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Autor
Ano XXV • 2008-12-31 • nº 4 •
Imaginários Contemporâneos
 
palavra-chave
 
   

artigos
Itinerarium imaginationis ad Deum. Viagem a Númenor com os Inklings • pág 391
Devaux, Michaël
A Bíblia e o Fantástico • pág 407
Mendonça, José Tolentino
Prescindir do mito e da desmitologização • pág 415
Riaudel, Olivier
Da boa utilização da literatura fantástica • pág 431
Bray, Suzanne
O gato de Schrödinger • pág 443
Salema, Carlos
Second Life. O desejo de uma "outra vida" • pág 455
Spadaro, Antonio SJ
Cinema fantástico • pág 469
Perestrello, Francisco
Histórias fantásticas • pág 477
Frazão, Maria Leonor
Sexualidade II. Novas tarefas, novas perspectivas • pág 481
Pereira, Fernando Micael
Conceito paulino de liberdade e crítica da modernidade • pág 493
Söding, Thomas
Quando a alegria não é uma distracção. A propósito de um Caderno do Sicómoro • pág 505
Rego, António


apresentação

 MARIA C. BRANCO - RUI MADEIRA - JOSÉ PATRÍCIO

Sucintamente, podemos definir imaginário como a fábrica de imagens, representações e visões, colectivas ou pessoais, que dá expressão à maneira de conceber a nossa relação com o mundo e com outrem. No plano individual, existe no homem uma dimensão intrínseca da função imaginária: a força do símbolo, o peso da imagem, constituem uma espécie de fantástico transcendental sem o qual não podemos passar; no plano colectivo, e segundo M. Eliade,(1) a criação de mitos fornece aos homens modelos de comportamento, e dá à existência o seu verdadeiro sentido. Esta penetrante interpretação de Eliade, segundo Julien Ries, pôs em relevo um facto novo na definição de mito: "o comportamento mítico não é um comportamento pueril (...). É um modo de estar/ser no mundo..."(2) Reconhece-se, deste modo, que as questões que o mito traz à reflexão são sempre actuais. Como o afirmava M. Maffesoli a propósito do enorme êxito dos livros de Harry Potter: "O sucesso do aprendiz de feiticeiro está aí para nos recordar que, a longo prazo, as sociedades têm necessidade de mitos. Elas criam-nos, recriam-nos, ou anicham-se naqueles que, sob formas diversas, sempre existiram." (3) No mundo ocidental, desde a época das Luzes, vivemos um poderoso movimento iconoclasta e de desmitologização: venera-se a "positividade", os factos históricos, a máquina, o racional. Ironicamente, ao querer-se superar o "obscurantismo" do mito cria-se um outro mito – o do positivismo. Deu-se, depois, o movimento contrário: o ressurgimento do imaginário, em geral, e do mito, em particular. Ora, os produtos que emergem da imaginação humana exercem uma atracção bastante disseminada pelas várias formas de expressão cultural. (4) Este número da COMMUNIO pretende contribuir para uma reflexão sobre a pertinência de uma cultura da visão imaginativa, nomeadamente ao favorecer uma abertura ao Evangelho e ao cristianismo (dizia C.S. Lewis que na vida de Cristo "o mito se tornou realidade" [5]). O fascículo abre com um artigo de Michaël Devaux, Itinerarium imaginationis ad Deum, sobre até onde nos pode levar a imaginação no caso da literatura e, muito particularmente, da literatura fantástica hoje tão divulgada graças ao sucesso de livros – e também dos filmes a que deram origem – como O Senhor dos Anéis (J.R.R. Tolkien), Crónicas de Nárnia (C.S. Lewis) e a série de Harry Potter (J.K. Rowling). A este propósito é necessário clarificar uma questão de vocabulário. Em rigor, a expressão "literatura fantástica" não é a mais adequada para qualificar este tipo de narrativas, apesar de ser a mais corrente em português, e também a mais utilizada neste fascículo. Embora seja difícil precisar-lhe exactamente as origens (p. ex., há quem nela inclua a Odisseia de Homero, com a sua magia, epopeia, deuses e heróis), pode dizer-se que, enquanto género literário, ganha notoriedade na Inglaterra vitoriana, entre outros com George MacDonald – que irá influenciar de forma determinante tanto Tolkien como C.S. Lewis –, sendo denominada com o termo fairy-story (fantasy). É a Tolkien, filólogo e professor universitário em Oxford de inglês antigo, que devemos o estabelecimento, na sua forma actual, da expressão fairy-story, sendo ele também o maior divulgador deste género literário junto do grande público. Foi ainda ele quem reflectiu da forma mais original acerca da natureza da fairy-story, afirmando que esta nos introduz na Faërie (6) que em português se pode traduzir por Feeria, e nos parece mais próximo daquilo que pretenderiam Tolkien e Lewis. O "fantástico", por sua vez, designa antes o aparecimento do estranho, do insólito, na nossa vida quotidiana, e frequentemente de uma maneira inquietante. O que ressalta neste caso é o contraste entre a vida diária e os acontecimentos quase sempre destruidores que aí se insinuam. É o que mostra, aliás, o artigo de Francisco Perestrello sobre Cinema fantástico. Mas, como nos diz M. Devaux, a imaginação não consiste sempre em escapar à realidade; ela pode, ao contrário, reconduzir a essa mesma realidade. Da literatura de Feeria temos o melhor exemplo num grupo, os Inklings, que se reunia à volta de J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis. Pena é que não dispunhamos até à data de traduções, em Portugal, dos escritos mais importantes destes dois autores, em que dão a fundamentação teórica das suas obras de ficção. A Bíblia constitui, como nota J. Tolentino Mendonça em A Bíblia e o Fantástico, um laboratório imenso e até desconcertante das possibilidades da linguagem humana, e portanto só seria de admirar que não recorresse às diversificadas ferramentas que a linguagem oferece: narrativa histórica ao lado da poética, ou Revelação e Imaginação. A abundante presença do fantástico no texto bíblico faz emergir o sobrenatural e o seu efeito tumultuoso, forçando as portas de um mundo que a mera razão e ordem natural não logram explicar. Ao mesmo tempo, contudo, a Bíblia investe num movimento teológico contrário, modificando este género literário em vista da coerência própria da Revelação. Olivier Riaudel, em Prescindir do mito e da desmitologização, observa que o próprio Platão, que fixou e nos legou o conceito de mito criticando-o pelo seu antropomorfismo, não deixou de apelar a vários mitos. No que respeita ao programa de "desmitologização" de R. Bultmann, é evidentemente legítimo interrogar o enunciado dos textos mitológicos da Escritura; mas não pode ser adoptada uma definição de mito tão simplista como a que o identifica com aquilo que o homem moderno, esclarecido e científico, tem por inaceitável ou incompreensível. No artigo Da boa utilização da literatura fantástica, Suzanne Bray funda-se na sua experiência de docente universitária e sobretudo de "pregadora leiga" (anglicana) para explicar, com base em três exemplos concretos, que a actual literatura fantástica, assim como os filmes nela inspirados, se adequam à transmissão da mensagem cristã. Obras como as de C.S. Lewis, J.R. Tolkien e J.K. Rowling, envolvendo ou não, explicitamente, a imagética cristã, socorrem-se da mitologia clássica e até da alquimia e estão impregnadas de simbolismo, poética e metáfora, o que lhes permite dizer o que de outro modo seria porventura inexprimível. Até aqui, considerámos o imaginário enquanto incide no campo da literatura. Mas também no mundo físico, muitas vezes, imagens utilizadas para descrever os fenómenos são do domínio da fantasia e da imaginação, apoiando o domínio da experiência, método fundamental de verificação. Na Física quântica vamos encontrar uma experiência, descrita e explicada por Carlos Salema em O gato de Schrödinger, que procura entender o comportamento dos objectos quânticos, imaginando um gato dentro de uma caixa fechada. Segundo o postulado da sobreposição, dentro da caixa e enquanto não é observado, o gato está simultaneamente vivo e morto. Como observa o Autor do artigo, um outro gato conhecido com propriedades quânticas é o gato Cheshire de Alice no País das Maravilhas, que aparece e desaparece quando e como quer. Daqui podemos inferir que há experiências imaginárias importantes para fazer progredir a ciência. Seria no mínimo questionável não nos referirmos, no âmbito desta temática, também o mundo virtual. António Spadaro SJ, em Second Life: o desejo de uma "outra vida", introduz-nos num mundo onde, de maneira simulada, temos a possibilidade de viver uma espécie de "segunda vida" digital. O artigo descreve pormenorizadamente este fenómeno que tem conquistado milhares de adeptos, avaliando os seus riscos e as suas oportunidades. A terra digital é igualmente, a seu modo, "terra de missão"; por isso, devemos estar atentos a um mundo no qual o homem pretende também encontrar-se a si mesmo. A terminar a secção temática, apresentamos o testemunho de uma jovem, M. Leonor Frazão, que nos fala da importância que têm para si as Histórias fantásticas. Na secção Perspectivas, publica-se a conclusão do ensaio antropológico de F. Micael Pereira sobre Sexualidade. Não esquecendo que estamos a comemorar o Ano Paulino, apresenta-se ainda o artigo de Thomas Söding sobre a teologia paulina da liberdade. A fechar o número, António Rego deixa-nos uma meditação sobre os tempos livres, a propósito da publicação do caderno "Do tempo livre à libertação do tempo", da responsabilidade do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, e cuja leitura se recomenda vivamente.

(1) Cf. A provação do labirinto, Lisboa: D. Quixote 1987.

(2) L'uomo e il sacro nella storia dell'umanità, in: Opera Omnia, vol. II, Milano: Jaca Book 2007, 313s.

(3) Harry Potter ou la sagesse démoniaque, in: Le Monde, le 14 septembre 2007.

(4) A título de exemplo, no âmbito da literatura, M. Eliade observa que a prosa narrativa, especialmente o romance, ocupou até, nas sociedades modernas, o lugar da recitação dos mitos e dos contos nas sociedades tradicionais e populares; e é a "saída do tempo" provocada pela leitura de romances que mais aproxima a função da literatura das mitologias. Cf. Aspectos do mito, Lisboa: Edições 70 1986, 159s.

(5) "Myth Became Fact", ensaio escrito em 1944, publicado em: C.S. LEWIS, God in the Dock. Essays on Theology and Ethics, ed. de Walter Hooper, Grand Rapids (Michigan): Wm. B. Eerdmans Publishing 1994.

(6) Cf. o seu ensaio "On Fairy-Stories", in: Tolkien on Fairy-Stories, ed. de Verlyn Flieger e Douglas Anderson, London: Harper Collins 2008.

 
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