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Titulo do Artigo
Autor
Ano XXIV • 2007-09-30 • nº 3 •
Jesus Cristo e as religiões
 
palavra-chave
 
   

artigos
A Universalidade da pessoa e da mensagem de Jesus Cristo • pág 263
Miranda, Mário de França
A questão de Jesus na teologia das religiões. O contributo de Jacques Dupuis • pág 275
Silva, José Antunes da
A "reacção pagã" perante Jesus Cristo • pág 285
Lamelas, Isidro Pereira
A valorização de Cristo no "ateísmo" de Espinosa • pág 299
Ferreira, Maria Luísa Ribeiro
Jesus Cristo nas teologias africanas • pág 307
Farias, José Jacinto Ferreira de
Jesus Cristo na perspectiva hindu • pág 315
Hangi, Hubert
A convivência entre cristãos e muçulmanos • pág 327
Jomier, Jacques
Para acabar com os três "monoteísmos" • pág 341
Brague, Rémi
Fé- Verdade- Tolerância. O Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo. Apresentação de um livro de J. Ratzinger • pág 357
Galvão, Henrique de Noronha
O laicismo como ideologia • pág 367
Mucznik, Esther
Matemática. O fascínio de uma conquista • pág 375
Manara, Raffaella


apresentação

JUAN AMBROSIO – ALFREDO TEIXEIRA

Factores diversos, como o acentuado pluralismo cultural ou a pressão do factor religioso na definição dos globalismos e localismos contemporâneos, exigiram novas competências no âmbito das práticas de cidadania e favoreceram o despertar de um olhar mais interessado pelo “espaço” inter-religioso. Nos itinerários de encontro das religiões passou a descobrir-se uma pertinência não só teológica mas também política. A convicção de que não poderá existir paz mundial sem paz entre as religiões, ganhou sede nas múltiplas modernidades que dão corpo a estes tempos novos. Mulheres e homens entre outros, os cristãos têm, neste novo espaço inter-religioso, uma questão central: a pessoa de Jesus. A necessidade de compatibilizar a universalidade e a singularidade de Jesus Cristo com o respeito por outras vias espirituais coloca muitos cristãos num terreno amplo de hesitações. A universalidade de Jesus Cristo ocupa, neste fascículo da Communio, a reflexão do teólogo brasileiro Mario de França Miranda que descreve o núcleo do evangelho cristão enquanto factor de paz e justiça, como um factor universal que pode ser assumido pelas demais religiões sem as descaracterizar ou subordinar. José Antunes da Silva apresenta-nos as propostas de Jacques Dupuis no âmbito da teologia do diálogo inter-religioso, mostrando como, neste âmbito, os desafios do cristianismo se exprimem na conjugação de duas afirmações: a vontade salvífica universal de Deus e a mediação de Jesus Cristo. Dupuis procura superar os limites das tendências pluralistas (relativistas), mas também as dificuldades das teses inclusivistas (que diminuem o valor das outras tradições religiosas). O seu “pluralismo inclusivista” procura superar esse contraste, hipótese que não mereceu uma recepção consensual. No âmago destas tensões próprias do cristianismo se pode situar, também, a obra de Joseph Ratzinger, Fé, Verdade, Tolerância – O Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo, aqui relida por um dos seus antigos discípulos, Henrique de Noronha Galvão. A argumentação de Ratzinger desenvolve-se em torno do princípio do respeito pela liberdade na “obediência à verdade”. Partindo deste eixo, oferece-nos uma reflexão acerca do modo como o cristianismo se pode relacionar com as grandes religiões do mundo e como pode empreender, com elas, a procura da verdade. A história da Antiguidade tardia indicia que, desde os primeiros itinerários do cristianismo, as culturas não permaneceram indiferentes ao anúncio de Jesus. O ensaio de Isidro Lamelas mostra que as literaturas grega e latina, até à primeira metade do século II, se mantiveram quase sempre silenciosas sobre o facto cristão. E, no entanto, os missionários cristãos, desde a primeira hora, dirigiram-se aos “pagãos” de cultura e mentalidade greco-romana, movimento que desencadeou uma dupla reacção de aceitação e rejeição da mensagem e pessoa de Jesus – Isidro Lamelas apresenta-nos a chamada “primeira reacção pagã”, dando especial atenção à posição de Celso (178 d.C.). A singularidade da pessoa de Jesus pode ser descoberta em contextos inesperados, mesmo sendo objecto de uma concentração/redução antropológica. Testemunha de uma “modernidade religiosa”, o pensamento de Espinosa é-nos apresentado aqui por Luísa Ribeiro Ferreira. Ao Cristo como Alfa e Ómega da criação, Espinosa contrapõe uma sua figura humana – sábio entre os sábios – que deve ser tomada como modelo, mas nunca venerada como Deus. Jesus é visto como continuador de Moisés, propondo um modo de viver, uma ética. Seguir Jesus, nesta perspectiva, é aderir a uma moral. Outras e diversas são as perspectivas sobre a figura de Jesus a partir das culturas africanas. Como refere Jacinto Farias, “a questão da cristologia nas diversas teologias, sejam africanas, sejam europeias, volta a pôr-se com radicalidade porque já se não trata de pensar a cristologia a partir do Ocidente ou do Oriente, do Este ou do Oeste, de África ou da Europa, mas sim de um ponto que possa ser comum a todos, e este tem de ser, de novo e como sempre, a grande Igreja onde o Senhor ressuscitado, vivo e verdadeiro, está como a pátria onde todos os que são filhos têm lugar, e onde as diversidades culturais não devem ser motivo de divisão mas de enriquecimento”. Na figura de Jesus se estabelecem pontes entre o hinduísmo e o cristianismo. As características inclusivistas próprias das religiosidades hindus, como Hubert Hänggi refere, favorecem a integração de elementos simbólicos exógenos. Mas esse modelo assimilacionista não deve substituir o necessário diálogo com estas tradições religiosas, uma vez que a situação geopolítica actual favorece o endurecimento das identidades face ao que é representado como estranho e ameaçador. A reflexão sobre a convivência entre cristãos e muçulmanos ganha, neste contexto, uma particular relevância. Jacques Jomier examina o estatuto oficial que a lei muçulmana reservava para os cristãos e para os judeus. Nesse exercício, procura fazer a distinção entre as interpretações antigas e aquelas que alguns propõem para hoje. O leitor é aqui colocado perante uma pergunta: será que as transformações actuais do mundo, que geram novas formas de o habitar e de o ler, poderão tornar mais fácil um regime de convivência respeitador das diferenças? Nas últimas décadas, o factor religioso ganhou um lugar na nova agenda social. As dinâmicas religiosas no mundo tomaram uma visibilidade inesperada, justificando que alguns dos “tenores” da teoria social da secularização, como Peter Berger, falem, agora, de “des-secularização”, categoria que pretende descrever uma nova relevância do religioso na cena pública. Não espanta, por isso, que em muitos contextos floresça o interesse cultural pelas religiões, redescobertas agora como parte integrante das culturas, garantindo a muitas sociedades um suporte de memória que se oferece como protecção dos riscos da mudança – próprios da modernidade radicalizada – ou oferecendo um vasto stock simbólico disponível para o bricolage próprio do individualismo contemporâneo. A multiplicação das vias de acesso aos universos religiosos não facilita, por vezes, o rigor da linguagem nas opiniões públicas. No tocante às aproximações possíveis entre judaísmo, cristianismo e islão, três expressões invadiram os media: “os três monoteísmos”, “as três religiões de Abraão”, “as três religiões do Livro”. Rémi Brague torna patentes as razões pelas quais estas três expressões são falsas e perigosas. Falsas porque escondem, cada uma delas, um erro de perspectiva sobre a natureza das três religiões que se pretende juntar sob um único tecto. Perigosas porque encorajam a preguiça intelectual, dispensando uma leitura mais fina da realidade. A procura do rigor, neste contexto, não é algo que diga respeito apenas aos fóruns científicos. Essa demanda é essencial quando se pretende ultrapassar os estereótipos que mascaram as percepções comuns da diversidade religiosa. Os manuais escolares podem ser um lugar de teste, se quisermos saber alguma coisa acerca da (i)literacia religiosa das nossas sociedades. Esther Mucznik apresenta-nos algumas das principais conclusões de um estudo sobre a forma como as religiões (terreno aqui circunscrito ao judaísmo, cristianismo e islamismo) é abordada nos manuais escolares, num universo de mais de oitenta manuais de História, Língua Portuguesa e Educação Cívica, do 5º ao 12º ano de escolaridade. A autora conclui que a secularização e a militância laicista esvaziaram os programas escolares da investigação e reflexão sobre o fenómeno religioso, sendo os manuais testemunhas eloquentes de um percurso histórico de hegemonia de uma visão laicista que erradicou a religião do espaço público e, portanto, do ensino público. A secção Perspectivas deste fascículo da revista Communio acolhe, ainda, uma oportuna e estimulante reflexão de Raffaella Manara sobre o ensino e a aprendizagem da Matemática, vistos como “o fascínio de uma conquista”.

 
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