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Titulo do Artigo
Autor
Ano XXII • 2005-06-30 • nº 2 •
O Baptismo de Jesus
 
palavra-chave
 
   

artigos
O baptismo de Jesus • pág 135
Palos, José António Morais
Realização plena do baptismo de Jesus Cristo • pág 147
Machan, Richard
Mistério da vida pública de Jesus. Mistério da luz de Deus • pág 155
Mickiewicz, Franciszeck
A questão ecuménica e o reconhecimento do baptismo na Igreja antiga • pág 167
Eleutério, João Marques
A questão ecuménica e o reconhecimento do baptismo na Igreja antiga • pág 167
Eleutério, João Marques
A água na liturgia baptismal • pág 177
Silva, Luís Manuel Pereira da Silva
"O Baptismo de Jesus" de Piero della Francesca • pág 197
Crippa, Maria Antonietta
As tentações de Cristo e os seus reflexos na literatura • pág 205
Fiorini, Pierluigi
O "sotaque" portuense da festa de S. João • pág 213
Azevedo, Carlos A. Moreira
Revitalizar a iniciação cristã • pág 217
Pereira, António Novais
O futuro da Europa • pág 227
Ratzinger, Joseph
A vida humana. Aspectos biológicos • pág 239
Santos, Alexandre Laureano


apresentação

H. NORONHA GALVÃO – MARIA C. BRANCO

É este o primeiro número da revista COMMUNIO, publicado após a eleição do Papa Bento XVI, um dos seus fundadores, ainda como teólogo Joseph Ratzinger. A ideia vinha já sendo acalentada por Hans Urs von Balthasar que julgava necessário criar-se um órgão de diálogo com que a fé cristã fomentasse o encontro das culturas, diversas conforme as regiões e em contínua mutação. A ideia da revista começou a ganhar forma no ano 1969 em Roma, também com o contributo de Henri de Lubac, na primeira reunião da Comissão Teológica Internacional,1 recentemente fundada pelo Papa Paulo VI para dar uma base de reflexão teológica à aplicação das decisões do concílio ecuménico Vaticano II.
Assinalando esta circunstância, publicamos a última intervenção pública do Cardeal Joseph Ratzinger, antes de ser eleito Papa, sobre A Europa na crise das culturas. Sintomaticamente, teve como ocasião a entrega que lhe foi feita do prémio “São Bento pela promoção da vida e da família na Europa”, no convento de Santa Escolástica, em Subiaco, a 1 de Abril de 2005, na véspera da morte do Papa João Paulo II. Havia de lhe suceder, escolhendo precisamente o nome de Bento XVI. Reservamos para mais tarde uma homenagem mais apropriada à importância da sua figura e ao significado que tem para a Revista Internacional Católica.

Prosseguindo a série dedicada aos Mistérios da vida de Jesus,  chegámos ao Baptismo de Jesus no Jordão por João Baptista. Acontecimento paradoxal que assume uma relevância decisiva na vida de Jesus, pois termina então o período oculto da sua vida e se inicia a sua actividade pública em Israel. Como entender que, sendo Jesus o santo e o justo, decida receber esse baptismo de penitência com que João convidava os pecadores à penitência e à mudança de vida? Qual o significado dos motivos com que os evangelhos se referem a tal acontecimento? Como entender o nexo entre o que aconteceu e o facto de Jesus se dirigir, imediatamente depois, para o deserto onde foi sujeito às tentações do demónio? Que ligação estabelecer entre o baptismo de Jesus no Jordão e o baptismo que ele próprio havia de instituir como rito de iniciação cristã e forma de se ser admitido na comunidade dos que o seguissem pela fé? Que simbolismo profundo se manifesta, segundo a tradição bíblica e cristã, na realidade da água, símbolo tão central em qualquer dos tipos de baptismo? Como entender, em toda a sua amplidão de sentido, o mistério da vida pública de Jesus, sa-bendo nós que, na linguagem cristã, mistério indica sempre a realidade divina que, através de acontecimentos e realidades sensíveis, se manifesta ao mesmo tempo que se oculta – e que é “mistério” não por falta de inteligibilidade, mas devido a uma sua plenitude tal que a minha inteligência apenas a pode contemplar na humilde atitude de quem, assim, acede à sua mais exaltante dimensão de transcendência?
Poderemos ainda multiplicar as interrogações, se passarmos a considerar o concreto da vida cristã que, ao longo da sua história e nos dias de hoje, tem sido e continua a ser interpelada por esse acontecimento maior da vida de Jesus Cristo. Não será no espaço que temos à nossa disposição que todos os aspectos poderão ser considerados nem todas as respostas formuladas, ainda que não tenhamos querido descurar as dimensões ecuménica e cultural que são próprias da revista COMMUNIO. Julgamos, no entanto, oferecer neste número contributos significativos que possibilitem uma melhor aproximação a toda a riqueza e profundidade desta temática.
Do ponto de vista exegético, José António Morais Palos parte do relato do baptismo de Jesus, cuja historicidade é hoje geralmente reconhecida, comparando as suas diversas versões para estabelecer o significado de um acontecimento que, para Jesus, marcou de modo decisivo o início do seu ministério messiânico. Já ao nível de uma reflexão teológico-espiritual, inspirada em Hans Urs von Balthasar, Richard Machan explora toda a riqueza simbólica da narrativa evangélica para determinar grandes linhas de fundo do mistério que então se manifestou. Desse mistério participa o cristão ao receber o baptismo instituído por Jesus Cristo, réplica do seu próprio baptismo no Jordão, embora transcrito para uma ordem nova. O novo baptismo no Espírito surge como cumprimento, através da missão de Cristo de que é fruto, daquela realidade que profeticamente fora anunciada no Jordão. Todo o simbolismo da água ligado ao baptismo é exposto, na base de textos bíblicos, patrísticos e litúrgicos, por Luís Manuel Pereira da Silva, permitindo-nos ver toda a riqueza de registos e aspectos desta linguagem ao serviço da expressão do mistério cristão. Dado o espaço limitado da revista, não foi possível apresentar o desenvolvimento das figuras veterotestamentárias (águas primitivas, dilúvio, êxodo) cuja temática surge, no entanto, noutros contextos.
Franciszeck Mickiewicz parte da consideração dos Mistérios Luminosos propostos pelo Papa João Paulo II para a meditação do Rosário. De facto, é uma verdadeira luz a que nos vem do conhecimento do desígnio de Deus através desses cinco mistérios da vida pública de Jesus (Baptismo, Bodas de Caná, Anúncio do Reino de Deus, Transfiguração, Última Ceia).
Ao longo da história do cristianismo, várias tradições se criaram com diversas sensibilidades a aspectos da mesma fé em Jesus Cristo, tradições a que se ligam geralmente eclesiologias com acentuações particulares. Conciliar o respeito pela identidade do mistério com a preocupação de o tornar mais acessível em contextos eclesiais e culturais diferentes, nem sempre foi fácil, tendo dado azo a tensões que, por vezes, deram mesmo origem a divisões dentro da Igreja. Foi o caso da Igreja ortodoxa oriental que ainda hoje tem reservas quanto à prática do Baptismo na Igreja católica fiel a Roma. Mais sensível aos aspectos antropológicos próprios da pastoral sacramental, o Ocidente, quando se trata do baptismo das crianças, aceita ministrar o sacramento do Crisma (sintomaticamente chamado Confirmação, pois é visto como retomando o sacramento do Baptismo a que confere como que uma nova consistência pelo dom do Espírito) depois de a criança baptizada já ter recebido, na Primeira Comunhão, a Eucaristia. Ora, na dinâmica dos três sacramentos que constituem a iniciação cristã, pertence teologicamente à Eucaristia o lugar último, como consumação dessa iniciação. Sem ser este o único aspecto que impede o reconhecimento do Baptismo católico pela Igreja ortodoxa, ele não deixa de ser referido por João Eleutério que apresenta, do ponto de vista histórico e teológico, os termos em que essa questão ecuménica é discutida hoje entre as duas Igrejas com vista a um desejável entendimento. Já o outro ponto de vista, consentâneo com uma pastoral do Baptismo mais atenta aos aspectos antropológicos, é defendido nesta mesma revista por António Novais Pereira. O seu depoimento tem por fim defender a necessidade de revitalizar, com realismo, a prática da iniciação cristã nas comunidades eclesiais.2
No âmbito da cultura cristã, o quadro de Piero della Francesca, O Baptismo de Jesus, merece da historiadora de arte, Maria Antonietta Crippa, uma pormenorizada e profunda análise, em que se mostra como a pintura, simultaneamente pela fidelidade à tradição e com os recursos próprios da sua época, pode iluminar aspectos teológicos e existenciais da fé cristã. No plano da literatura, é o tema das tentações de Jesus, no deserto, que prende a atenção de Pierluigi Fiorini, em lúcidos comentários ao tratamento desse motivo nomeadamente em obras clássicas como o Paraíso Perdido e o Paraíso Reconquistado de John Milton, ou Os Irmãos Karamazov de Dostoievski.
Não podiam faltar referências à festa de S. João Baptista, tão importante na tradição portuguesa. D. Carlos Moreira Azevedo apresenta uma das suas realizações mais típicas, a festa de S. João no Porto, com a sua história e as suas características actuais.

Na secção Perspectivas, além da conferência do então Cardeal Ratzinger, divulgamos uma interessante exposição sobre A vida humana. Aspectos biológicos, de Alexandre Laureano Santos, que nos parece esclarecedora e de grande actualidade.
Ainda uma palavra para anunciar o novo sítio da edição portuguesa da COMMUNIO na Internet, que está ainda a ser ultimado, e que foi tornado possível pelo apoio da Fundação Banco Comercial Português e pela dedicação de Miguel Madeira, Director de KEOPS multimedia. Queremos deixar aqui a expressão dos nossos agradecimentos.

1 Cf. a evocação destes acontecimentos, por ocasião da celebração, em Roma, dos primeiros vinte anos da fundação das duas primeiras edições da revista (alemã e italiana), in: Communio 9 (1992/4) 346.
2 Estes dois pontos de vista foram já defendidos respectivamente por P. MCPARTLAN, O sacramento do crisma no diálogo entre o Ocidente e o Oriente, in: Communio 15 (1998/2) 152-162, e Peter HENRICI, O crisma, sacramento do Espírito Santo, ibid., 143-151.

 

 
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