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Autor
Ano XIX • 2002-10-31 • nº 5 • Setembro/Outubro
“Não Temais”
 
palavra-chave
 
   

artigos
“Não temais”. Apelo dos Evangelhos • pág 389
Nunes, José
A parresia dos mártires. A coragem de afirmar a fé • pág 394
Lamelas, Isidro Pereira
O cristão e a sua angústia. Uma reflexão com Hans Urs von Balthasar • pág 407
Splett, Jörg
Espírito de diálogo em tempo de provação • pág 423
Riccardi, Andrea
O tema do temor de Deus nas missões populares • pág 433
Sanches, Acácio
Do medo à aceitação da diversidade. Um itinerário possível • pág 446
Miglio, Carlamaria Del
Economia e solidariedade • pág 456
Beretta, Simona
O outro lado do silêncio • pág 466
Jorge, João Miguel Fernandes
Messiaen e o fim do tempo. No décimo aniversário da sua morte (1908-1992) • pág 476
Carrapatoso, Eurico


apresentação

MARIA C. BRANCO
PETER STILWELL


Diz S. João que “no amor não há temor; pelo contrário, o perfeito amor lança fora o temor; e quem teme não é perfeito no amor” (1Jo 4,18).
Num mundo do qual hoje o medo e a insegurança parecem ter tomado conta, como podem os cristãos responder ao imperativo evangélico “Não temais!”? É justamente a questão que este número da COMMUNIO pretende reflectir, apresentando para isso um conjunto de contributos que, embora tocando diferentes áreas, tem em comum a confiança e esperança no Deus Pai de misericórdia.

A abrir o número, pode ler-se um artigo de José Nunes sobre o “não temais” como apelo preferencial dos Evangelhos. São-nos sugeridas três dimensões da vida do cristão em que se faz o desafio da fé: primeiro, num aspecto mais pessoal, perante situações difíceis que se nos apresentem; segundo, no plano histórico-social, perante conjunturas complexas e de incerteza; e, por último, no plano eclesial em que o Autor, diante da vastidão da missão evangelizadora, lembra o desafio lançado a Pedro: “Faz-te ao largo” (Lc 5,4).

A Igreja dos primeiros tempos – época de violentas perseguições – ficou também conhecida por “Igreja dos mártires” precisamente devido à coragem em afirmar a fé de que deram testemunho tantos cristãos (Isidro Lamelas). Recorda-se, ainda, que toda a história do cristianismo tem sido continuamente tecida por essa semente de coragem de tantas mulheres e homens que até hoje deixaram de lado o medo dando a sua vida pela fé num Deus pleno de misericórdia.(1)

Hoje, contudo, privilegiamos o diálogo. Mas este não exclui o martírio. Diálogo e martírio são duas atitudes distintas da mesma história da Igreja do sec. XX. Seguindo os ensinamentos do Concílio Vaticano II e os dias de oração pela paz em Assis, da iniciativa de João Paulo II, que reuniram dirigentes de todas as grandes tradições religiosas, vai amadurecendo a perspectiva do diálogo entre as religiões enquanto expressão profunda do amor cristão (Andrea Riccardi).
Em que consiste, porém, a angústia para o cristão? A partir de uma reflexão de Hans Urs von Balthasar, Jörg Splett propõe uma fundamentação bíblica e teológica para a questão. Discutindo ainda a posição de Kirkegaard, conclui: “a possibilidade da redenção da angústia, a sua transfiguração (‘em penhor’) é já agora actuante, não só na união mística no Jardim das Oliveiras e na cruz, mas também e sobretudo na mortificação das angústias que dia-a-dia – e de noite – nos visitam”.

Nos anos 40, em Portugal, iniciaram-se as Missões Populares organizadas pelos Frades Capuchinhos. Era uma forma de evangelização que  tinha como propósito revitalizar a vida cristã. Acácio Sanches traça-nos o lugar que ocupava, nessas catequeses, o tema do temor de Deus.
Um dos domínios da nossa vida social em que está hoje patente o medo é o que respeita à imigração, à forma como acolhemos, ou não, o outro. Com a imigração somos confrontados com o “diferente”, o “novo”, o “desconhecido”, e a primeira reacção é de medo e desconfiança. Carlamaria Del Miglio, propõe-nos um itinerário capaz de superar esse medo, por meio do verdadeiro conhecimento do outro na solidariedade e na partilha. Solidariedade é também a palavra-chave, no campo da economia, para enfrentarmos as “coisas novas” e construirmos uma globalização sem marginalização, em lugar da “globalização do medo” (Simona Beretta).

Concluímos este fascículo com dois textos em que se procura aproximar o imperativo “não temais” da arte, em geral (João Miguel Fernandes Jorge), e da música em particular (depoimento de Eurico Carrapatoso). Para o primeiro destes autores, “não temais”, em arte, significa a não existência de barreiras; apenas os limites da imaginação têm lugar. O segundo – na passagem do décimo aniversário da morte de Olivier Messiaen – historia a obra “Quarteto para o fim do tempo”, que o compositor católico escreveu em 1940, quando preso num campo de concentração. A peça, como toda a sua música, é uma afirmação de esperança n’Aquele que nos interpelou com a promessa: “Não temais, estarei convosco até ao fim dos tempos.”


(1)  Foi publicada, há pouco, a tradução portuguesa de um livro de Andrea RICCARDI, O século do martírio (Lisboa: Quetzal 2002), em que o A. apresenta, partindo dos relatórios chegados à Comissão dos novos mártires, existente no Vaticano, uma exposição dos milhares de mártires do século XX, incluindo também mártires de outras religiões.

 
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