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Tema da Revista
Titulo do Artigo
Autor
Ano II • 1985-08-31 • nº 4 • Julho/Agosto
Oração
 
palavra-chave
 
   

artigos
Para uma teologia da oração cristã
Balthasar, Hans Urs von
Oração e mística • pág 311
Walgrave, Jean Hendrik
Oração e contemplação na acção • pág 327
Fragata, Júlio
A crise da oração • pág 335
Ferraz, Agostinho M.
A oração no seu meio eclesial • pág 344
Chantraine, Georges
Oração e racionalismo no século XIX em Portugal • pág 360
Clemente, Manuel
Tradição contemplativa portuguesa - selecção de textos • pág 367
Chagas, Frei António das
Jesus, Frei Tomé de
Lisboa, Santo António de
Vieira, Padre António
O silêncio na oração • pág 371
Speyer, Adrienne von
A oração privada • pág 373
Sarmento, António Figueiredo
Que significa para mim a oração • pág 383
Reis, Carlos
Nadal, Emília


apresentação

MARIA MANUELA DE CARVALHO – LUÍS FILIPE THOMAZ

Nesta nossa época activa e tantas vezes excitada, como é necessário que nos arranquemos ao imediato que nos atrai e envolve! A humanidade precisa de silêncio orante. É ele que lhe permite profundidade na reflexão, criatividade na acção e verdadeira capacidade de construir um mundo melhor. Nesse silêncio orante, mais do que dizer a Deus muitas palavras nossas, acolhemos a Palavra Viva que nos conduz e nos faz entrar na obediência ao Pai pela acção do Espírito Santo. Não é, pois, de admirar que a COMMUNIO haja decidido dedicar à oração um dos seus números. Abre-o Hans Urs von Balthasar com um artigo que poderíamos chamar "de fundo", sobre o problema da especificidade da oração cristã. Porque, como muito bem nota o autor, a oração, longe de ser um fenómeno específico do cristianismo, é um fenómeno humano universal – mas que é exactamente no seio do cristianismo e da cultura por ele inspirada que mais tende a verificar-se. Comparada à oração pagã e à oração judaica, a oração cristã apresenta como nota distintiva o ser fundamentalmente cristológica – Cristo é o único medianeiro, é por Ele que temos acesso ao Pai – e essencialmente trinitária. Mas a oração só é autêntica quando, pelo vínculo da caridade – o amor recíproco entre Deus e o homem –, o homem permanece unido a Deus. Toda a oração é, por isso, em certa medida, mística, pois a união com Deus não é uma junção, mas uma unidade num sentido profundo, que ultrapassa os nossos poderes de representação. A oração torna-se assim uma forma de conhecimento. É o que nos explica, no seu artigo "Oração e mística", Jean H. Walgrave. É esse também o ponto de partida do artigo seguinte de Júlio Fragata, intitulado "Oração e contemplação na acção", que analisa a delicada questão das relações entre contemplação e acção. O problema da crise da oração no mundo moderno, já aflorado por von Balthasar, é em seguida especificamente desenvolvido por Agostinho ferraz; aí se analisam as causas da crise e se preconizam algumas normas práticas para a superar. Se as relações entre a oração litúrgica e a Igreja como sacramento de Deus são óbvias, já outro tanto se não passa com a oração individual, privada. A articulação entre ela e o meio eclesial passa tradicionalmente pelo que se chama a direcção espiritual. Estará essa prática – que remonta ao aparecimento dos primeiros "profissionais da oração", os Padres do Deserto, pelo sec. IV – ultrapassada em nossos dias? É esse um dos temas que no seu artigo desenvolve George Chantraine. Mas também a oração foi objecto de polémica, sobretudo no sec. XIX, quando o progresso das ciências naturais e o sucesso dos seus métodos analíticos e quantitativos espalhou na cultura ocidental a convicção ingénua de que a breve trecho se iria explicar racionalmente todo o universo. Que lugar haveria para a oração num mundo mecânico, matematicamente regulado por leis simplesmente racionais e imutáveis? Em "Oração e racionalismo no século XIX em Portugal", explica-nos Manuel Clemente algumas facetas dessa polémica entre nós. Se há no Ocidente especialistas da oração – o que equivale a dizer, da vida contemplativa –, esses são sem dúvida os Cartuxos. Neste ano de 1985, em que se comemora, ao mesmo tempo, o nono centenário da grande Cartuxa alpina de S. Bruno e um quarto de século da Cartuxa de Évora, a única existente em Portugal, era de toda a lógica dar aos filhos de S. Bruno ao menos uma pequena palavra neste número de COMMUNIO. Representantes de uma tradição que, como um rio inesgotável mas discreto, atravessa, por vezes silenciosamente, os séculos, fizeram sua a voz dos maiores na fé, seleccionando para nós algumas páginas da tradição contemplativa portuguesa. O número conclui com o artigo sobre "A oração privada como alimento indispensável da vida espiritual", que o seu autor, António Figueiredo, intitulou modestamente de "apontamento", e com quatro testemunhos como resposta à questão: "Que significa para si a oração?". Julgamos assim ter posto à disposição do leitor um razoável acervo de materiais para reflexão sobre o tema candente da oração. A tradição mística oriental, na esteira de Evágrio Panteno, não se cansa de afirmar: "Se és teólogo, oras verdadeiramente; se oras verdadeiramente, és teólogo." Na oração, o homem encontra-se consigo mesmo, porque se encontra com Deus; e desse encontro não pode sair senão mais homem, porque sai divinamente humano. Por tal motivo é na oração que tudo quanto o homem é, possui ou sabe sobre Deus, sobre si mesmo e sobre o mundo, adquire a perfeição e atinge a significação plena.

 
  KEOPS multimedia - 2006