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Titulo do Artigo
Autor
Ano XXIII • 2006-12-31 • nº 4 •
A escola perante o desafio das religiões
 
palavra-chave
 
   

artigos
Multiculturalidade e diversidade religiosa. Novos desafios para a escola e as religiões. • pág 391
Varanda, Maria Isabel
Escola pública e religiões na Europa de hoje. • pág 403
Willaime, Jean-Paul
Religião, espiritualidade e educação. • pág 411
Vloet, Johan Van der
A escola e o facto religioso, ou o desafio da verdade. Entrevista • pág 423
Borne, Dominique
A mediação cultural. Um novo contexto para a transmissão religiosa? • pág 435
Mendonça, José Tolentino
A Bíblia, património cultural e formativo. • pág 443
Vaz, Armindo
A educação religiosa escolar. Debates no Portugal democrático • pág 455
Silva, Albertino
Formar identidades abertas. Perspectivas a partir de Sarajevo • pág 465
Carvalho, Jeremias
Estrutura de Missão para o diálogo com as religiões. • pág 475
Carvalho, Miguel Ponces de
TRES. Network on Teatching Religion in a Multicultural European Society. • pág 479
Ambrosio, Juan Francisco
Eleutério, João Marques
O século de Fernando Lopes Graça (1906-2006). • pág 487
Teixeira, Cristina Delgado
Festa dos sons e teologia. A propósito da música de W.A.Mozart. • pág 495
Morão, Artur
Uma Igreja cheia de cor! Projecto de dinamização pedagógica. Comunidade infantil da paróquia de St. Isabel. • pág 501
Perdigão, Gabriela


apresentação

 

JUAN AMBROSIO – ALFREDO TEIXEIRA

Nas sociedades que fizeram a experiência histórica do cristianismo, tem vindo a alargar-se o interesse pelo problema do acesso educativo a uma cultura religiosa. As preocupações nasceram da interrogação sobre se a Escola, enquanto instituição que tem um papel crucial nos processos de transmissão cultural, poderia e deveria integrar, com estratégias próprias, a questão religiosa nos itinerários educativos que é chamada a gerir. Teoricamente, a discussão distingue-se dos debates acerca do lugar das religiões na escola, embora, sob o ponto de vista pragmático, os dois debates possam apresentar zonas de mútua implicação, como o mostra Jean-Paul Willaime no ensaio que se apresenta neste fascículo da revista COMMUNIO. Por seu lado, Albertino Silva acompanha os debates que se levantaram no Portugal Democrático no âmbito da educação religiosa escolar e Johan Van Der Vloet ensaia uma definição de “educação religiosa”, esclarecendo o papel da escola nesse processo educativo. Pode dizer-se, em todo o caso, que a discussão sobre a importância de um acesso ao substrato religioso das culturas e às dimensões civilizacionais da religião se distancia quer das iniciativas confessionais que visam a inscrição dos adolescentes numa linhagem crente, quer de uma perspectiva laicizante estrita que vê, em toda a inclusão de questões religiosas nas dinâmicas escolares, um atentado à neutralidade do Estado.
O contexto não é já o da hegemonia do paradigma sociológico da secularização, mas sim o da renovada atenção às dinâmicas religiosas no seio das “múltiplas modernidades” (num sentido próximo de modernity at large, segundo Appadurai (1) ), dinâmicas que fazem parte da agenda social, impulsionando a acção política para o ensaio de lógicas que favoreçam o reconhecimento das dimensões civilizacionais das tradições religiosas e a constituição de contextos de aproximação inter-religiosa. Este problema tem uma particular relevância no terreno das estratégias de construção comunitária da Europa. Não admira, pois, que a questão tenha encontrado eco nas redes internacionais de investigação – exemplo disso, a recentemente constituída "rede de trabalho temática" co-financiada pela Comissão Europeia TRES – Network on Teaching Religion in a Multicultural European Society. João Eleutério e Juan Ambrosio estiveram presentes na reunião de lançamento deste Projecto e dão-nos conta, aqui, da sua estrutura e dos seus objectivos e linhas de investigação.
Paradoxalmente, apesar do progressivo reconhecimento do pluralismo e do aprofundamento da secularização nas sociedades europeias, o factor religioso continua a guardar em si uma relevante eficácia simbólica na construção das dimensões imaginárias e afectivas do sentimento de pertença a uma nação. Na experiência europeia mais recente, a Irlanda do Norte e os Balcãs são talvez os exemplos mais paradigmáticos. No caso dos Balcãs, a questão religiosa está, agora, perante um novo contexto: a gestão do pós-conflito e o desafio da formação de “identidades abertas”, como põe em evidência Jeremias Carvalho. Mas a reactivação das referências religiosas não se circunscreve ao domínio do nacionalismo. Neste tempo em que o capital simbólico do Estado-Nação foi abalado por políticas de promoção da identidade europeia parece favorecer a reactivação de identidades intermédias, não apenas geográficas, mas também identidades culturais determinadas por diferenças linguísticas e religiosas – identidades que seriam uma espécie de “pátria portátil”. (2)
As deslocações populacionais, que promovem encontros culturais inéditos e, ao mesmo tempo, fragilizam as fronteiras que organizavam os diferentes sistemas culturais constituem um outro campo de reflexão sobre o lugar das questões religiosas na escola. Neste eixo, encontramos um conjunto argumentativo que apela para o estudo das religiões na convicção de que esse conhecimento vai poder gerar competências específicas para a gestão da interculturalidade e contextos favoráveis de integração das minorias e das comunidades imigrantes. (3) Neste eixo de observações, a Escola é vista como espaço de laicidade mediadora que pode promover a socialização das diferenças, através de estratégias de reconhecimento, segundo vias que não encerrem as diferenças na genealogia dos comunitarismos, mas as integrem nos projectos comuns de cidadania participada. Conhecer as religiões é, assim, aprofundar a democracia e cuidar do bem comum. Nesta linha, Miguel Ponces de Carvalho apresenta-nos uma experiência singular, a “Estrutura de Missão para o Diálogo com as Religiões” (Religare), organismo do Estado português cuja missão resume em três pontos: promover o diálogo com as religiões, tendo em vista um melhor conhecimento da realidade religiosa do nosso País; promover o respeito e o afecto mútuo entre as diversas comunidades religiosas entre si e com o conjunto da população portuguesa; promover a abertura dos diferentes grupos religiosos aos problemas relacionados com as intensas correntes migratórias.
Isabel Varanda recorda que a diversidade das espécies é um dos segredos da sobrevivência e, portanto, uma das condições de vida. Apesar disso, continua a autora, “chegados ao pórtico do terceiro milénio, parece que a humanidade ainda não está preparada para acolher a eclosão de uma civilização planetária, multicultural e multi-religiosa”. Contextualizar a problemática em jogo, centrando a atenção numa característica do mundo Ocidental – a iliteracia emocional – que constitui um obstáculo significativo ao desenvolvimento de uma cultura multicultural e multi-religiosa, é o caminho que nos é proposto. Atentas a este problema parecem estar as sensibilidades que promovem, na nossa sociedade a patrimonialização da diversidade. Num tempo em que florescem sensibilidades votadas à preservação da diversidade, seja a “biodiversidade” ou a “etnodiversidade”, pode falar-se, também, de um interesse pela “religiodiversidade”. Neste sentido, pode dizer-se que está a crescer nas sociedades contemporâneas o interesse pela religião-património.
Importa considerar, ainda, que boa parte dos debates sobre a cultura religiosa na Escola se desenvolvem no terreno dos diagnósticos que apontam para a necessidade de facilitar o acesso ao universo simbólico das religiões. Desse conhecimento dependeria a própria legibilidade do mundo – estamos no quadro do que se pode designar de “semiotização” do religioso. Em 2002 foi tornado público um relatório pedido pelo Ministro da Educação Nacional de França, Jack Lang, a um conhecido estudioso dos fenómenos comunicacionais, Régis Debray. O texto, de ampla circulação nos fóruns interessados por este debate, fazia uma síntese da argumentação que sustentava a necessidade de introduzir no sistema de ensino uma forma organizada de acesso ao universo das expressões religiosas, enumerava os constrangimentos que tal iniciativa teria de enfrentar e avançava, ainda, algumas recomendações de natureza organizativa. No seguimento das recomendações deste relatório, foi criado, em França, o Instituto Europeu de Ciências das Religiões, cujo presidente se entrevista neste fascículo da COMMUNIO. No plano de análise em que se situa o “relatório Debray”, a necessidade de estudar as religiões decorre da evidência de que não é possível ler muitas das produções culturais das sociedades – pensamento, arte, modos de vida, representações sociais, etc. – sem o conhecimento dos códigos religiosos. Tal conhecimento é, para Debray, uma forma de “historicização” da experiência do mundo. Armindo Vaz concretiza esta leitura no domínio da relevância cultural das literaturas bíblicas. Tolentino Mendonça considera que a mediação cultural é um terreno privilegiado de desenvolvimento da educação religiosa escolar, uma vez que o texto bíblico participa no mosaico que é a construção do mundo, ao mesmo tempo que viabiliza e facilita a sua legibilidade – a mediação cultural é uma língua franca na qual se pode apostar como canal de transmissão religiosa.
Na secção Perspectivas, recolhemos um breve ensaio de Cristina Delgado Teixeira sobre o compositor português Fernando Lopes Graça e um depoimento de Artur Morão sobre Mozart, aproveitando a coincidência feliz das efemérides musicais celebradas no ano de 2006. Fechamos este fascículo com a apresentação de um projecto formativo cristão: Gabriela Perdigão apresenta-nos o projecto “Despertar estético da fé”, experiência que privilegia o acesso estético à experiência do mundo como lugar de descoberta da fé.

(1) Cf. Arjun APPADURAI, Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization. Minneapolis, London: University of Minnesota Press, 1996.
(2) Cf. Jean-Paul WILLAIME, Religions et l’unification européenne. In: Grace DAVIE & Danièle HERVIEU-LEGER, dir., Identités religieuses en Europe. Paris: La Découverte, 1996, 293.
(3) Cf. Marie MCANDREW, Immigration et diversité à l’école: le débat québécois dans une perspective comparative. Montréal: Les Presses de l’Université de Montréal, 2001. EUROPEAN COMMISSION, GROUP OF POLICY ADVISERS, Legal Aspects of the Relation between the European Union of the Future and the Communities of Faith and Conviction: The Role of These Communities and Co-operation for a Common European Future. Symposium Report, November 12-13, 2001.

 

 
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