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Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XXI • 2004-12-31 • nº 4 •
Habitar
 
palavra-chave
 
   

artigos
Arte de habitar • pág 391
Blanc, Maria Luísa
A arquitectura e o habitar. O labor das mãos e da cultura • pág 399
Correia,João Miguel Amaro
O novo paraíso doméstico • pág 405
Ladeiro, Nuno
O jardim como utopia • pág 409
Cabral, Francisco Manuel da Fonseca Caldeira Cabral
Uma reflexão sobre “o tempo” na arquitectura e implicações no seu ensino • pág 413
Cunha, Luiz Sarmento Carvalho e
Habitar, o lugar da carne • pág 425
Lefebvre, Philippe
Morada de Deus para os homens. Anúncio neotestamentário • pág 437
Söding, Thomas
O espaço social da refeição. Perspectivas cristãs • pág 447
Mendonça, José Tolentino
Habitar o mundo. Quando os cristãos escolheram a cidade • pág 459
Baslez, Marie-Françoise
Hospitalidade cristã • pág 471
Sousa, Pio Gonçalo Alves de
Significado de lugar santo no catolicismo. Reflexões de um geógrafo • pág 475
Levatois, Marc
Clausura: espaço fechado ou horizonte infinito? • pág 485
Tovar, Maria do Carmo
Centro de Estudos Territoriais • pág 489
Rodrigues, Walter
A religião-património. Notas de leitura • pág 495
Teixeira, Alfredo
Congresso Internacional para a Nova Evangelização • pág 499
Paes, Carlos
Taizé, uma parábola de comunhão • pág 509
Fontes, José Luís Inglês Fontes


apresentação

LUÍSA RIBEIRO FERREIRA
ALFREDO TEIXEIRA
JUAN AMBROSIO

Por “habitar” pode-se compreender o modo como nós enquanto espécie, enquanto sociedade humana, imaginamos, praticamos e organizamos o espaço. O território resulta dessa interacção entre as formas sociais e a materialidade do espaço, suscitando objectos muito diversos que são apropriados, segundo modalidades várias, por muitos dos saberes humanos. Na nossa cultura, a raiz oikos parece resumir genealogicamente esses diversos modos de praticar e imaginar o espaço enquanto pertença, conquista, dominação, protecção, sobrevivência, troca, travessia, etc.. Noutras culturas, “habitar” remete para campos semânticos algo diferentes – na língua japonesa, por exemplo, sumai (habitar) está associado às imagens da transparência e do sossego das águas imóveis. Talvez se possa dizer que algo daquilo que de mais interior têm as sociedades humanas se deixa desenhar na materialidade do território, tanto na sua expressão mais telúrica – do socalco duriense ao tatami japonês –, como nas suas dimensões monumentais – das pirâmides do Egipto às Twin Towers. Esta é a nossa ecologia.

No conjunto de ensaios que propomos aos nossos leitores, Mafalda  Faria Blanc fala-nos da “arte de habitar”. Trata-se de “um jeito de instalação no mundo” que nos permite viver em harmonia com uma determinada cultura. Nesta arte, a experiência ecológica e ecuménica têm um papel de relevo. Esse ideal de harmonia encontra nas formas de ideação paisagística um particular lugar de observação, uma vez que, no jardim, natureza e cultura se encontram criativamente. Do ponto de vista do paisagista, Francisco Caldeira Cabral releva a acção do arquitecto como mediador entre a natureza, a cultura e a arte dos jardins. Lembrando nostalgicamente o primeiro jardim que foi o paraíso, os jardins de hoje constituem-se como lugares utópicos, como a compensação  possível para a artificialidade da vida urbana com a qual constantemente nos defrontamos.

O momento que vivemos é, provavelmente, aquele em que mais se complexificou a nossa relação com o território: fala-se de globalização, de dessemantização do espaço, de fragmentação do território e de desterritorialização. São modos de analisar o fim do tempo da territorialidade local compacta, tempo em que era possível encontrar imediatamente para cada pessoa, objecto ou acontecimento, uma rede estável de significação referida a um lugar. Se perduram as relações de proximidade, pequenas alianças do quotidiano que criam solidariedades locais, também é certo que nunca como hoje se fez a experiência da multiplicação das pertenças. No contexto de tal fragmentação e dessemantização do espaço humano, a grande metrópole vê, hoje, multiplicar-se aquilo a que o antropólogo  Marc Augé apelidou de não-lugares, ou seja, territórios que apenas são passagem para outros, sem densidade social que os qualifique como espaço de relação e comunicação (aeroportos, estações de metro, etc.). No contexto destas transformações, João Correia fala-nos das polémicas e discussões que hoje se travam quanto às relações entre a arquitectura e as outras ciências, nomeadamente a sociologia, a economia e a política, colocando “o habitar e o lugar” no coração da reflexão filosófica. Precisamente porque estamos num domínio decisivo para o futuro das sociedades em que vivemos, inauguramos neste fascículo uma das novas linhas editoriais que pretendemos implementar, a apresentação regular de centros de investigação relacionados com as problemáticas que tratamos – neste caso, o Centro de Estudos Territoriais do ISCTE.
As culturas urbanas são aquelas que apresentam mais testemunhos da complexidade de que falávamos. Aí se concentram as políticas de intervenção urbanística, as políticas de segurança e de integração social, aí se investe na gestão daquilo que provavelmente será a qualidade mais proeminente das culturas urbanas – o pluralismo. Hoje, a metrópole contemporânea não transporta apenas a coexistência de tempos diferentes (as zonas históricas, os monumentos, as zonas de expansão industrial, as formas arquitectónicas mais recentes), ela exibe também uma configuração multicultural que é consequência das relações que se estabelecem (ou não) entre os “nativos” e os “migrantes”, entre os antigos e os novos moradores. As culturas urbanas, marcadas pela emergência do espaço público, parece terem sofrido o impacto da expansão dos meios que levam os bens culturais e o lazer ao espaço doméstico, facto que terá reduzido a necessidade de frequentar os lugares públicos da cidade. Nuno Ladeiro mostra-nos como, neste contexto, se assistiu a um amplo investimento no espaço doméstico, onde o Design encontrou um terreno privilegiado de afirmação. Mas, note-se, a essa realidade de clausura no espaço doméstico parece corresponder também a necessidade de fugir à cidade, representada negativamente como lugar de violência e de poluição (tenha-se em conta a diversidade das práticas de fim-de-semana, a procura de uma segunda-casa ou o imaginário nostálgico em torno das civilidades rurais).

Também as religiões devem ser vistas como modos de habitar o mundo. A cultura bíblica pode ser lida sob o ponto de vista da sua influência na ecologia humana, sobretudo na medida em que parece ter dado  proeminência ao tempo em detrimento do espaço (neste sentido, será  muito estimulante aproximar essas referências culturais da reflexão que Luiz Cunha faz sobre o tempo, a partir da própria poética do espaço, a arquitectura). Como sublinhou P. Tillich, com o profetismo veterotestamentário o tempo levou de vencida o espaço; e Michel de Certeau viu nessa desassimilação da presença de Deus a um lugar um dos traços mais singulares do cristianismo (o “sem lugar” da fé). Isto não evitou, no entanto, que as Igrejas, na sua história, tivessem de lidar com essa espessura humana que é o território. Ou seja, essa herança profética não evitou que o cristianismo participasse na tendência para a “cosmicização” das suas práticas de fé (os lugares santos, a inscrição arquitectónica no espaço, a peregrinação, etc.) e não inviabilizou as formas de institucionalização de autoridades sobre o território (dioceses, paróquias, etc.). Duas formas particulares de compreender/praticar o espaço na tradição cristã conhecem aqui propostas de leitura: os lugares santos, na mira de um geógrafo (Marc Levatois); o espaço de clausura, nas tradições de vida consagrada, aqui apresentado, na primeira pessoa, pela Irmã Maria do Carmo Tovar.

Procurando chaves interpretativas nas tradições bíblicas para a problemática que nos ocupa, Philippe Lefébvre, em Habitar o lugar da carne, reflecte sobre a presença de Deus em termos de coabitação. De certo modo, toda a aventura que a Bíblia relata é a de uma lenta familiarização entre Deus e o Homem, perspectiva de leitura que o autor propõe a partir da narração de Génesis 2, da figura de David e do acontecimento do Messias Ressuscitado. No artigo Morada de Deus para os Homens, Thomas Söding apresenta-nos Jesus como aquele que não tem onde reclinar a cabeça, porque está a caminho. Esta “ausência” de casa, porém, é assumida por Jesus como um programa através do qual anuncia que a sua pátria é Deus. É esta pátria – onde existem muitas moradas e na qual se pode fazer a experiência de estar em casa – que Jesus torna presente e para a qual possibilita a entrada. José Tolentino Mendonça, em O espaço social da refeição, partindo da temática da refeição/comensalidade como referente de grandes possibilidades significativas, propõe-nos um olhar sobre alguns aspectos nucleares da identidade e missão de Jesus. Baseando-se num pequeno excerto da Didaqué, obra de grande prestígio escrita por autor desconhecido certamente no sec. I, Pio Gonçalo de Sousa, num breve artigo, apresenta algumas notas sobre a “hospitalidade” nas primeiras comunidades cristãs, permitindo a redescoberta da eclesialidade desse particular modo cristão de traduzir em acolhimento a experiência do “habitar”. Um habitar que, nas primeiras gerações cristãs, foi marcado quer pela experiência familiar/doméstica quer pela cultura da cidade – disso dá conta Marie-Françoise Baslez, permitindo-nos perceber a importância dessa experiência de urbanidade para as “teologias do mundo” que se desenvolveram.

Na última secção deste fascículo, juntámos algumas notas de leitura sobre um estudo acerca das práticas em torno de um museu das religiões (Alfredo Teixeira), um depoimento do Con. Carlos Paes sobre o Congresso Internacional da Nova Evangelização (tema a que daremos uma atenção continuada no próximo ano editorial), e ainda a nota conclusiva do Congresso sobre Santo Agostinho, que teve lugar em Leiria de 11 a 13 de Novembro de 2004. Respondendo à actualidade, inserimos um testemunho de João Fontes sobre a Comunidade de Taizé, procurando, desta forma, acompanhar uma experiência inédita para as Igrejas cristãs em Portugal: a realização, pela primeira vez em território nacional, do encontro mundial de jovens promovido anualmente pela Comunidade de Taizé.

 
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