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Autor
Ano XVIII • 2001-02-28 • nº 1 • Janeiro/Fevereiro
Arte e Liturgia
 
palavra-chave
 
   

artigos
Estética e religião. História de um desencanto? • pág 005
Duque, João Manuel
Liturgia, comunicação e modernidade • pág 015
Mourão, José Augusto
Arquitectura, mistério e liturgia • pág 028
Crippa, Maria Antonietta
Liturgicidade da música. Estado actual da questão • pág 036
Antunes, José Paulo Costa
“Ó meu Menino”. Obra para coro • pág 050
Carrapatoso, Eurico
Culto e cultura. O caso da organaria portuguesa (secs. XV a XIX) • pág 058
Doderer, Gerhard
A liturgia do próximo em Levinas • pág 067
Beckert, Cristina
Compreensão da vida em Fr. Agostinho da Cruz • pág 078
Pires, João Carlos Urbano
A Escola diocesana de Música Sacra de Lisboa. Serviço à música litúrgica e seus agentes • pág 090
Sousa, Teodoro Dias de
Mozart • pág 093
Balthasar, Hans Urs von


apresentação

ALFREDO TEIXEIRA

A revista COMMUNIO inicia mais um ano editorial abrindo um espaço de diálogo para a arte e a liturgia cristã. Não se trata de um número sobre “arte sacra”. Procurou-se, antes, observar como a arte visita os lugares e modos da liturgia cristã e como esta a acolhe na demanda da renovação das suas formas expressivas. Nas sociedades contemporâneas, este encontro parece dizer-se cada vez mais no registo de uma autonomia comunicante: nem a liturgia pode encerrar-se em ideais estéticos, nem a arte que a visita se reduz ao lugar de função sem resto.

Nos itinerários de racionalização das mundividências ocidentais desenvolveram-se tensões ou conflitos entre as diversas esferas da realidade – a relação estética-religião é um desses lugares de conflito. Dessa história nos fala João Duque, desde a “religião da arte” na antiguidade clássica até à “arte como religião”na modernidade, passando pela “arte de uma religião” no contexto da cristianização do Ocidente.

Neste contexto moderno, a liturgia cristã, nas suas dimensões institucionais e simbólicas, aparecia demasiado amarrada a um conjunto recebido de códigos que a paixão da actualidade queria ultrapassar. José Augusto Mourão respondeu ao desafio de pensar a liturgia cristã neste contexto determinado pela crise da memória e da tradição.

Estas tensões e interrogações parecem traduzir-se igualmente no actual debate musicológico e teológico sobre a liturgicidade da música: poderemos estabelecer critérios teológicos que definam a qualidade “litúrgica” de uma prática musical ou estamos condenados à verificação de que é litúrgica a música que numa determinada acção foi produzida e recebida como tal por um grupo celebrante? José Paulo Antunes interroga-se acerca dessas condições que possibilitam que um determinado momento musical possa ser expressão de uma acção ritual litúrgica.

O crescente interesse pela organaria portuguesa parece apontar para o facto de que a modernidade sempre soube incorporar, mesmo se sub-repticiamente, a tradição. Como fica patente no artigo de Gerhard Doderer, alguns dos exemplares que integram essas centenas de órgãos construídos nos últimos quatrocentos anos têm um particular valor devido à sua concepção e qualidade organológicas e são testemunho vivo de uma das facetas mais importantes da história musical do país. Neste contexto, seria interessante reflectir sobre o lugar do património artístico na celebração cristã – ela própria marcada pela intenção de “fazer memória” –, dando substância a uma relação que pode não ser apenas etimológica: culto e cultura.

A celebração cristã é uma acção de um grupo crente num lugar, que assim se torna um lugar simbolicamente construído. A arquitecta italiana Maria Antonietta Crippa, com uma larga experiência neste domínio, procura encontrar algumas vias de resposta, num contexto em que a arquitectura contemporânea tende a ver o espaço sagrado moderno “como lugar não hierárquico mas de convergência entre Deus e o homem, espaço tornado sagrado não por uma presença sagrada, mas intrinsecamente sacro, por isso não sacralizado por factores iconográficos nele introduzidos, mas pelo próprio gesto do homem que lhe inventa a forma”.

Neste percurso de aproximações entre linguagens diversas, não poderíamos deixar de lado a literatura, em particular, a poesia. A sua singular capacidade para recitar o sagrado atraíu muitos cristãos em todas as épocas e geografias. João Carlos Salvador Urbano Pires fala-nos de Frei João da Cruz (sec. XVI): “Este poeta que subiu a Serra da Arrábida, geograficamente a meio do país e cronologicamente a meio da existência, do alto da penha relança o olhar para o Minho distante, para reler o seu percurso histórico à luz da Luz e nele entender, entre os homens e os acontecimentos que conheceu, o desígnio misterioso de Deus.”
Estamos convictos de que a reflexão sobre estética e liturgia não pode encerrar-se numa discussão acerca do gosto, da linguagem ou da forma. Recordar Levinas é, precisamente, interrogar-se acerca da identidade entre liturgia e ética. Cristina Beckert acompanha-nos nessa visita à obra do filósofo judeu, procurando perceber o alcance da expressão “liturgia do próximo”.

Inclui-se neste fascículo, em jeito de depoimento, um texto de Hans Urs von Barthasar sobre Mozart e uma breve notícia sobre a Escola Diocesana de Música Sacra de Lisboa – vocacionada, à semelhança de outras em diversas dioceses, para a formação básica dos agentes da música litúrgica. Num gesto inédito na história da revista, publicamos aqui uma obra coral de Eurico Carrapatoso.

 
  KEOPS multimedia - 2006