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Autor
Ano XXIV • 2007-06-30 • nº 2 •
O anúncio do Reino de Deus
 
palavra-chave
 
   

artigos
Ensino com autoridade. Milagres e parábolas de Jesus no evangelho do Reino de Deus • pág 135
Söding, Thomas
Cristo, o "tópico" do utópico. Utopia e escatologia • pág 151
Martins, António Manuel Alves
A teologia política de Eusébio de Cesareia. Uma subversão do Reino de Deus? • pág 167
Eleutério, João Marques
O serviço da caridade • pág 177
Antunes, Manuel Luís Marinho
Cristo-Rei. Entre liturgia, devoção e teologia política • pág 197
Michel, Florian
A teologia de Cristo-Rei e a institucionalização da Acção Católica Portuguesa • pág 211
Fontes, Paulo O.
O Reino de Deus e os novos movimentos na América Latina • pág 223
Libanio, João Batista
A busca da visão de Deus e o ouvir a sua Palavra como encontro com Deus no Antigo Israel • pág 235
Lima, Maria de Lourdes Corrêa
A era da natureza transgénica. Uma reflexão sobre a engenharia genética da vida • pág 247
Silva, Margarida


apresentação

H. NORONHA GALVÃO – JOÃO M. ELEUTÉRIO

Entre os mistérios da vida de Jesus, o anúncio do Reino toma um lugar particular pois não constitui um acontecimento bem delimitado no tempo, mas antes um motivo que caracteriza, desde o início, toda a vida pública de Jesus. A própria expressão grega basileia thou Theou abrange várias acepções que o hebraico podia significar com três palavras distintas a que correspondem outras tantas possibilidades de tradução nas línguas modernas. Em português podemos empregar, conforme os contextos, as noções mais activas de realeza e reinado (soberania) ou a mais objectiva de reino de Deus. Muitas vezes a expressão Reino de Deus assume o significado global destas três acepções.(1)
De qualquer modo, pode considerar-se que esta expressão significa o que há de mais central não só da pregação e acção de Jesus mas também do seu próprio mistério que, assim, se revela. Orígenes sintetizou-o dizendo que Jesus é a autobasileia de Deus, a presença pessoal do Reino de Deus.
Ao ver o mistério de Jesus na perspectiva da intervenção pessoal de Deus na história, esta noção mostra a missão de Jesus Cristo como resposta à expectativa de salvação que caracteriza a história de Israel, uma expectativa que, afinal, é já promessa de resposta a um desejo de salvação próprio de todos os homens.
Thomas Söding mostra como Jesus espanta os seus contemporâneos pela autoridade que manifesta no ensino de uma sabedoria que tem nele a sua origem (recebida, é certo, do Pai como todo o seu mistério) e pelo poder que revela, em primeiro plano, quando faz milagres, mas atingindo todo o seu alcance quando Jesus perdoa os pecados. Tal poder não é do tipo dos poderes deste mundo. Sob este aspecto, é total a sua impotência para se confrontar, ao mesmo plano, com o poder militar ou político; uma tal impotência colocá-lo-á à inteira mercê dos que acabarão por o crucificar. E, no entanto, essa total entrega revela-se paradoxalmente como o inexcedível poder do amor divino. É esse o sentido do Reino de Deus que anuncia e realiza, a soberania de um amor capaz de salvar os homens e cuja glória se manifesta na ressurreição – um mistério que as parábolas desvendam e anunciam.
Será então o Reino uma simples utopia, um sem-lugar, segundo a etimologia corrente da palavra? António M. Alves Martins responde que, neste caso, há uma referência concreta da esperança, há uma fecundidade real da presença e acção de Jesus Cristo. Só aparentemente a confiança nele pode significar passividade, porque é de facto uma força que desperta para a intervenção. O ideal torna-se praxis social e política, no sentido amplo do termo, ainda que esse dinamismo na história tenha a sua razão de ser numa finalidade que supera a história, na escatologia. O segredo é a fidelidade a Deus, capaz de denunciar todas as ilusões de uma confiança prometeica do homem apenas nas suas próprias forças. “A reserva escatológica da esperança cristã constitui uma poderosa força impulsionadora de compromisso concreto cristão, lutando e agindo por uma sociedade que seja cada vez mais rosto de comunhão, querida por Deus e que Deus é em si mesmo.” A comunhão é, de facto, um outro nome do Reino de Deus. A Igreja realiza-o enquanto é “como que o sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano” (LG 1).
Desde a Antiguidade Oriental houve uma teologia política legitimadora do poder e que, importada pelo Império Romano, levou ao conflito de lealdades nos cristãos. Tendo como único Senhor (kyrios) Jesus Cristo ressuscitado, rejeitavam a pretensão de divindade do Imperador, sendo por isso conduzidos ao martírio. Mas que dizer quando se pretende também legitimar, do ponto de vista cristão, a autoridade do Imperador Constantino, convertido ao cristianismo? João Marques Eleutério analisa esta problemática numa das obras de Eusébio de Cesareia. Aí, os “louvores de Constantino” servem para fazer uma iniciação aos mistérios cristãos. E a ideia primeira é a afirmação da transcendência de Deus “alheia a toda a função utilitária”. Só Deus, portanto, é o “Rei supremo” que pelo seu Logos se revela já na Criação e que se torna acessível quando o seu Logos incarna em Jesus Cristo. É este que, assim, nos faz entrar na plenitude da unidade própria de Deus. A legitimação da autoridade do Imperador resulta, portanto, de se pôr ao serviço da realização da unidade.
A unidade é realizada pelo Reino de Deus, já presente na Igreja em mistério (LG 3), como fruto do amor de caridade a que se refere o Papa Bento XVI na sua encíclica Deus caritas est. Manuel Luís Marinho Antunes descreve-nos, na perspectiva do sociólogo, como se apresenta o “serviço eclesial organizado da caridade” em Portugal. Mas é sobretudo uma leitura atenta da encíclica de Bento XVI que nos pode alertar para as linhas de força de uma acção pastoral, capaz de salvaguardar e dinamizar esse serviço da caridade, nomeadamente ao sublinhar a importância da diaconia e da organização caritativa como opus proprium da Igreja.
Um domínio em que o tema do Reino de Deus se tornou particularmente relevante no sec. XX foi o culto de Cristo-Rei e, ligado a ele, o movimento da Acção Católica, sobre os quais podemos ler, neste fascículo, dois estudos, um do francês Florian Michel, outro do português Paulo Fontes. Situada “numa zona tensional, entre devoção e política”, a festa de Cristo-Rei procura sintetizar um certo número de aspectos tradicionais da fé em Jesus Cristo, ao mesmo tempo que pretende dar uma resposta à tentativa laicista de retirar essa mesma fé do domínio público. Uma tensão difícil, já que se trata de garantir a presença de um reino “que não é deste mundo” (Jo 18,36), um reino que se realiza pela entrega ao serviço dos outros. Na encíclica Quas primas (1925) que instituiu a festa, Pio XI aponta os efeitos da soberania de Cristo na sociedade: “…finalmente seria possível curar tantas feridas, todo o direito retomaria, com o primitivo vigor, a sua ancestral autoridade, a paz regressaria com todos os seus benefícios… as mãos abandonariam as armas…” Paulo Fontes, por seu lado, mostra como é nessa mesma lógica que surge o movimento da Acção Católica (1922), instituída em Portugal desde 1933, em ordem à recristianização da sociedade através do apostolado dos leigos. O concílio Vaticano II veio “recentrar a reflexão teológica na relação entre o crescimento do Reino de Deus na terra e o progresso da vida terrena”.
Na perspectiva da América Latina, João Batista Libânio apresenta a nova visão do Reino de Deus a partir da experiência dos recentes movimentos eclesiais. Um dado importante é a verificação de que a actividade do Rei, desde o Antigo Próximo Oriente, se orientava para a concessão do direito e a protecção aos mais fracos. Em Israel, ao falar-se do Reino de Deus supõe-se não um deus otiosus, mas Deus a intervir na história dos homens, através dos homens. No NT, “o facto de ser interpretado por Jesus Cristo como acção de Deus não lhe diminui o impacto sócio-político sobre as relações humanas”, ainda que o Reino não se esgote na realidade terrestre. O conjunto dos mais recentes movimentos e novas comunidades no Brasil, se possui forte fundo carismático, associa-se com frequência ao cuidado pelos pobres. E o autor conclui: “ sem os pobres, o Espírito se afasta e o Reino claudica”.

Na secção das Perspectivas, Maria de Lourdes Corrêa Lima analisa como, no AT, se faz o encontro com Deus. Margarida da Silva introduz-nos num tema de grande actualidade, a era da natureza transgénica, com uma reflexão sobre a engenharia genética da vida.

(1) O próprio aramaico bíblico não distinguia estas três noções, empregando indiferentemente malkou e malkout. Para o hebraico, no entanto, eram distintos os termos meloukâh (realeza), malkout (reinado) e mamlâkâh (reino). Independentemente da tese defendida pelo autor, julgo importante para um mais diferenciado entendimento do que é o “Reino de Deus” esta distinção referida por Jean CARMIGNAC, Le mirage de l’eschatologie. Royauté, Règne et Royaume de Dieu… sans Eschatologie, Paris: Letouzey et Ané 1979, 13-16.

 
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