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Autor
Ano II • 1985-10-30 • nº 5 • Setembro/Outubro
Cidade de Deus-Cidade dos Homens
 
palavra-chave
 
   

artigos
O Leigo, a Igreja e o Mundo

Uma ou duas cidades? • pág 393
Galvão, Henrique de Noronha
A Igreja e o Mundo: conflito ou convergência? • pág 397
Policarpo, D. José da Cruz
Autoridade e consciência: mediações do reino • pág 405
Stilwell, Peter
Dimensão profética do leigo • pág 417
Pinho, José Eduardo Borges de
Igreja e mundo operário • pág 435
Gonçalves, Agostinho Jardim
O anti-clericalismo em Portugal no século XIX • pág 440
Macedo, Jorge Borges de
A Esperança • pág 451
Ratzinger, Joseph
Libertação para a liberdade • pág 465
Alves, Manuel Isidro
Os cristãos e a política: breve nota • pág 475
Miranda, Jorge
O Cristão e o Mundo. Testemunhos • pág 486
Cardoso, Augusto Lopes
Ribeiro, Manuel António


apresentação

H. NORONHA GALVÃO

"Cidade de Deus – Cidade dos homens" é o indicativo temático que escolhemos para o presente número da COMMUNIO. Uma tal expressão desde que St. Agostinho escreveu a sua célebre obra "De civitate Dei", evoca necessariamente a doutrina deste Padre da Igreja. Não nos podemos portanto furtar a um breve confronto com o seu pensamento, quando nos decidimos a adoptar expressão tão agostiniana. Como o formulámos, o tema apresentava-se com ambiguidade.(1) Efectivamente, ao lê-lo na perspectiva que domina nos nossos dias, somos levados a entender que se trata de "uma e mesma cidade". "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" – esta a afirmação primeira da Constituição Pastoral do Concílio vaticano II. Se a Igreja é expressão do Amor de Deus que "amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único" (Jo 3,16), então não há maneira de distinguir adequadamente Igreja e mundo como se duas realidades diversas se tratasse.(2) Neste sentido, a "cidade de Deus" é a "cidade dos homens", dos homens que optaram por Deus e correspondem ao seu Amor manifestado em Jesus Cristo. Mas, ao dizermos isto, estamos a supor como também possível que os homens "não" optem por Deus. Surge assim aquela cidade dos homens que "não é" cidade de Deus. Se toda a cidade de Deus é cidade dos homens, no entanto, nem toda a cidade dos homens é cidade de Deus. A ambiguidade das palavras cobre, pois, uma ambiguidade de fundo. E da ambivalência ética do homem exposto à sua própria decisão livre deriva, para St. Agostinho, o carácter dramático e trágico da História. Tragédia inaudita fora a invasão e pilhagem de Roma, em 410, pelas hordas bárbaras comandadas por Alarico. A orgulhosa capital do Império, tido por inexpugnável, caíra nas mãos dos inimigos. E não faltaram vozes dos que ainda praticavam os cultos pagãos, para acusarem os cristãos de terem, com a sua fé, retirado a Roma os favores dos deuses. Sob a urgência pastoral de dar resposta a tais ataques, decide-se o bispo de Hipona a escrever extenso tratado em que desenvolve ideias que já encontramos em suas obras anteriores. Tratava-se de mostrar que a verdadeira razão da decadência de Roma estava na sua demissão ética, pela qual se havia afastado daquelas virtudes que tinham tornado possível a construção de uma próspera cidade dos homens. A conversão a Jesus Cristo, longe de ter causado a tragédia, poderia tê-la evitado se tivesse sido mais profunda e vasta, por constituir ocasião única de reconduzir a Deus aqueles que, pelo pecado, se afastavam d'Ele. É pois no plano ético que se podem distinguir "duas cidades" que se afrontam: a cidade dos homens que é de Deus, e a que pretende apenas ser dos homens sem ser de Deus; a que é terrena sendo também celeste, e a que orgulhosamente apenas quer ser terrena; a que ama a Deus, e a que se revolta contra Deus; a Jerusalém da Graça e a Babilónia do pecado. "Dois amores fazem estas duas cidades: o amor de Deus faz Jerusalém, o amor deste século faz Babilónia."(3) Jerusalém e Babilónia são os símbolos das duas cidades. Segundo interpretação adoptada por St. Agostinho a primeira significa "visão de paz" e a segunda "confusão".(4) Em Babilónia, os homens não têm aquela percepção da "verdade" que lhes permita "distingui-la" do erro, para evitarem este e seguirem aquela. Amar a Deus significa amar a verdade para a cumprir. Só assim se "faz a verdade",(5) isto é, se realiza o valor moral do bem reconhecido pela inteligência como a verdade da vida. É o indiferentismo moral que St. Agostinho designa pelo termo "confusão", porque esse indiferentismo impede que o homem se preocupe em procurar a verdade "distinguindo-a" do erro, para a poder então realizar. À "confusão" de Babilónia contrapõe-se a "visão" de Jerusalém. E o que é a verdade que Jerusalém vê, senão aquele princípio de unidade e harmonia que permite à cidade dos homens superar a confusão e a discórdia na verdadeira paz? Só na verdade se encontra a unidade. E só na verdade do bem se encontra o dinamismo que salva os homens e a sua cidade. Jerusalém é "visão de paz", porque só nela se atinge a verdadeira paz pelo conhecimento da verdade que conduz a ela.

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Não é finalidade de uma revista apresentar um conjunto sistematicamente elaborado de pensamento, mas intervir no momento cultural em que vive e de que vive, com o seu contributo próprio. Pelo indicativo temático se diz qual a preocupação precisa que levou à recolha dos vários contributos, julgados necessários ou com interesse para um determinado assunto ou questão, importante na actualidade em que nos encontramos. A um primeiro artigo fundamental, de D. José Policarpo, acerca da "Igreja e Mundo – conflito ou convergência", seguem-se outros em que essa relação é considerada mais particularmente, na função própria dos leigos: "Autoridade e consciência – mediações do Reino", de Peter Stilwell, "Dimensão profética do leigo", de José E. Borges de Pinho, e uma leitura do encontro e confronto da "Igreja e mundo operário", de A. Jardim Gonçalves. Concretizando no caso português, publica-se a importante investigação de J. Borges de Macedo sobre "O anticlericalismo em Portugal no século XIX". Que dimensão de esperança dinamiza a cidade dos homens que se assume como cidade de Deus? Em que se distingue da esperança de quem se empenha na construção de cidades puramente terrenas? É o assunto do artigo teológico "A esperança" do Cardeal Joseph Ratzinger. Por seu lado, numa retrospectiva bíblica, M. Isidro Alves recorda que a salvação oferecida por Deus é "Libertação para a liberdade", e nunca para outra forma mais subtil de escravatura, nem mesmo a da Lei. Entrando na aplicação desta doutrina ao quotidiano do cristão no mundo, Jorge Miranda escreve sobre "Os cristãos e a política" e A. Bruto da Costa sobre "O leigo, a Igreja e o mundo". Dois testemunhos finais sobre a referência ao mundo duma existência cristã vivida quer por um leigo – A. Lopes Cardoso –, quer por um presbítero – Manuel António Ribeiro –, são os restantes contributos para o tema deste fascículo.

(1) Não nos referimos, neste momento, à multiplicidade de interpretações a que o pensamento de St. Agostinho, em geral, e o tema da Cidade de Deus, em particular, tem sido sujeito. Cf. Étienne Gilson, "Les métamorphoses de la Cité de Dieu", Paris: J. de Vrin 1952. Esta obra apareceu em português, com uma infiel tradução do título: "Evolução da Cidade de Deus", São Paulo: Herder 1965. Acerca do chamado "Agostinismo político", que não tem muito a ver com o pensamento de St. Agostinho, cf. H.-X. Arquillière, "L'Augustinisme politique", Paris: J. de Vrin, 2ª ed. 1970.

(2) A respeito da união íntima entre a história dos homens e a obra de Deus, em Jesus Cristo, cf. António dos Santos Marto, "Progresso humano e Reino de Deus", in: Humanística e Teologia 4 (1983) 5-58. "A obra de transformação e humanização do mundo é integrada e levada a termo no mistério pascal de Cristo onde a plenitude da lei e o dinamismo de transformação é o amor. O progresso humano, enquanto expressão de serviço e fraternidade, finalizada na promoção do homem, tem assim uma relação íntima com o Reino de Deus. Torna-se expressão do senhorio salvífico de Cristo actuante no Espírito e é destinado a ser assumido, depois de purificado, na plenitude futura, nos seu valores de dignidade, liberdade e fraternidade, como momento e aspecto da humanidade redimida e glorificada em Cristo." (ibid., 57s) Todo o artigo é valiosa apresentação da doutrina do Concílio Vaticano II, estudada à luz das discussões que conduziram à sua elaboração.

(3) En. in ps. 64, 2; PL 36, 775. Cf. De civ. Dei XIV 28; BA 35, 464; En. in ps. 86; PL 37, 1106: "… todos os iníquos pertencem a Babilónia, do meso modo que todos os santos a Jerusalém."

(4) Cf. En. in ps. 64, 2; PL 36, 773. Para o significado de Jerusalém, cf. De civ. Dei XIX 11; BA 37, 96s, nt. 3. Para o significado de Babilónia, cf. ibid. XVI 17; BA 36, 248-249, nt. 2-744ss.

(5) Cf. Conf. X 1-1; BA 14, 140; ibid. 37-62; 254.

 
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