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Titulo do Artigo
Autor
Ano XXII • 2005-12-31 • nº 4 •
Amar
 
palavra-chave
 
   

artigos
O Cântico dos Cânticos pode servir a uma educação dos afectos? • pág 393
Mendonça, José Tolentino
O amor. Uma gramática para dizer Deus • pág 401
Ambrosio, Juan Francisco
Para amar o amor. A vocação do ser humano, segundo St. Agostinho • pág 419
Silva, Paula Oliveira
Para uma antropologia cristã da afectividade • pág 431
Martins, António Manuel Alves
Do amor desejo ao amor mandamento. Reflexões sobre o conceito de amor em Levinas • pág 451
Beckert, Cristina
Afectividade, corporeidade e alteridade. desafios educativos. • pág 459
Reimão, Cassiano
O amor a Nossa Senhora na devoção popular. Cânticos • pág 475
Cartageno, António
O ensino como acto de amor. A propósito do livro de G. Steiner, "As lições dos mestres" • pág 481
Ferreira, Maria Luísa Ribeiro
A educação sexual na escola. recensão • pág 487
Valente, Maria Odete
Cântico espiritual • pág 489
Cruz, S. João da
Poemas • pág 495
Matos, Vitalina Leal de
Ética, solidariedade internacional e compaixão. O Necessário novo paradigma • pág 496
Nobre, Fernando José de la Vieter Ribeiro
Introdução ao Cristianismo. Prelecções sobre o "Símbolo Apostólico". Recensão • pág 505
Galvão, Henrique de Noronha
Índice geral anual • pág 509
A Redacção


apresentação

M. LUÍSA FALCÃO – M. LUÍSA RIBEIRO FERREIRA – JUAN AMBROSIO


Como acontece com as coisas verdadeiramente grandes, quando temos de falar delas, damo-nos conta de como as palavras se nos desfazem entre as mãos ao tocá-las na tentativa de nos exprimirmos. Nós, que vivemos no tempo e nesta terra, que de tudo nos vamos apercebendo através do devir de que somos feitos, intuímos (tantas vezes numa mescla dolorosa de esperança e angústia) que para lá das sombras e das imagens no espelho há, tem de haver, uma plenitude de certeza.
Que de palavras temos de nos servir é nossa condição humana. Que os silêncios dizem, tantas vezes, mais do que a palavras, é uma lição de humildade para quem tem de falar.
Este número da COMMUNIO, cujo título é o maior verbo do mundo, quereria deixar aberto o caminho que leva da palavra à reflexão e desta à contemplação deslumbrada do mistério e do rosto daquele para quem Ser é Amar.
Antes de entrarmos num breve comentário aos artigos, recorremos à palavra tornada intemporal de alguém que certamente já sabe, desta vez sem sombras nem dúvidas, o que é o deslumbramento de amar.

A Pura Face
Como encontrar-te depois de ter perdido
Uma por uma as tardes que encontrei
Ó ser de todo o ser de quem nem sei
Se podes ser ao menos pressentido?
Não te busquei no reino prometido
Da terra nem na paixão com que eu a amei
E porque não és tempo não te dei
Meu desejo pelas horas consumido.
Apenas imagino que me espera
No infinito silêncio a pura face
Pra’ além da  vida morte ou primavera
E que a verei de frente e sem disfarce.
     (Sophia de Mello Breyner Andersen)

A partir de uma interrogação “O Cântico dos Cânticos pode servir a uma educação dos afectos?” J. Tolentino Mendonça apresenta um texto que emerge da leitura do texto bíblico e que pode ajudar na elaboração de um discurso pastoral, capaz de mostrar como a dimensão afectiva humana é uma experiência de criação e recriação que coloca os seus protagonistas na órbita de Deus. Na nossa tentativa e ousadia de dizer Deus é, de facto, necessário utilizar uma linguagem que seja simultaneamente capaz de respeitar a identidade de Deus e a identidade do ser humano. No artigo “O amor. Uma gramática para dizer Deus”, Juan Ambrosio sugere um itinerário para responder a este desafio. Em “Para amar o Amor: a vocação do ser humano segundo St. Agostinho”, Paula Oliveira e Silva apresenta-nos uma das teses maiores deste Padre da Igreja – o processo de conversão como uma aprendizagem de Deus. Deus é o termo de um percurso, Aquele que acalma o nosso coração inquieto. A conversão é um acto de amor. Tudo o que amamos e todos os nossos actos participam no Amor soberano que é a essência divina.
A fé é portadora de um irrenunciável apreço pela afectividade e pela corporeidade. Explicitar esta compreensão é o objectivo que António Martins nos propõe na sua reflexão “Para uma antropologia cristã da afectividade”. No artigo “Do Amor-desejo ao Amor-mandamento”, Cristina Beckert fala-nos de Lévinas que, tal como Platão, contesta o mito do Andrógino para exemplificar o amor. O filósofo judeu distingue desejo ontológico e desejo ético. O amor paixão aniquila o Outro pela posse; é um amor que leva à morte. Há que procurar um amor que não parta da incompletude mas da radical alteridade. Segundo Levinas, o ético é o único sentido para a religião. Nele o divino é ausência que obriga a contemplar o rosto do Outro, vendo nele a transcendência.
“O projecto da existência humana institui-se como projecto de abertura e de compromisso em relação aos outros e ao mundo [...]” Com estas palavras começa Cassiano Reimão o seu artigo “Afectividade, corporeidade e alteridade. Desafios educativos”, com o qual pretende partilhar uma série de reflexões prospectivas e de desafios educativos acerca da afectividade e do projecto de existir.
Porque a poesia é uma das linguagens mais capazes de expressar o amor, este número da COMMUNIO não podia deixar de fazer eco dessa  mesma realidade, apresentando textos que já são de sempre e textos que são de hoje. S. João da Cruz (1542-1591) compõe o seu “Cântico Espiritual” numa fase de extremo sofrimento e privação. Mas é justamente do fundo desta busca dolorosa, que a experiência de amar sem condições torna fecunda, que brota, luminosa e belíssima, uma canção de amor entre a Alma e o seu Esposo. Luís Filipe Thomaz dá-nos dela uma tradução de rara sensibilidade. Em composições poéticas inéditas, Maria Vitalina Leal de Matos fala de várias modalidades de amar: reflecte, recorda e espera; canta e louva, sem se cansar, a glória do Senhor.
É um comprovado facto de cultura, e também eclesial, que o povo português é um povo mariano. O Pe. António Cartageno, compositor e director artístico do Coro do Carmo de Beja, traz até aos leitores da COMMUNIO um pouco da riquíssima tradição popular religiosa do Baixo Alentejo. É o “cante” alentejano à Virgem Maria: à Senhora das Dores, a Maria como intercessora junto do Filho, à Mãe do Menino do presépio na época natalícia. Outras zonas do país são igualmente referidas neste olhar rápido mas conhecedor sobre o amor português a Nossa Senhora na devoção popular.
Num livro em que reflecte sobre As Lições dos Mestres, Georges Steiner fala-nos do ensino como acto de amor. O que foi objecto de uma recensão de Maria Luísa Ribeiro Ferreira. A propósito da discussão sobre o lugar da educação sexual na escola e sobre o seu estatuto, Maria Odete Valente faz-nos a apresentação de um livro de Marie-Paule Desaulniers, Faire l’education sexuelle à l’école.
Na secção de Perspectivas, a COMMUNIO apresenta um texto de Fernando Nobre que, reflectindo acerca de duas correntes de pensamento antagónicas – a eleição do “mercado” como novo “deus” e o desenvolvimento de uma cidadania global preocupada com valores como a ética, a solidariedade e a compaixão – nos fala na urgência e na necessidade de um novo paradigma para a construção do futuro. Em seguida, H. Noronha Galvão faz a recensão da obra que tornou Joseph Ratzinger, já então um renomado teólogo – até pelo desempenho que havia tido no Concílio Vaticano II –, um nome influente nos meios intelectuais internacionais: Introdução ao cristianismo, que acaba de ser traduzida em Portugal.
Aos leitores da revista é feita, ainda, a apresentação do novo sítio da COMMUNIO na internet.

 
  KEOPS multimedia - 2006