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Titulo do Artigo
Autor
Ano XXIII • 2006-09-30 • nº 3 •
Dignidade Humana e Pessoa
 
palavra-chave
 
   

artigos
Pessoa e história na Bíblia • pág 263
Neves, Joaquim Carreira das
A Igreja católica e os direitos humanos • pág 275
Ballestrem, Karl Graf
Natureza humana e bioética. A propósito de Francis Fukuyama • pág 295
Mendonça, Marta
Dignidade humana e pessoa. A disciplina da atenção no pensamento antopológico de Simon Weil • pág 305
Pinto, Maria José Vaz
Perdoar o imperdoável? Jankélécitch e Derrida - a propósito de uma questão que deve permanecer em aberto • pág 323
Tück, Jan-Heiner
O pensamento da Igreja em relação às migrações humanas • pág 337
Pedro, Rui M. Silva
Que vida merece ser vivida • pág 351
Antunes, Nuno Lobo
Perda ou manutenção da dentidade cultural • pág 355
Moniz, Maria Botelho
Fernando Pessoa e as pessoas dos seus heterónimos • pág 361
Matos, Vitalina Leal de
A "Gramática do Assentimento" de J.H. Newman • pág 373
Dominguez, Luis Miguel Hernandez


apresentação

M. LUISA FALCÃO – M. LUISA RIBEIRO FERREIRA

São tempos difíceis, estes em que vivemos, onde certos conceitos que pareciam claros e nítidos se diluem. Um deles é justamente o da pessoa humana e da sua dignidade única. A Bíblia e a Tradição  cristã iluminam estas realidades de forma inaudita revelando que, ao enviar-nos o seu Filho, Homem entre os homens, Deus confere às Pessoas que nós somos a espantosa dignidade de nos tornarmos seus filhos em Cristo.

Há, contudo, mundivivências e práticas que ignoram ou se afastam desta forma de olhar  a dignidade da pessoa. Sabemos igualmente que existem culturas que aceitam diferentes estatutos para escravos, mulheres e outros "filhos de deuses menores".

Certo tipo de investigação de ponta, nomeadamente nas áreas da biologia, zoologia e ecologia, levanta problemas que levam alguma ética contemporânea a interrogar-se sobre a exclusividade do conceito de pessoa enquanto aplicado aos humanos. Hoje debatem-se também questões fracturantes quanto à aceitação da tese de que todos os homens são pessoas (mesmo deficientes profundos, por exemplo).

São problemas inquietantes que não devemos escamotear, poi correríamos o risco de, neste clima de confusão, nos deixarmos abalar por falta de reflexão esclarecedora. No debate filosófico, Kant poderá ainda ser um guia, um ponto de referência - para ele a pessoa é sempre um fim em si mesmo e nunca um meio, e portanto nunca pode ser usada ou manipulada. Mas acima de tudo, teremos sempre de procurar a resposta úiltima e definitiva no desígnio de amor de Deus, na palavra de Cristo e na voz da nossa Mãe, a Igreja. É nesta perspectiva de propor uma serena reflexão sobre os fundamentos da dignidade humana e do que significa ser pessoa que o presente número da COMMUNIO foi pensado. É nossa esperança que as palavras de todos os que colaboraram neste número possam ajudar os leitores a aprofundar estas questões de forma séria e serena.

Joaquim Carreira das Neves, em "Pessoa e História na Bíblia", releva a dimensão comunitária e dinâmica da pessoa, presente na Bíblia, mostrando que no Antigo Testamento as pessoas se afirmam, relacionam e confrontam no palco da história, sendo Deus a personagem-pessoa priviligiada. O Novo Tesatamento traz-nos uma mutação na antropologia pois o ponto de partida deixa de ser um povo mas sim uma pessoa - Jesus Cristo. Jesus é simultâneamente homem mortal e Verbo eterno, abrigando duas naturezas numa só pessoa, o que implica um novo paradigma: "a antropologia é a mesma da criação, mas também é diferente porque fundada numa soteriologia nova."

O artigo de Marta Mendonça " A Natureza Humana e Biotécnica a propósito de Francis Fukuyama" trata de um teme fundante para quem se debruça sobre a pessoa e adignidade humana. Partindo das concepções de um cientista de renome, alerta-nos para alguns dos problemas mais prementes da biotécnica contemporânea, pronunciando-se criticamente sobre uma abordagem deste assunto em termos de genética comportamental  e de antropologia cultural, alertando para as consequências gradualistas deste tratamento.

Karl Graf Ballestrem, ao reflectir sobre a relação da Igreja católica com os direitos humanos, depara-se com uma espécie de paradoxo: a convivência de duas tases contrárias. A primeira sustenta que os direitos humanos surgiram num contexto cultural cristão e contêm elementos do pensamento cristão; a segunda realça a atitude céptica e mesmo hostil que, até à segunda metade do sec. XX, o cristianismo manteve perante a ideia dos direitos humanos. O artigo  desenvolve-se na tentativa de resolver esta aparente contradição, clarificando o conceito em causa, analisando-o sobre diferentes perspectivas (histórica, sociológica, política) e sublinhando a recente mudança de posição da Igreja católica, consequência de toda uma séria de vicissitudes experenciadas no sec. XX.

Jean-Heiner TucK, no seu artigo "Perdoar o imperdoável", comenta as posições de Jankélévitch e Derrida acerca da (im)possibilidade de perdão aos responsáveis do Holocaustro. A partir desta "questão que deve permanecer em aberto", o autor alarga a sua reflexão ao debate filosófico-teológico em torno do problema do abismo da culpa humana, da justiçamdivina e do amor-misericórdia de Deus.

Em "O pensamento da Igreja em relação às migrações humanas", Rui Pedro sublinha a universalidade da condição migrante do homem e recorda como, desde o AT, Deus se revela no meio do povo que caminha. Ao longo da história, a Igreja, ela própria em movimento de reflexão teológica e aprendizagem pastoral, tem vindo a alargar a sua visão do problema e abrir os braços aos novos peregrinos do mundo, lançando assim os fundamentos de uma autêntica teologia e pastoral das migrações. Escrito no Ano Europeu da Mobilidade dos Trabalhadores, o artigo integra uma útil biografia do Magistério da Igreja sobre este assunto, desde Pio XII a Bento XVI.

Maria José Vaz Pinto, em "A disciplina da atenção no pensamento antropológico de Simon Weil", debruça-se sobre a questão da dignidade humana, uma preocupação sempre presente na vida e obra desta filosofa. Centrando-se no tema da atenção, entendida "como realidade fulcral na descoberta de nós mesmos, dos outros e de Deus" atende particularmente a quatro tópicos: O projecto de uma Declaração Universal dos Deveres para com os Seres Humanos" e a ideia de obrigação em L'Enracinement; a disciplina da atenção como caminho da inteligência e do amor (com particular incidência em Espera de Deus); os equívocos da filosofia personalistas, na óptica de S. Weil; as exigências da nova santidade.

O testemunho de Nuno Lobo Antunes, "Que vida merece ser vivida", situa-se num registo só aparentemente diferente - a experiência de um pediatra neurologista e as dificuldades inerentes à função de curador/conselheiro. Na verdade continua a ser central o problema da dignidade da pessoa humana e do papel forte do amor, particularmente o amor maternal, mos cuidados prestados à criança deficiente.

Maria Botelho Moniz, em "Imigração - perda ou manutenção da identidade cultural", testemunha uma experiência de contacto de trabalho com imigrantes, mostrando como Portugal, na sequência de uma tradição milenar, re-aprende a ser país de acolhimento, tentando lidar com novas experiências e vivências, procurando integrá-las na sociedade em que vivemos, num respeito comum pelo que é nosso e pelo que vamos recebendo.

Na secção Perspectivas publicamos dois artigos. Levando o tema da pessoa para o registo da literatura, Vitalina Leal Matos, em "Fernando Pessoa e as pessoas dos seus heterónimos", reflecte sobre os heterónimos do poeta poruguês, sustentando que este desdobramento de personalidade não se limita a apresentar pseudónimos mas sim diferentes personagens que, correspondendo a autores independentes e bem diferenciados, convivem num mesmo eu, levantando desafios e questões ao tema da identidade pessoal.

Reproduzimos ainda a conferência de Luís Miguel Hernadez Dominguez sobre o livro de J.H. Newman, A Gamática da Assentimento, em que é apresentado como uma obra prima - um texto escrito no sec XIX que se mantém actual nos nossos tempos. Hernado Dominguez faz dele uma leitura em três enfoques: a visão de que Newman tem do homem, a sua Cristologia e a sua visão da greja.

 

                                                                   

 
  KEOPS multimedia - 2006