objectividade a situação que a comunicação social atravessa, na complexidade das novas possibilidades tecnológicas instrumentais, presa dos interesses económicos e do poder político. Na secção Perspectivas, o artigo de Claude Dagens aborda o diálogo entre razão e fé e a superação do fideísmo, ultrapassando o medo do trabalho da inteligência, inseparável do combate da fé que se expõe, ao inspirar a reflexão dos teólogos e o comportamento dos baptizados. Assim se ajuda a compreender que o mundo não se reduz a problemas técnicos, ao poder das biotecnologias ou à lógica de um mercado internacional sem controlo; não é só um processo evolutivo, mas um dom de Deus.

 
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