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Titulo do Artigo
Autor
Ano XXIII • 2006-06-30 • nº 2 •
As bodas de Caná
 
palavra-chave
 
   

artigos
A transformação da Água em vinho. As bodas de Caná como sinal. • pág 135
Rebic, Adalbert
As bodas de Caná. Um casamento judaico? • pág 143
Dolna, Bernhard
"Manifestou a sua glória". Cruzamentos do imanente e do transcendente em Jo 2,1-11 • pág 157
Gourgues, Michel
Maria em Caná • pág 169
Zupancic, Marija
Os magos a caminho de caná • pág 177
Bourgeois, Daniel
St. Agostinho e a comunidade cristã de Hipona. Um testemunho de "apropriação" do texto bíblico • pág 189
Eleutério, João Marques
Bodas de Caná. A polivalência simbólica de um tema raro na arte portuguesa • pág 199
Azevedo, Carlos A. Moreira
"Vinum non habent". As bodas de Caná como exemplo de caridade no Purgatório de Dante • pág 205
Reguzzoni, Giuseppe
A Alegria • pág 215
Mónica, Irmãzinha
O contexto do Concílio • pág 219
Maier, Hans
Percurso teológico de Joseph Ratzinger. II - Teologia da história em S. Boaventura e na actualidade • pág 225
Galvão, Henrique de Noronha
Evolução e criação • pág 243
Facchini, Fiorenzo
Sintese catequética avançada. Uma proposta de introdução aprofundada ao cristianismo (curso pela internet) • pág 251
Ambrosio, Juan Francisco


apresentação

H. NORONHA GALVÃO – JOÃO MARQUES ELEUTÉRIO

Entre os “mistérios da vida de Jesus”, as bodas de Caná, não sendo dos mais fundamentais e decisivos, é dos que exerce mais fascínio não só pela sua beleza descritiva mas sobretudo pela riqueza de significado que a sua profunda simbologia lhe imprime, num surpreendente desnível entre a importância que se poderia prever para uma simples festa de casamento e o alcance que circunstâncias aparentemente imprevisíveis lhe acabaram por conferir. A primeira responsável pelo desencadear dos acontecimentos é Maria, uma figura geralmente discreta nos evangelhos, mas que tudo leva a crer foi a primeira a ser convidada para o banquete, à qual se juntou o seu filho Jesus com os discípulos (Jo 2,1s). O que finalmente vai ser o mais importante da narrativa é provocado por um acontecimento fortuito, o facto de faltar o vinho. Tudo se passa então entre Maria, Jesus e os servos. Só quando o milagre da transformação da água em vinho já foi realizado, se menciona alguém com responsabilidade pela organização do banquete, o chefe de mesa, e naturalmente aqueles que eram o verdadeiro centro da festa, os noivos, mas que só como destinatários inconscientes do sucedido são referidos. Para além do significado imediato do acontecimento do milagre – libertar os noivos do embaraço –, a sua importância real é outra e situa-se a um nível desconhecido da maior parte dos convidados e dos próprios noivos. Só quem presenciou de perto o desenrolar do sucedido, teve conhecimento do seu carácter extraordinário. Mesmo assim, os servos que nele tiveram uma intervenção directa não se encontravam em condições de se aperceberem do seu real significado e alcance. Só Maria, como aquela que provocou todo o processo, sabe o que, verdadeiramente, está em jogo. Ou talvez não seja tanto assim, pois que a mãe de Jesus, movida pela fé, muitas vezes se colocou no centro do mistério do seu filho sem se dar conta de todo o alcance do que acontecia, do seu sentido pleno no horizonte providencial e divino do mistério.
S. João, esse, ao apresentar-nos a sua narração já sabe do que se trata. Ao mistério que se revela chama-lhe a “glória” de Jesus – o que, neste evangelista, significa o cumprimento da vontade do Pai, a única razão de ser do Filho. Se tivermos em conta todo o decorrer do evangelho de S. João, apetece ver neste relato das bodas de Caná não apenas o que a memória do discípulo amado de Jesus recorda, mas também o resultado das longas conversas que certamente houve entre Maria e aquele discípulo que Jesus, na cruz, confiou a sua mãe. A narrativa tem uma densa simplicidade que denota um intenso amadurecimento da memória, de tal modo que só a convivência entre a principal responsável pelos acontecimentos e o discípulo que os narra parece podê-la explicar cabalmente. Tanto mais que o mistério aqui manifestado só por  uma complexa e subtil rede de conotações, abrangendo todo o evangelho de S. João, revela toda a sua riqueza. E há um terceiro interveniente que, em toda esta história, está sempre presente ainda que oculto na discrição que lhe é própria: o Espírito. Este, nota João, foi dado por Jesus aos seus depois da sua ressurreição (cf. Jo 7,39). É o Espírito que os faz então entender finalmente o que Jesus durante a sua vida terrena fizera e ensinara, mas cujo significado último lhes permanecia escondido (Jo 16,13s; cf. 2,21s).
É assim que o paradoxo resulta ainda mais gritante, quando lemos    que, por um lado, Jesus acusa haver algo de inoportuno na intervenção de sua mãe: “Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo?”, ao mesmo tempo que, por outro lado, Maria se comporta como estando consciente de que, para além deste aparente carácter inoportuno, há um outro tipo de oportunidade ao nível do “tempo de graça” (kairós) de Deus em que ela, a mãe de Jesus, tem uma palavra a dizer: “Fazei o que Ele vos disser”. Esta ordem ou convite ficará como a sigla do lugar e da missão que definem a vocação da mãe de Jesus na história da Salvação.
É certo que Jesus diz: “Ainda não chegou a minha hora”. Mas quando “a hora chegar” – na última ceia em que Jesus, estando prestes a “passar” (sentido da Páscoa) para o Pai, há-de levar ao extremo o seu amor pelos seus (cf. Jo 13,1) – tratar-se-á afinal, embora em sentido novo, da mesma hora nupcial das bodas de Caná. Só que as núpcias de Jesus não são como as de Caná, muito embora estas lhe possam ter servido para realizar o “sinal” do “vinho bom (kalós)” da última e definitiva alegria dada por Deus aos homens. Mas, na última ceia, o noivo é o servo que lava os pés aos discípulos; o amor que anuncia é o da dádiva total por aqueles a quem ama, pela Igreja com quem – segundo os outros evangelistas – consuma a antiga Aliança (Mc e Mt) ou realiza a nova Aliança (Lc e também Paulo). A hora que ainda não chegara em Caná (daí o carácter “ainda” inoportuno da manifestação da sua glória), chega na última ceia – e esta é a mesma hora do seu serviço último na cruz (cf. Jo 12,23s; 17,1). Por isso, é esta a verdadeira e definitiva “glorificação” do Filho que se fez servo (cf. Fl 2,6-11). A ressurreição de Jesus é a manifestação dessa sua verdadeira glória, glória que o Espírito faz reconhecer presente na própria morte do crucificado pelo amor “até ao fim (telos)” que representa, como o próprio Jesus dissera (Jo 13,1). Mas agora, após a morte e ressurreição, o Espírito ilumina a memória do discípulo amado que assim sabe ver nessa hora que em Caná ainda não tinha chegado o sinal da hora futura.
Dito isto, fica ainda por explorar um vasto campo de significação a vários níveis das bodas de Caná, que vai desde a análise exegética à interpretação litúrgica, espiritual e moral de que é testemunha a história da Igreja, antiga e actual.
Adalbert Rebic apresenta a prodigiosa transformação da água em vinho, nas bodas de Caná, como o sinal cujo significado e alcance se tornam patentes ao serem analisados no mais largo contexto bíblico, não só do NT mas também do AT. Expressões e realidades surgem aqui, por um lado, na sequência de uma longa tradição anterior, mas desvendando como profecia, por outro lado, o novo sentido da missão de Jesus, segundo um percurso que em Caná ainda está no seu início. De modo semelhante, Bernhard Dolna interroga-se sobre o significado destas bodas nupciais judaicas, que assumem, com Jesus e o seu trajecto, uma singularidade cheia de sentido.
É impossível evitar totalmente as repetições nas sucessivas análises que se propõem do texto evangélico. E, no entanto, novas perspectivas vão enriquecendo a sua leitura segundo metodologias diferentes. Michel Gourgues, no seu artigo procura acompanhar a sequência das cenas em que a acção se desenrola, para chegar, por fim, sob a forma da alternância entre o que pertence à superfície do texto e à sua profundidade de sentido, àquilo que chama o cruzamento do imanente com o transcendente. De modo particular, a figura de Maria merece ser meditada no papel que desempenhou em Caná o que constitui o tema do artigo de  Marija Zupancic.
Com o título sugestivo Os magos a caminho de Caná, o artigo de Daniel Bourgeois investiga o modo como diversas tradições, ao longo da história da Igreja, interpretaram a perícope das bodas de Caná no âmbito do tempo litúrgico do Natal e da Epifania. Trata-se do mistério da Encarnação do Verbo e Filho de Deus que, assim, intervém na história dos homens manifestando a sua glória. Uma outra testemunha importante da Tradição, do sec. V, é St. Agostinho, cujos comentários nos são recordados e explicados por João Eleutério. A exploração extrema da simbologia dos textos, ao gosto da época, ao ser utilizada pelo génio do bispo de Hipona, conduz a uma visão profundíssima do mistério. Também a iconografia e a literatura permitem conhecer a riqueza simbólica e exemplar das bodas de Caná, quer através das representações da arte figurativa, como nos mostra o contributo de D. Carlos Azevedo, quer através da poesia de Dante na Divina Comédia, mais concretamente na parte referente ao Purgatório, analisada por G. Reguzzoni.
Como viver a alegria cristã que as bodas de Caná, em toda a paradoxia do seu mistério, nos ensina? A Irmãzinha Mónica apresenta-nos o exemplo de uma comunidade que vive a espiritualidade do Padre Carlos de Foucauld, partilhando no bairro do Prior Velho o dia a dia da sorte dos mais pobres.
Na secção das Perspectivas, dentro da série de artigos que tencionamos divulgar assinalando os 40 anos do Vaticano II, apresentamos neste número uma apreciação de Hans Maier do contexto em que o concílio foi convocado e decorreu. Publica-se ainda a segunda parte do estudo de H. Noronha Galvão sobre o Percurso Teológico de Joseph Ratzinger: A Teologia da História em S. Boaventura e na actualidade. Pelo seu interesse para uma questão de muita actualidade, reproduz-se um artigo do especialista em paleontologia humana Fiorenzo Facchini, da Universidade de Bolonha, sobre Evolução e criação.
 Por fim, Juan F. Garcia Ambrosio dá a conhecer uma notável iniciativa da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, que consiste num curso de Síntese Catequética Avançada por E-Learning.


 

 
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