Pgina Inicial  
revistas artigos autores noticias  
Página Inicial
Direcção e Redacção
Conselho de Redacção
Estatuto Editorial
Condições de assinatura para 2014 e 2015
Edições noutros países
Livrarias onde Adquirir
Publicações Communio
Nota Histórica
Ligações
Contactos
Pesquisa
Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano XIX • 2002-08-31 • nº 4 • Julho/Agosto
Providência e Liberdade
 
palavra-chave
 
   

artigos
Pertença religiosa e cidadania. As mulheres como transmissoras de uma matriz cultural • pág 171
Coutinho, Ana Paula
A ternura de Deus • pág 293
Mendonça, José Tolentino
Job ou o homem livre face a Deus • pág 302
Vaz, Armindo
Deus na nossa vida • pág 311
Henrici, Peter
Providência divina e liberdade humana • pág 321
Blanc, Mafalda de Faria
A providência sob o risco da liberdade • pág 327
Lavaud, Laurent
Liberdade humana e liberdade cívica • pág 340
Gonçalves, Joaquim Cerqueira
A providência no feminino. Reflexões sobre o Livro de Rute • pág 352
Ferreira, Maria Luísa Ribeiro
Tragédia, liberdade e necessidade • pág 366
Serra, José Pedro S.
Onde está Deus? Testemunho • pág 378
Gabriel, João Amado
A imperscrutável mão de Deus. Testemunho • pág 380
António


apresentação

MARIA LUÍSA RIBEIRO FERREIRA
JUAN FRANCISCO AMBROSIO


A relação Providência e Liberdade tem constituído um tema maior na reflexão teológica e filosófica do mundo ocidental. O dilema da conciliação de uma providência divina com a liberdade humana é recorrente na metafísica cristã que, ao longo dos tempos, tem tentado responder às grandes interrogações que atravessam o Antigo e Novo Testamento: como conciliar a solicitude amorosa de um Deus sumamente bom com a existência do mal presente no mundo? Que espaço dar ao homem, enquanto autor da sua história e da História, num universo que acreditamos ter um sentido último? Serão compatíveis a omnipotência e omnisciência divinas e a liberdade humana? O que entender hoje por liberdade?

O presente número da COMMUNIO é uma tentativa de repensar estas temáticas, fazendo cruzar vários tipos de abordagem, com particular destaque para a hermenêutica dos textos bíblicos, a reflexão filosófica e a consideração das vivências de homens e mulheres do século XXI.

Para José Tolentino Mendonça a presença de um Deus providencial no Antigo Testamento contrasta com a ausência de uma referência explícita ao conceito de providência. Esta exprime-se na figura de um Deus pessoal que encontra na História e nas histórias individuais um lugar decisivo da sua manifestação. No que se refere ao Novo Testamento, verificamos que aí a providência coincide com o exercício da paternidade divina, na sua ternura providencial, concretizada na vida e destino de Jesus.

Armindo Vaz apresenta o livro de Job como um drama sapiencial onde a teologia da retribuição terrena é questionada, mostrando-nos um homem livre que nunca põe em causa a providência divina nem nunca perde a fé na bondade do Criador. A crença determinista em prémios e castigos decorrentes das boas e más acções dos homens, é substituída, em Job, pela fé num Deus que “só por livre amor pode e quer ser louvado”.

É este sentido profundo de liberdade que encontramos no texto de Joaquim Cerqueira Gonçalves. As duas referências decisivas do conceito ocidental de liberdade devem-se à cultura greco-romana e à influência do cristianismo. Com gregos e romanos identificámos liberdade e cidadania. O sentido cristão de liberdade introduz alterações radicais a esta concepção do que é ser livre, ultrapassando as dimensões sócio-políticas e visando a totalidade da pessoa humana.

Mafalda Faria Blanc considera o diálogo entre providência divina e liberdade humana enquanto filosofema específico da metafísica cristã. É a génese desta relação desigual que nos é traçada, numa hermenêutica que vai dos textos do Antigo Testamento às interpretações filosóficas e teológicas da contemporaneidade.

José Pedro Serra aprofunda o conceito grego antigo de tragédia a que “corresponde uma crise, momento de perplexidade e mistério onde se conjugam a necessidade e a liberdade”, mas em que a tragédia “pode estar próxima do autêntico reconhecimento e da experiência de algo mais, numa unidade que ultrapassa a fractura trágica”. Já no sentido especificamente cristão, Laurent Lavaud reflecte sobre a providência divina sob o risco da liberdade que na cruz de Jesus Cristo se nos revela. Ela permite-nos aprofundar a visão tomista da providência divina como condição da liberdade humana e criticar o pensamento que as vê numa falsa concorrência.

Na discussão com as diferentes concepções de providência, Mons. Peter Henrici traça um caminho de clarificação. Desta resulta a atitude de alegria e esperança dos que crêem na presença de Deus na sua vida.

O texto de M. Luísa Ribeiro Ferreira, sobre o livro de Rute, releva um modo feminino de entender a providência divina, através da amizade entre duas mulheres – a sogra Noemi e a nora Rute. Esta relação, muitas vezes associada ao conflito, é apresentada com a especificidade dos valores femininos da cordialidade, da amizade e do cuidado.

Os dois testemunhos assinalam como a providência divina é experienciada em universos bem diferentes como os da guerra e da paz. João Amado Gabriel leva-nos à guerra no Afeganistão, tentando encontrar o rosto de Deus em cenários em que Ele é continuamente negado pela intolerância e a violência. Com António partilhamos a viagem à infância, ao Deus temível de que lhe falaram, e ao Deus de Amor que se revelou no    âmago dos acontecimentos mais desconcertantes.

 
  KEOPS multimedia - 2006