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Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XX • 2003-08-31 • nº 4 • Julho/Agosto
Fé Cristã - Desafio à Criatividade
 
palavra-chave
 
   

artigos
Cristo - Memória criativa • pág 293
Clemente, Manuel
O que move o cristão ? • pág 301
Laborda, Alfonso Pérez de
Existência cristã hoje • pág 309
Miranda, Mário de França
Há uma responsabilidade pela “História” ? Sobre a relação dos cristãos com o tempo • pág 321
Lobkowicz, Nikolaus
Contributos ecuménicos para uma reflexão sobre a sustentabilidade do mundo • pág 334
Pinho, José Eduardo Borges de
Afirmar a identidade - Acolher o diferente • pág 352
Nadal, Emília
Vias do sagrado no ciberespaço • pág 362
Miguel, M. Luciana
Sousa, Manuel A. de
Poemas • pág 378
Mourão, José Augusto
Uma paróquia na periferia de Lisboa • pág 379
Baptista, António M. Campanha


apresentação

ALFREDO TEIXEIRA
MARIA LUÍSA FALCÃO


O número da Revista COMMUNIO que estas páginas introduzem responde a um desafio difícil: falar da fé cristã como competência para a criatividade. Algumas das ciências sócio-humanas têm lido a mundança nas religiões em geral, e no cristianismo em particular, sob o signo da adaptação – nesse contexto, raramente as espiritualidades, as mundividências religiosas, os modos crentes de habitar o território são interrogados na sua capacidade de recriação do mundo. Essa criatividade não corresponde aqui a uma remodelação da moderna ideologia de sacralização do novo, ela repousa sobre uma particular valorização da tradição, essa fonte que faz do crente alguém que se sente gerado. Habitar uma tradição é ter uma casa, é continuar a semear em solo arável, é a (re)descoberta do lugar de fundação que permite a cultura. No caso das comunidades cristãs, é reler a memória para continuar a descobrir o seu lugar na diversidade eclesial.

É necessário, no entanto, não perder de vista que esse regresso ao país interior pode enfrentar o risco de uma clausura em que a reflexão sobre as origens e a recitação da memória se transformam em ídolo do grupo,   totem que vigia as fronteiras da instituição. Frequentemente, a memória cristaliza-se num relicário, a instituição esgota-se celebrando os vestígios passados, os rastos de heroicidade, perseguindo um património que lhe dá uma ilusão de autenticidade e perenidade. A herança de uma família religiosa pode tornar-se um altar de celebração de si própria. Esse é um risco para todos os grupos que investem numa tradição na demanda da sua identidade. Parece claro, no entanto, que o evangelho cristão recusa essa redução da história crente à lei do grupo. Dir-se-ia que a Igreja é chamada constantemente a sair de si para encontrar “Aquele que vem” – como um ladrão, quando não se espera. É o apelo que vem do Outro que melhor traduz esse movimento do cristianismo para fora de si, recusando ser o baldaquino sagrado desta ou daquela cultura, mas abrindo-se à aventura das viagens pelos lugares, as linguagens, as culturas onde Deus fala uma língua ainda não traduzida.

Nos debates das últimas décadas sobre o “espírito da Europa” têm sido muitas as hesitações perante a avaliação do lugar do cristianismo nos itinerários históricos europeus – debates recentes incendiaram de novo    esse terreno de ambiguidades. Talvez seja importante recordar que a originalidade da Europa não é discernível sem a consideração daquele     olhar crítico face a si própria. Este sentido de autoconsciência crítica deverá alimentar um prudente cepticismo face às definições de Europa que vão na linha da sacralização de um tempo, de uma identidade, de uma unanimidade. A Europa subsiste como uma realidade irredutivelmente ecuménica. Neste quadro, as Igrejas, para encontrarem o seu lugar construtivo, terão de reinventar novas formas de exprimir a “teologia da comunhão” que as funda – uma unidade na caridade (“troca de dons”) –, num tempo em que se vive a urgência de novas solidariedades.

Com estas preocupações, organizámos um breve conjunto de itinerários que propõem uma reflexão teológica sobre a criatividade (M. Clemente), sobre o modo característico do cristianismo habitar o tempo (N. Lobko   wicz), sobre a tensão entre aquilo que os cristãos são já e aquilo que estão chamados a ser (A. Laborda), e sobre as exigências de uma consciência crítica acerca da actualidade da fé cristã (M. Miranda). Toda a condição crente vive desse intervalo entre a presencialização de uma memória e a capacidade criativa de a fazer frutificar em cada tempo e lugar. Nas sociedades complexas em que vivemos, a fé cristã não poderá furtar-se aos desafios da multiculturalidade (E. Nadal), deverá encontrar as vias de uma solidariedade ecuménica perante a nova (des)ordem do mundo (Borges de Pinho), e responder profeticamente ao que de novo se desvenda nos modos de comunicação e de socialidade que o ciberespaço permite (M. A. Sousa / M. L. Miguel).

Não terminaremos sem dar lugar à palavra poética e orante (J. A. Mourão), – essa palavra que pressente com maior acuidade os enigmas do mundo – e à reflexão sobre uma experiência comunitária concreta, a participação do Pe. António Manuel Campanha Baptista na construção da Paróquia da Buraca, na Grande Lisboa, lugar desafiante onde foi necessário imaginar uma pastoral integradora do território estilhaçado das periferias urbanas: Todos os Bairros numa Igreja Unida.

 
  KEOPS multimedia - 2006